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Só cuidar da imunidade individual não vai bastar para superar a pandemia

As comunidades em que estamos inseridos têm um grande papel em nos manter saudáveis ou nos ajudar a curar doenças

Pessoas usam máscara no transporte público de Bangkok, na Tailândia. Shutterstock.

Em uma coletiva de imprensa no dia 22 de março, Donald Trump anunciou: “estamos em uma guerra, realmente estamos em uma guerra, e estamos combatendo um inimigo invisível”. Mas as viroses não são nações inimigas; não possuem exércitos, navios ou força aérea. Eles talvez nem estejam vivos. Então, talvez, a ideia de guerra não seja somente uma metáfora inadequada, mas uma que está  fundamentalmente errada. 

O uso de termos bélicos para se referir à COVID-19 vem de uma série de alterações profundas no pensamento médico, provocadas pelas epidemias de cólera que atormentaram a Europa durante o século 19. Como as repetidas ondas de infecção pareciam vir da Índia através das rotas comerciais coloniais, rapidamente assumiram o status de “invasões”. Em resposta, foram convocadas  Conferências Sanitárias Internacionais — precursores da Organização Mundial da Saúde —  entre 1851 e 1911. Essas conferências reuniram especialistas médicos e científicos, diplomatas, advogados e líderes militares para debater como implementar as únicas estratégias viáveis à época contra o rápido contágio das infecções: quarentena, cordão sanitário e fumigação. Essas ainda são as respostas mais viáveis até hoje. 

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Ao fundir o imaginário militar embutido nas representações populares da cólera com a retórica legal das Conferências Sanitárias Internacional, o zoólogo  russo Elie Metchnikoff (1845 – 1916) caracterizou a “imunidade” como uma forma de “defesa do hospedeiro”. A nova abordagem de Metchnikoff alterou o locus primário de intervenção médica do coletivo para o individual. Essa metáfora  se tornou popular  na medicina moderna e sustenta a noção que nosso sistema imunológico nos defende contra doença. 

A descrição  de Metchnikoff da imunidade como uma defesa ajuda a explicar as novas vacinas que estamos desenvolvendo hoje, mas essa perspectiva narrativa ignora o modo como as coletividades  contribuem para o avanço  da doença. Considera-se que, se um indivíduo for vacinado, isso iria resolver o problema coletivo. Entretanto, organismos individuais não são isolados; nós só existimos em contextos complicados junto com outros seres vivos que tanto estão próximos quanto distantes. De fato, é por isso que agora somos orientados a  lavar nossas mãos, manter o isolamento social e evitar contatos físicos desnecessários. Isso é literalmente o que contágio significa: tocar juntos. 

Embora nós possamos considerar que  cabe ao nosso sistema imunológico a defesa  contra microorganismos patogênicos, na realidade as comunidades de que fazemos parte desempenham funções  importantes na manutenção da nossa saúde. Quando essas capacidades coletivas não são mantidas, ou quando elas falham,  revelam-se as vulnerabilidades desiguais as quais os diferentes indivíduos estão expostos. 

As comunidades apoiam  nosso sistema imunológico em níveis básicos. O número desproporcionalmente alto  de pessoas negras, operários e de pessoas encarceradas afetados pela COVID-19 nos mostra que a capacidade de cura do indivíduos depende não só  da capacidade inata do organismo de sustentar sua vitalidade diante das interações com microrganismos. Em si mesma, essa capacidade de recuperação da saúde  depende de recursos sociais e ambientais, tais como alimentação e moradia adequadas, além do acesso a atendimento de saúde durante a vida de um indivíduo. 

Na falta destes sistemas coletivos, o sistema imunológico não pode nos defender adequadamente. A forte relação entre comorbidades e os sintomas graves da COVID-19, além de distribuição desigual desses cofatores de acordo com elementos como raça e etnia , são provas disso. A imunidade individual pressupõe uma comunidade. Infelizmente, ao mesmo tempo, o uso da imunidade para orientar nossas respostas à pandemia pode fazer com que nós negligenciamos o contexto comunitário.   

Os líderes políticos de hoje ainda recorrem a metáforas de imunidade e de defesa militar para falar  sobre doenças infecciosas, mas essa abordagem falha em incluir o modo como a ação coletiva — ou a falta dela — pode tanto intensificar como mitigar o contágio da doença. Mas não será essa a lição que mais precisamos aprender da atual pandemia? Que cuidar uns dos outros é, na realidade, outra maneira de cuidar de nós mesmos. Não apenas em tempo de doenças, mas naqueles momentos em que agradecemos pela saúde. 

 Não existem inimigos na pandemia, e isso não é uma guerra. Na verdade é uma ocasião para desenvolvermos novas maneiras de viver juntos que possam mitigar nossas vulnerabilidades comuns como seres humanos. Talvez não seja hora de ajudarmos apenas nosso sistema imunológico, mas também para melhorar nosso sistema comunitário. Não se pode ter um sem o outro. 

Ed Cohen

Publicado em 11/08/2020

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