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Resiliência misteriosa de bebês ao coronavírus intriga os cientistas

Casos de COVID-19 em crianças costumam ser brandos. Entender razões pode abrir caminho para possíveis tratamentos

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Enquanto a pandemia de coronavírus continua a grassar pelo planeta, novos estudos estão começando a desvelar o impacto sofrido pelas  crianças. E, até agora, as descobertas são promissoras para pais e pesquisadores. 

Os dados iniciais sugerem que as crianças representam apenas  uma pequena fração de pessoas que testaram positivo para a COVID-19. Um estudo do Centro de Controle de Doenças e Prevenção publicado em abril reportou 398 infecções em crianças com menos de um ano de idade — aproximadamente 0,3% de todos os casos registrados nos Estados Unidos na época cuja idade do paciente era conhecida.  Além disso, na maior parte desses casos a doença se mostrou mais branda: uma revisão publicada recentemente  no Italian Journal of Pediatrics que observou pessoas  até os seis meses de idade descobriu que as crianças infectadas em geral apresentaram  apenas tosse, nariz entupido ou uma febre que desapareceu aproximadamente em uma semana. Outros estudos sugerem reações mínimas similares. A pergunta é: por que?

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Uma das hipóteses favoritas foca na facilidade que o novo coronavírus tem para  acessar os tecidos do corpo. A infecção ocorre quando partículas do novo vírus, SARS-CoV-2 entram nas células humanas, através de um receptor chamado ACE2, e sequestram o maquinário da célula para fazer cópias de si mesmo. Essas cópias então invadem novas células. A hipótese é que as células das crianças possuiriam poucos receptores ACE2, enquanto que uma  pessoa mais velha carrega milhares deles. Uma vez que o  bebê oferece menos entradas disponíveis, o vírus teria mais dificuldade para conseguir invadir.  Uma explicação alternativa, talvez contraintuitiva, é  que o sistema imunológico de uma criança pode simplesmente ser imaturo demais para atacar o SARS-CoV-2. Dado que a maiorias dos danos em casos graves de COVID-19 parece ser causado por uma resposta imunológica forte, tal imaturidade pode funcionar à favor dos bebês. 

Uma terceira hipótese poderia, inclusive, explicar uma sutileza nos dados: embora os bebês pareçam apresentar uma resiliência contra a  COVID-19, eles podem apresentar um risco maior do que as crianças mais velhas. Dados iniciais da China sugerem que 10,6%  das crianças infectadas com menos de um ano de idade tiveram formas graves ou até críticas da doença —  uma taxa que diminui drasticamente com a idade. “É uma dança que acontece entre o vírus e nossos sistema imunológico”, diz Rana Chakraborty, especialista em doenças infecciosas na pediatria da Clínica Mayo. Se a defesa do corpo reagir muito pouco, o vírus então conseguirá dominar. Mas uma reação excessiva pode ser igualmente mortal. Então as crianças com mais de um ano de idade podem estar numa condição de mais segurança, situada entre  as mais jovens, cujos sistemas imunológicos não estão funcionando por completo, e os adultos, cujas defesas às vezes são excessivas. 

 De fato, o estudo do CDC em abril também descobriu que crianças de menos de um ano respondem pela  maior porcentagem das hospitalizações entre as crianças jovens. Mas Leena B. Mithal, especialista em doenças infecciosas na pediatria na Universidade Northwestern, argumenta que a causa poderia estar  simplesmente no fato de que  todos os recém-nascidos levados a um hospital são submetidos rotineiramente a um exame  completo para garantir que não apresentem qualquer  infecção bacteriana, num processo que pode levar dias. Ela conduziu um estudo envolvendo 18 crianças com até 3 meses de idade que testaram positivo para SARS-CoV-2 no Hospital da Criança Ann & Robert H. Lurie em Chicago, e descobriu que, apesar de metade dos bebês estarem hospitalizados, nenhum deles necessitou de tratamento intensivo. “Eu acredito que isso é tranquilizante, que bebês jovens talvez não estejam sob um risco significativo do estado grave ou crítico da doença, como nós tememos inicialmente”, diz Mithal. 

Embora seja preciso compreender melhor alguns detalhes,  está claro que os bebês possuem uma resiliência à COVID-19,  uma descoberta que pode servir para orientar esforços no desenvolvimento de tratamentos. Cientistas já identificaram medicamentos que bloqueiam certas vias inflamatórias no corpo, e vários estão sendo empregados para ensaios clínicos em pacientes com COVID-19. Outra possibilidade é que uma droga que mire no receptor ACE2 possa  ser a chave para uma vacina ou para tratamentos. 

Outros pesquisadores sugeriram que haveria uma chance maior de que as crianças  tenham  sido  infectadas com outras viroses por coronavírus recentemente, o que poderia proporcionar  anticorpos protetores. Ou talvez a resposta se resuma ao fato de que, em geral, bebês e crianças  não possuem problemas crônicos de saúde. “Isso  seria uma vantagem para elas,  pelo menos biologicamente”, diz Aimee Ferraro, que integra o conselho sênior da Escola de Saúde e Ciências da Universidade de Walden. 

 A taxa alta de casos fracos em crianças infectadas parece promissora, tanto para os pesquisadores que gostariam de procurar por tratamentos quanto para os pais preocupados.  Mas os dados disponíveis são  limitados, e os especialistas se mostram  cautelosos. É importante lembrar que nós simplesmente não sabemos as consequências a longo prazo da COVID-19, diz Ferraro. Essa ignorância se torna evidente em muitos casos nos quais  os mais jovens adoeceram e inicialmente apresentaram casos médios da doença, que depois evoluiu  para uma condição potencialmente mortal conhecida como síndrome inflamatória multissistêmica pediátrica, ou MIS-C, na qual diversos órgãos são infectados. Embora essa síndrome afete na maior parte das vezes  crianças com mais de um ano de idade, Michael argumenta que ainda é muito cedo para dizer se bebês podem desenvolvê-la ou não. 

“Os pais devem estar cientes que é importante proteger as crianças não apenas da COVID em si, uma vez que ela é fraca, mas também dessa síndrome”, diz Asif Noor, professor assistente clínico de pediatria na Universidade de Nova York, que se especializa em doenças infecciosas entre crianças. Com tal aviso em mente, ele alerta  os pais para que limitem os visitantes durante os primeiros meses de um bebê, e para que peçam que todos, mesmo aqueles assintomáticos,  fiquem a pelo menos dois metros de distância do recém-nascido. E Ferraro nota que é possível que haja menos casos entre os recém-nascidos pela simples razão que muitos estão isolados do mundo desde o começo da pandemia, distantes até de membros da família. “Eu acho que isso é um novo normal”, diz Noor. 

 Shannon Hall

Publicado em 15/07/2020

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