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Surto de casos de COVID na Índia intriga cientistas

O vírus está se espalhando mais rápido do que antes no país, apesar da existência prévia de altas taxas de infecção, que deveriam ter fornecido alguma proteção.
Aumento no número de casos de covid19

Créditos: Pixabay

A pandemia está se alastrando pela Índia em um ritmo que espanta os cientistas. A quantidade de casos diários  explodiu desde o início de março. No dia 18 de abril, o governo do país anunciou que foram detectadas 273.810 novas infecções. Esses números também ajudaram a impulsionar as taxas globais de COVID, que chegaram a marcar 854.855 novas ocorrências por dia, quase superando o recorde quebrado em janeiro deste ano.

Apenas alguns meses antes, dados de pesquisas sobre anticorpos sugeriram que muitas pessoas em cidades como Delhi e Chennai já teriam contraído o vírus. Isso levou muitos especialistas a pensarem que pandemia que a pior parte da pandemia na Índia havia passado.

Mas agora pesquisadores indianos estão tentando descobrir o que está por trás desse aumento sem precedentes do número de casos. Ele pode estar relacionado a uma junção infeliz de diversos fatores, incluindo o surgimento de variantes virais, a diminuição das restrições de isolamento e uma baixa taxa de vacinação. Identificar as causas desse fenômeno pode ser de extrema importância para ajudar outros governos a conter ou prevenir a proliferação da pandemia.

Nações europeias como França e Alemanha também estão atravessando  enormes surtos da doença, em relação à população de cada uma.  Além disso, países como Brasil e Estados Unidos apresentam um alto número de infecções diárias, em torno de 70 mil. Mesmo assim, as taxas indianas estão entre as mais altas já registradas no mundo, não muito distantes dos 300 mil casos observados nos EUA em 2 de janeiro.

“A primeira onda parece insignificante”

Em setembro de 2020, as taxas de COVID-19 começavam a cair, após um período na base de 100 mil novos casos por dia.  No entanto, em março deste ano, elas voltaram a subir. O pico atual é mais do que o dobro do anterior.

“A segunda onda fez com que a primeira parecesse insignificante”, constatou Zarir Udwadia, pneumologista do Hospital Nacional P. D. Hinduja e Centro de Pesquisa Médica. Ele ainda destacou, para a revista Nature, a situação precária dos hospitais, que enfrentam escassez de  leitos e de tratamento.

Shahid Jameel, virologista da Universidade Ashoka, concorda que a intensidade da atual onda é surpreendente. “Eu esperava novas infecções, mas jamais teria imaginado que a onda seria tão forte”, disse.

Em dezembro e janeiro, estudos testaram a presença de anticorpos contra SARS-CoV-2.  Eles estimaram que mais de 50% da população havia sido exposta ao vírus nas áreas das maiores cidades da Índia. Acreditava-se que isso teria imunizado essas pessoas, contou Manoj Murhekar,  pesquisadora do Instituto Nacional de Epidemiologia em Chennai e líder do estudo. Os resultados também sugeriram que cerca de 271 milhões de pessoas foram infectadas, quase um quinto da população total da Índia, hoje equivalente a 1,4 bilhão.

Segundo Ramanan Laxminarayan, da Universidade de Princeton e morador  de Nova Delhi, tais conclusões deixaram alguns especialistas otimistas quanto aos  estágios seguintes da pandemia, que seriam menos severos.  No entanto, a recente explosão nas taxas de infeção por COVID-19 os forçou a repensar essa ideia.

Uma explicação plausível para o ocorridos está no fato de a primeira onda ter afetado majoritariamente áreas urbanas mais pobres. É possível que os estudos de anticorpos, ao não representarem toda a população, superestimaram a exposição que ocorreu em outros grupos.

De acordo com Gagandeep Kang, virologista da Christian Medical College, os dados não refletiram a disseminação desigual do vírus. “Ele pode estar afetando populações que antes tinham sido capazes de se proteger”, diz ela. Entre elas, estariam comunidades urbanas mais ricas, que se isolaram durante a primeira onda, mas começaram a socializar na segunda.

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Udwadia observa que, agora, famílias inteiras estão sendo infectadas, ao contrário da primeira onda de COVID-19, quando  apenas um membro testava positivo. Ele atribui isso às variantes mais infecciosas. “Se uma pessoa da família tiver a doença, posso garantir que todos têm”.

Dados de vigilância genômica mostram que a variante B.1.1.7, identificada pela primeira vez no Reino Unido, se tornou a forma dominante do vírus no estado indiano de Punjab.

Descoberta na Índia em 2020, a B.1.617 é outra variante com potencial para causar grandes preocupações. Ela chamou a atenção porque contém mutações associadas ao aumento da transmissibilidade e capacidade de escapar da proteção imunológica. Dominante no estado de Maharashtra, a B.1.617 já foi detectada em 20 outros países. Laboratórios na Índia estão tentando cultivá-la, a fim de testar a rapidez de sua replicação e saber se o sangue dos indivíduos vacinados pode bloquear a infecção, disse Jameel.

A situação na Índia é semelhante à do final do ano passado no Brasil. O ressurgimento do COVID-19 em Manaus coincidiu com a disseminação de uma variante altamente transmissível, a P.1, que pode ter sido capaz de enganar anticorpos fornecidos por infecções de cepas anteriores.

Entretanto, outros dizem que não existem dados de sequenciamento suficientes para fazer tais afirmações. “Como o número de sequências disponíveis é baixo, em relação ao número de casos na Índia, precisamos ser cautelosos”, diz David Robertson, virologista da Universidade de Glasgow, no Reino Unido.

Motivos para o aumento de casos de COVID na Índia

Para alguns, as variantes que estão surgindo agora são responsáveis ​​por apenas uma pequena parte do aumento de infecções na Índia. Mas, em muitas regiões que estão passando por surtos, eles não constituem a maioria dos genomas sequenciados, diz Anurag Agrawal, diretor do Instituto CSIR de Genômica e Biologia Integrativa em Nova Delhi.

Srinath Reddy, epidemiologista e chefe da Fundação de Saúde Pública da Índia em Nova Delhi, argumenta que as pessoas que relaxam com as restrições são um fator mais importante. “A pandemia ressurgiu em uma sociedade totalmente aberta, onde as elas socializavam, se movimentavam e viajavam”.

Com o declínio dos casos após o pico de setembro passado, “houve uma narrativa pública de que a Índia havia vencido a COVID-19”, disse Laxminarayan. Nos últimos meses, grandes multidões se reuniram em ambientes fechados e ao ar livre para comícios políticos, celebrações religiosas e casamentos.

A campanha nacional de vacinação, que começou em janeiro, pode até ter contribuído para um aumento de casos,  por ter levado as pessoas a abrandarem as medidas de saúde pública. “A chegada da vacina deixou todos relaxados”, diz Laxminarayan.

Mais de 120 milhões de doses foram administradas, principalmente de uma versão indiana da vacina Oxford-AstraZeneca chamada Covishield. Porém, isso é menos de 10% da população da Índia, então ainda há um longo caminho a percorrer. Em particular, é preciso aumentar a vacinação nas regiões mais afetadas, afirmou Kang.

Segundo Udwadia, algumas pessoas podem ter se infectado enquanto tomavam as vacinas, diz Udwadia. As multidões costumam dividir as áreas de espera das clínicas com pessoas doentes que esperavam para serem atendidas.

 

Publicado em 26/04/2021

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