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Risco de desenvolver Alzheimer é menor entre pessoas que se vacinam contra gripe e pneumonia

Novas pesquisas mostram que imunizações apresentam efeito protetor contra surgimento de demência, mas causas ainda são debatidas

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Pessoas que recebem vacina  contra a gripe  e contra a pneumonia apresentam  um risco menor de desenvolver o  mal de Alzheimer, de acordo com novas pesquisas

Três pesquisas divulgadas esta semana   sugerem que quem recebe  pelo menos uma vez a vacina contra a gripe apresenta  uma redução de 17% na incidência de Alzheimer. Entre aqueles que recebem a  vacina mais frequentemente registrou-se ainda  outra redução de 13% na incidência do Alzheimer. Já os indivíduos entre 65 e 75 que receberam vacina contra pneumonia apresentaram uma redução de até 40% nas chances de desenvolver a patologia, dependendo dos genes de cada um.  

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O efeito protetor da vacina contra gripe 

Pesquisas anteriores sugeriram que vacinas podem ter um efeito  protetor contra o declínio cognitivo, mas não havia  estudos abrangentes  focados , especificamente na relação entre a vacina para influenza e o risco do mal de Alzheimer. Para resolver essa questão, uma equipe de pesquisadores  da Escola de Medicina McGovern da Universidade do Texas do Centro de Ciências Médicas em Houston  investigou um banco de dados com informações sobre  9.066 sujeitos. 

 A  equipe descobriu que receber a vacina contra gripe associa-se a um risco menor de ter Alzheimer, e que aqueles dentre os  vacinados que recebiam a vacina contra a gripe mais frequentemente apresentavam um risco ainda menor.

A associação protetora entre a vacina da gripe e a queda no risco de Alzheimer era mais forte entre aqueles que receberam sua primeira vacina em uma idade mais jovem — por exemplo, pessoas que receberam sua primeira vacina com 60 anos se beneficiam mais do aqueles que receberam aos 70. 

Vacina para pneumonia pode reduzir o risco de Alzheimer

 Svetlana Ukraintseva, professora no Instituto de Pesquisa em Ciência Social da Universidade de Duke, e sua equipe investigaram associações entre a vacinação contra pneumonia e o risco de desenvolver o mal de Alzheimer. O estudo avaliou os dados de 5.146 participantes com mais de 65 anos do Estudo de Saúde Cardiovascular. A equipe também levou em conta um fator de risco genético conhecido para Alzheimer, o alelo 2075650 G, situado no gene TOMM40.

Os pesquisadores descobriram que a vacinação contra pneumonia em pessoas com idades entre 65 e 75 anos reduziu o risco de desenvolvimento de Alzheimer entre 25% à 35 % após o ajuste para sexo, raça, grupo de idade, educação, hábitos de tabagismo e número de alelos G. A maior redução no risco de Alzheimer (até 40%) foi observada entre pessoas vacinadas contra pneumonia que não carregavam o gene em questão. O número total de vacinas contra  pneumonia e a gripe entre 65 e 75 anos de idade também estava associado com um risco menor de Alzheimer. Entretanto, o efeito não era evidente para pessoas que tomaram apenas a vacina contra a gripe. 

“A vacinação contra pneumonia antes dos 75 anos pode reduzir o risco de desenvolver Alzheimer mais tarde, dependendo do genótipo individual”, disse Ukraintseva. “Esses dados sugerem que a vacina contra pneumonia pode ser um candidato promissor para a prevenção, personalizada, de Alzheimer, particularmente para aqueles que não carregam certos genes de risco”. 

Infecção aumenta substancialmente a mortalidade em pessoas com demência

 Pessoas que apresentam quadros de demências geralmente sofrem  outros problemas de saúde, incluindo infecções virais, bacterianas e outras. 

Janet Janbek, estudante de doutorado no Centro de Pesquisa de Demência Dinamarquês, Rigshospitalet e da Universidade de Copenhagen na Dinamarca, e sua equipe, utilizaram dados de registros nacionais de saúde  para investigar a mortalidade em habitantes da Dinamarca  com mais de 65 anos que visitaram o hospital com alguma infecção. Eles descobriram que as pessoas que sofriam de alguma demência e que visitavam o hospital devido a alguma infecção  morreram 6,5 vezes mais do que pessoas que não tinham demência e que não foram ao hospital levadas por alguma infecção.  Já os participantes que tinham apenas um dos dois fatores apresentaram uma taxa de mortalidade 200% maior.  A taxa de mortalidade era maior durante os primeiros 30 dias após a visita ao hospital. 

Os pesquisadores também descobriram que, entre as pessoas que sofrem de demência,  a taxa de mortalidade se manteve elevada por 10 anos após a primeira visita ao hospital relacionada a infecção. E as taxas de mortalidade associadas a  todo tipo de  infecção  (incluindo desde infecções sérias, como a sepse, até infecções menores, como de ouvido) eram maiores em comparação a mortalidade entre pessoas sem demência, ou entre pessoas que não fizeram alguma visita ao hospital devido  a uma infecção. 

“Nosso estudo apoia a necessidade de investigar essas relações mais a fundo; para descobrir o porquê as infecções estão ligadas a uma mortalidade maior em pessoas com demência, especificamente quais fatores de risco e mecanismos biológicos estão envolvidos. Isso irá ajudar a evoluir nosso entendimento no papel das infecções na demência”, disse Janbek. 

“Com a pandemia de COVID-19, as vacinas se tornaram o foco das discussões de saúde pública. É importante explorar seus benefícios não somente na proteção contra a infecção viral ou bacteriana, mas também na melhora dos resultados de saúde a longo prazo”, disse Maria C. Carrillo, diretora científica da Associação para o Alzheimer.   “Tomar uma vacina pode parecer uma maneira simples de cuidar da  saúde, mas na verdade isso permite um cuidado também em outras dimensões. Isso permite que se reduza o risco de desenvolver  Alzheimer e outras demências”. 

As pesquisas foram apresentadas  na Alzheimer Association International Conference (AAIC) 2020, que ocorreu esta semana em Chigago, nos EUA.

Publicado em 29/07/2020