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Pegadas encontradas nos EUA sugerem que ser humano já estava na América há mais de 20 mil anos

Debate sobre período do povoamento do continente americano ainda é muito controverso nos EUA. Mas, mesmo lá, cada vez mais evidências estão fazendo retroceder estimativas para chegada dos primeiros colonizadores

Uma trilha fóssil de pegadas no Parque Nacional de White Sands registra 2.000 anos de presença humana durante a Era do Gelo.

A evidência está guardada nas pegadas. Ao longo das margens de um lago da Era do Gelo desaparecido ficam os rastros fossilizados de pessoas que viveram entre os mamutes, preguiças gigantes e outros mamíferos do período Pleistoceno onde hoje fica o estado do Novo México, nos EUA. Havia tantos caminhantes pré-históricos aqui que seus pés pressionaram as sementes de uma planta local em seus rastros. E esses restos de plantas são o que deu aos arqueólogos a possibilidade de estimarem quando essas pessoas viveram. A datação por radiocarbono estimou a idade das sementes entre 23 mil e 21 mil anos atrásmuito mais velha do que o esperado.

Rastrear o povoamento das Américas tem sido uma tarefa difícil, e os arqueólogos discordam sobre como e quando os humanos chegaram aqui. A maioria concorda que o ser humano já estava presente aqui  há 13 mil anos, representado nos remanescentes arqueológicos da chamada cultura Clóvis. Mas as evidências de sítios arqueológicos potencialmente mais antigos costumam ser controversas, e podem ser difíceis de verificar. As datações por radiocarbono para as sementes dos rastros do Novo México seriam, portanto, a evidência mais clara de que  pessoas já haviam se estabelecido aqui  há mais de 20 mil anos.

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Os rastros, relatados na quarta-feira na Science pelo geólogo Matthew Bennett da Universidade de Bournemouth, na Inglaterra, e seus colegas, pontilham os depósitos de lagos no Parque Nacional White Sands do Novo México. Foram encontrados pelo menos sete sítios com pegadas, incluindo um com 37 impressões. A maioria pertenceu a pessoas com estatura menor, e pé anatomicamente igual aos humanos modernos. Bennett e seus coautores hipotetizam que a maioria das pegadas foram deixadas por adolescentes e crianças.

Após uma avaliação inicial em 2019, os pesquisadores do Serviço Geológico dos EUA, Kathleen Springer e Jeff Pigati, visitaram White Sands em 2020. Seu objetivo era cavar trincheiras através dos sedimentos do lago. O objetivo era entender melhor a estratigrafia da área, ou suas camadas de rocha, e encontrar uma maneira de datar com precisão os sedimentos dos lagos antigos. As perspectivas pareciam boas para estabelecer uma data para as camadas. “Vários horizontes de pegada estavam  em seção, e em alguns casos com camadas de sementes esmagadas por pegadas”, diz Springer. Essas sementes de grama de vala em espiral foram datadas por radiocarbono, revelando-se o intervalo entre 23 mil e 21 mil anos atrás.

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“Acho que as evidências são muito convincentes e extremamente empolgantes”, disse o especialista em radiocarbono da Universidade de Oxford, Tom Higham, que não participou do novo estudo. Frequentemente, ele observa, obter datas de radiocarbono de material vegetal pode ser um desafio por causa de algo chamado de efeito reservatório: o carbono absorvido por plantas aquáticas pode carregar uma assinatura mais antiga do que o carbono na atmosfera, fazendo com que o material vegetal registre datas incorretamente antigas. Mas Higham diz que o novo artigo considerou e corrigiu esse possível efeito de confusão.

Outras conclusões da descoberta

As datações mais antigas do que o esperado, reveladas pelas trilhas de White Sands, levantaram diversas questões sobre como as pessoas que as criaram poderiam ter chegado às Américas. O intervalo de tempo estimado para algumas trilhas está dentro do que os arqueólogos e paleontólogos conhecem como o último máximo glacial (LGM), o período em que as geleiras do planeta atingiram sua maior extensão. A ponte de terra de Bering, que às vezes permitia a passagem da Eurásia para a América do Norte, estava inteiramente sob gelo durante o LGM.

Isso significa que as pessoas que viviam em White Sands na época deveriam ter cruzado a ponte antes que o gelo se expandisse, e depois viajado ao longo das costas, bordeando as geleiras, ou chegado por alguma outra rota. “Na verdade, este sítio  é uma bomba”, diz a antropóloga Ruth Gruhn, da Universidade de Alberta, que não participou do novo estudo.

As pegadas antigas também podem trazer informações para o debate sobre o destino dos animais de grande porte que viveram na América do Norte no final do Pleistoceno. Por décadas, paleontólogos, arqueólogos e ecologistas têm debatido sobre a extinção de animais como o mastodonte americano e os felinos dente-de-sabre. Mudanças climáticas, humanos famintos por caça ou uma combinação de ambos são considerados possíveis causas. Bennett e seus coautores propõem que a descoberta de pegadas antigas o suficiente podem associar o ser humano  a algumas extinções ocorridas durante a Era do Gelo, que se pensava terem acontecido antes que nós estivéssemos por aqui.  Porém, um período mais longo de convivência entre humanos e megafauna iria enfraquecer a ideia muito aceita hoje de que foram populações humanas recém-chegadas que dizimaram rapidamente os grandes mamíferos da América do Norte.

Mais evidências são necessárias

Nenhum sítio arqueológico pode, sozinho, responder a todas as perguntas. Mas a idade das pegadas de White Sands significa que provavelmente existem outras pistas arqueológicas muito antigas esperando para serem descobertas. “As evidências de vários outros sítios, como Meadowcroft Rockshelter [na Pensilvânia], Cactus Hill [na Virgínia], Bluefish Caves [no Yukon] e Gault [no Texas] mostram uma faixa etária semelhante a White Sands”, diz Higham, embora as interpretações arqueológicas desses lugares permaneçam  controversas. Essa nova pesquisa pode estimular os arqueólogos a olharem novamente para eles, e a reconsiderar como e quando o ser humano chegou à América.

As trilhas de White Sands se juntarão a um número crescente de pistas. Elas podem revisar substancialmente o que os arqueólogos pensavam sobre como as pessoas se estabeleceram em nosso continente. “O número de sítios com datações anteriores ao último máximo glacial está aumentando constantemente e se deslocando para o Norte”, diz Gruhn. Mesmo dentro do parque, há mais pistas a serem encontradas. “Esta bacia é grande e há trilhas por toda parte”, diz Springer. Os arqueólogos estão apenas começando a seguir os passos dos primeiros habitantes da América do Norte.

Riley Black

Publicado em 27/09/2021.

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