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Taxa de homicídios caiu nas grandes cidades do Brasil entre 2000 e 2017

Porém, aumento da violência nas cidades pequenas contribuiu para recorde de mortes violentas em 2017

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Um novo estudo  mapeou as variações  nas taxas de homicídios no Brasil de 2000 até 2014. Publicado na revista Injury Epidemiology, a pesquisa mostra o sucesso de iniciativas contra a violência em algumas das maiores áreas urbanas do país, como São Paulo e Rio de Janeiro. Porém, a explosão de homicídios em áreas em desenvolvimento no Nordeste  servem como alerta para outros países. 

“Enquanto caíam  as taxas de homícidio em diversas cidades mais populosas, houve um crescimento em municípios com um número menor de habitantes”, diz a autora do estudo Elaine Nsoesie, professora assistente de saúde global na Escola de Saúde Pública da Universidade de Boston (BUSPH). 

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“Esse é um alerta para outros países”, diz o autor sênior do estudo, Adauto Martins Soares Filho, especialista em sistemas de informação de saúde no Departamento de Vigilância Sanitária no Ministério da Saúde do Brasil. 

 O Brasil tem enfrentado uma grave epidemia de violência, causada pelo tráfico de drogas e de armas e por conflitos envolvendo a posse de terra. Ao longo das duas últimas décadas, o país observou a diminuição das taxas de homicídios em cidades grandes, ainda que tenha havido um crescimento  da taxa nacional: o Brasil teve 63.880 homicídios em 2017 (o ano mais recente com dados disponíveis), seu maior recorde. 

Para entender como a geografia da violência do Brasil mudou, os pesquisadores utilizaram dados do Sistema de Informação de Mortalidade do Ministério da Saúde e dados sociodemográficos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, e criaram modelos de espaço-temporais para identificar padrões nas taxas de homicídios e avaliar o papel de diferentes fatores estruturais. 

Os pesquisadores descobriram que os indicadores mais fortes para que uma área apresente maior taxa  de homicídios incluem maior produto interno bruto, proximidade a uma fronteira internacional e uma maior proporção dos habitantes na faixa entre  15 e 29 anos. Eles também descobriram que, a medida que as iniciativas para reduzir a  violência em cidades maiores obteve sucesso, tal violência pareceu simplesmente  se mover para áreas vizinhas menos urbanizadas. 

“Nós propomos  que as polícias precisam lidar com  esse transbordamento espacial da violência, uma vez que as intervenções têm se focado lugares específicos”, diz Nsoesie. “Nós também propomos a adoção de políticas que procurem lidar com o aumento nas taxas de pobreza em grupos populacionais específicos, que tendem a ocorrer em paralelo ao desenvolvimento econômico”. 

Mas Nsoesie e Soares Filho reconhecem que os desafios são enormes, especialmente agora que a pandemia da COVID-19 ameaça reverter décadas de progresso em muitas áreas — e conforme o governo enaltece políticas que ameaçam aumentar a violência fatal, como o relaxamento da legislação do porte de arma no país em 2019. 

“Uma trajetória bem sucedida na redução de homicídios depende de vontade política e da capacidade de liderar a construção de uma sociedade pacífica, justa e inclusiva”, diz Soares Filho. 

Publicado em 09/09/2020