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Química soluciona um dos mistérios sobre a origem de Stonehenge

Testes revelam origem das maiores rochas da monumental construção do Neolítico.

Stonehenge. Crédito: Shutterstock.

Por mais de quatro séculos, arqueólogos e geólogos lutaram para determinar de onde vieram as  rochas utilizadas para construir o monumento de Stonehenge, milhares de anos atrás. Apontar a fonte dos grandes blocos, conhecidos como sarsen, mostrou-se uma tarefa difícil.  Agora, pesquisadores resolveram o mistério: 50 das 52 rochas de sarsen em Stonehenge vieram  West Woods, um lugar situado no condado inglês de Wiltshire, que fica  25 quilômetros ao norte de Stonehenge. As descobertas foram publicadas na quarta-feira na Science Advances

Os geólogos podem se basear nas  características macroscópicas e microscópicas das rochas para compará-las  com o ambiente do qual foram retiradas. Tais técnicas permitiram aos pesquisadores determinar que muitas da pequenas rochas chamadas bluestones, usadas na construção do monumento,  foram trazidas do sudoeste do País de Gales. Mas “o problema com as rochas sarsen é que são todas iguais”, diz a coautora do estudo, Katy Whitaker, estudante de pós-graduação da Universidade de Reading na Inglaterra, e conselheira assistente na Historic England. “Quando você uma observa sob o telescópio, você vê grãos de areia quartzo agrupados junto com mais quartzo”. A seguir, a equipe se voltou para espectrometria fluorescente de raio-X, uma técnica não-destrutiva que bombardeia uma amostra com raios-X e analisa os comprimentos de onda de luz que as amostras emitem em resposta, o que pode mostrar sua composição  química. A técnica revelou a presença de elementos traço (aqueles encontrados em quantidades diminutas) na superfície das pedras sarsen de Stonehenge. Quase todas essas rochas apresentaram  uma composição química muito similar, indicando uma origem comum. Entretanto, os dados foram insuficientes para apontar de onde provinham. 

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Uma oportunidade de descoberta  apareceu inesperadamente em 2018, quando uma amostra que havia sido removida  de uma das sarsen  durante um projeto de restauração de 1958 retornou à Inglaterra, após passar 60 anos em uma coleção privada. Os pesquisadores conseguiram permissão para destruir parte dela para fazer uma análise mais detalhada. “Nós discretamente demos saltos de felicidade”, diz o autor principal, David Nash, geógrafo físico da Universidade de Brighton, na Inglaterra. Utilizando dois tipos de espectrômetro de massa, a equipe determinou os níveis de 22 elementos traço na amostra,  e os compararam com os dados de outras sarsen coletados em  20 locais diferentes no sul da Inglaterra. A assinatura química da amostra analisada  combinou exatamente com as de West Woods, que engloba cerca de seis quilômetros quadrados. 

As descobertas “parecem ser convincentes e conclusivas”, diz Joshua Pollard, arqueóloga da Universidade de Southhampton na Inglaterra, que não estava envolvida na nova pesquisa. “É uma descoberta importante”. Localizada ao sul do Rio Kennet, West Woods foi muito explorada por pesquisadores arqueológicos, ele acrescenta. Até agora, a principal especulação colocaram que as sarsens se originaram ao norte do rio, em Marlborough Downs

Apesar da equipe de Nash ter identificado a origem de 50 rochas, as últimas duas — Rocha 26 e Rocha 160 — não combinaram com nenhum dos locais estudados, nem uma com a outra. Como mais de 30 rochas sarsen foram perdidas desde a construção do Stonehenge, é impossível saber se as rochas 26 e 160 são únicas, ou se são as remanescentes de um grupo maior de rochas trazidos de fora de West Woods

Para Nash, a implicação mais intrigante das descobertas é que as rochas de West Woods provavelmente foram movidas durante a segunda fase de construção do monumento, por volta de 2500 AC. “O que me surpreende é esse esforço Hercúleo que foi necessário para a produção dessas estruturas em uma janela razoavelmente curta de tempo”, ele diz. Ainda não se sabe como povos do neolítico  conseguiram transportar essas rochas que pesam em média  20 toneladas. Mas arqueólogos concordam que foi necessária coordenação social em grande escala. 

Novas pesquisas buscarão descobrir a rota que os construtores de Stonehenge utilizaram para transportar as rochas. E as técnicas geoquímicas pioneiras utilizadas pela equipe de Nash poderiam levar a novas investigações  em outros monumentos pré-históricos na Inglaterra. “Existem infinitas perguntas, infinitas áreas que precisam de mais investigação”, diz Pollard. “Essa é uma jornada que nunca terminará”. 

Scott Hershberger

Publicado em 31/07/2020