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Estudo explica por que sistema imunológico das crianças é mais eficiente para combater a COVID-19

Pesquisa analisou quase 270 mil células de amostras retiradas de pessoas com idades entre quatro semanas e 77 anos. Maior número de células de defesa nas mucosas é um dos fatores que permite que crianças resistam melhor ao vírus.
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Créditos: Pixabay

O sistema imunológico utiliza um mecanismo especial para proteger as crianças contra  novos vírus, e normalmente consegue impedir que elas  desenvolvam casos graves de COVID-19. Isso é possível porque as membranas mucosas das vias aéreas delas são muito mais ativas do que as de adultos. Dessa maneira, esse sistema pode reagir muito mais rapidamente em crianças contra vírus desconhecidos, como é o caso dos patógenos que geram pandemias.  É o que sugere um estudo recente realizado por Irina Lehmann, do Instituto de Saúde de Berlim em  Charité, e sua equipe.

No trabalho, os pesquisadores examinaram as diferenças nas células das membranas mucosas de crianças e adolescentes. De acordo com o artigo, publicado na revista Nature Biotechnology, as crianças não apenas têm muito mais células imunológicas em suas membranas mucosas, mas também produzem muito mais rapidamente interferons do tipo I, cruciais no combate a vírus. Além disso, essas moléculas-chave também são capazes de fornecer proteção contra a desregulação do sistema imunológico que ocorre em muitos casos graves de COVID-19.

COMBATENDO VÍRUS MAIS RÁPIDO

“A defesa contra os vírus funciona em dois níveis. Primeiro, você obtém a resposta antiviral dentro das células por meio de receptores que, por exemplo, induzem a produção de interferon ”, explica Lehmann. “O segundo nível [são] as células imunológicas no tecido, como células assassinas ativadas e os neutrófilos.” Seu estudo mostra que esses dois níveis de controle viral estão em um estado de alerta máximo nas crianças. A equipe analisou quase 270 mil células de amostras retiradas da mucosa nasal de pessoas com idades entre quatro semanas e 77 anos. Cerca de metade delas estavam infectados com SARS-CoV-2, o vírus causador da COVID.

As amostras também mostram que as células das crianças produzem maiores quantidades de receptores imunológicos capazes de reconhecer o vírus e desencadear a resposta imunológica. Uma dessas moléculas receptoras, a MDA5, é um sensor para RNA estranho que é encontrado em muitos vírus, incluindo o SARS-CoV-2. Ela também direciona a produção de interferons do tipo I, que são fundamentais para a capacidade de resposta rápida do sistema imunológico. Eles ativam as células imunológicas e as colocam em um estado especial de vigilância que dificulta a multiplicação dos vírus.

“Os interferons são extremamente eficazes contra infecções por vírus”, explica Marco Binder, do Centro Alemão de Pesquisa do Câncer em Heidelberg e coautor do estudo. Como uma contramedida eficaz, no entanto, o novo coronavírus tem suas próprias proteínas que impedem a produção de interferons. “O SARS-CoV-2 se multiplica muito rapidamente nas células, o que significa que as proteínas do vírus também se formam muito rapidamente”, diz Binder. “E eles suprimem o sistema de interferons de forma tão dramática que vemos apenas uma produção mínima deles, ou até nenhuma produção, em culturas de células infectadas.”

DUPLA FUNÇÃO DOS INTERFERONS

Em culturas de células epiteliais pulmonares, Binder testou se o maior número de MDA5, como se observa nas crianças, pode preservar a reação do interferon. Os adultos possuem poucos desses receptores, sendo que as moléculas precisam ser produzidas do zero no caso de uma infecção. Mas isso leva tempo. Enquanto isso, o SARS-CoV-2 consegue sufocar todo o sistema imunológico de sinalização. As crianças parecem estar protegidas devido à ativação básica mais forte do MDA5 e de receptores semelhantes. Na verdade, os experimentos de Binder mostraram que, em crianças, o SARS-CoV-2 é simplesmente muito lento para impedir que as células produzam interferons.

Assim, as crianças têm virtualmente proteção dupla contra um curso severo de SARS-CoV-2. Os interferons tipo I fazem mais do que apenas alertar o corpo sobre vírus. As moléculas de sinalização regulam vários processos na resposta imunológica geral. Se elas estão ausentes durante uma infecção por SARS-CoV-2, conforme sugerem estudos, as defesas do corpo ficam desequilibradas no pior momento possível. A disseminação do vírus causa danos aos tecidos, o que, por sua vez, estimula o sistema imunológico a lutar contra o patógeno de forma mais violenta.

Por causa da falta de interferons tipo I, entretanto, a reação de defesa já está em um desequilíbrio perigoso. Como resultado, a reação imunológica causa danos maciços aos tecidos dos pulmões. Outros resultados do estudo também indicam o papel crucial dos interferons nesse processo, que faz com que as pessoas com defeitos congênitos na resposta do interferon tipo I – ou com autoanticorpos que atuam contra essas moléculas de sinalização – enfrentem um alto risco de adoecer gravemente com COVID-19.

CRIANÇAS TAMBÉM PODEM FICAR GRAVEMENTE DOENTES

As crianças se beneficiam do fato de que seu sistema imunológico faz o interferon reagir mais rápido do que o SARS-CoV-2 é capaz de impedir sua produção. “Por outro lado, se a concentração de MDA5 é aumentada, pula-se a primeira etapa na qual a proteína deve ser regulada”, explica Binder. “E é por isso que a célula imediatamente produz quantidades mensuráveis ​​de interferon quando entra em contato com o vírus – antes mesmo que o SARS-CoV-2 tenha a chance de intervir”.

Porém, se o sistema de interferon de uma criança for perturbado por outro fator, como  um distúrbio hereditário, por exemplo, esse efeito protetor desaparece. Isso poderia explicar por que mesmo algumas crianças e jovens aparentemente saudáveis ​​ainda ficam doentes, diz Binder. Mas o ponto importante é que, em geral, as crianças consegue combater um vírus desconhecido com muita rapidez e eficácia.

O efeito permanece na segunda etapa da reação imunológica, pois as células imunológicas necessárias já estão prontas. Uma das principais descobertas do estudo de Lehmann e seus colegas é que as crianças têm muito mais dessas células em suas membranas mucosas do que os adultos. “O fato de as células imunológicas já estarem no tecido dá uma vantagem, porque todas essas células não precisam ser acionadas por substâncias sinalizadoras”, diz Lehmann. “É claro que faz diferença se você tem um dia a menos de reprodução desimpedida do vírus no tecido”.

POR QUE OS ADULTOS PERMANECEM DESPROTEGIDOS

Os resultados do estudo indicam que o sistema imunológico das crianças é projetado para combater os vírus de forma particularmente eficaz quando os encontra pela primeira vez. Especialistas como o pesquisador Peter Palese, da Icahn School of Medicine, na cidade de Nova York, que não estava envolvido com o trabalho, suspeitam que as crianças geralmente tem mais vantagens do que os adultos durante pandemias – algo provavelmente observado desde 1918. Os adultos precisam contar com a resposta imune adaptativa – a proteção específica fornecida por anticorpos e células T para patógenos individuais, que só se desenvolve algum tempo após o contato com o vírus.

Isso prova ser uma desvantagem significativa durante uma pandemia. Em contraste com os patógenos respiratórios sazonais, que normalmente são interceptados durante a infância, graças aos efeitos de um sistema imunológico aguçado, os adultos estão particularmente indefesos contra um novo vírus. Isso é evidente com a COVID-19, conforme é demonstrado pelas taxas de casos graves e mortes, que aumentam quase que exponencialmente na população idosa.

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Mas por que somente as crianças têm essa proteção altamente eficaz? Existem vários motivos, explica Binder. “Se o corpo sempre tivesse ativado esse [processo], isso criaria uma pressão de seleção incrível sobre os patógenos”, diz ele. Os vírus já teriam se adaptado há muito tempo. Além disso, o corpo não pode suportar esse sistema a longo prazo. “De todos os sistemas de sinalização, a resposta do interferon causa a maior mudança na atividade genética da célula”; Se essa resposta fosse deixada permanentemente, teria efeitos massivos na atividade celular e, portanto, no corpo como um todo.

Este não é, de forma alguma, um problema apenas teórico. “É sabido que pessoas com hiperativação congênita desse sistema de interferon geralmente sofrem de doenças inflamatórias muito graves”, diz Binder. Portanto, a contrapartida do interferon é que ele deve ser cuidadosamente mantida a sete chaves. Como resultado, o SARS-CoV-2 pode desarmá-lo – e não apenas romper essa linha de proteção, mas também desequilibrar o sistema de defesa de todo o corpo. Em nossos primeiros anos de vida, no entanto, parecemos estar um passo à frente dos vírus.

Lars Fischer 

Publicado em 31/08/2021

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