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Para salvarmos o clima, vamos olhar para os oceanos

Em comemoração ao Dia Mundial dos oceanos, é preciso deixar de vê-los como vítimas e considerar seu potencial como fonte de energia limpa e renovável, de alimentação sustentável e até de empregos

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Aprender a nadar, em uma piscina nas Floridas Keys, foi pura alegria. Eu tinha cinco anos de idade e me divertia com soprar bolhas na água e saltar nas piscinas. Alguns anos depois, quando aprendi a nadar no oceano, a sensação era diferente, não era tão prazeroso. O mantra era: nunca fique de costas para o oceano. Porque, fui avisado, é  preciso manter um olho nas ondas, para evitar ser atingido, ou pior. Eu fui ensinado à navegar na ressaca do mar e descansar nas correntes, à respeitar o poder do mar. 

Como um adulto, eu reaprendi essa lição do poder perigoso do oceano observando furacões relacionados a mudanças climáticas quebrando nas costas, e lendo sobre a ciência do aumento dos níveis do oceano. Mas embora nós talvez respeitemos a capacidade do mar de acabar com vidas e comunidades, nós ficamos de costas para seu poder de “cura”. Isso também é algo perigoso de se negligenciar. Eu não me refiro a habilidade do oceano de nos curar emocionalmente, mesmo que nós provavelmente tenhamos que utilizar melhor esse artifício nesses tempos difíceis. O poder de cura que nós mais precisamos é o oceano como fonte de soluções climáticas. 

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Essa é uma virada de roteiro muito necessária. Nós geralmente focamos as formas como o oceano lida com inúmeras formas  de abuso — a poluição causada por derramamentos de óleo, pela agricultura, pelas fábricas e pelo plásticos; ou o aquecimento das águas  e sua acidificação devido ao efeito de gases estufa, o que leva os peixes em direção aos polos e resulta na desintegração dos recifes de coral; os ecossistemas das costas sendo demolidos para a construção de resorts e fazendas de camarão; o excesso da pesca que faz com que as populações de peixe minguassem; o fundo do mar a ponto de ser escavado   (talvez sem necessidade) para a atividade mineradora. 

Talvez tenha sido tão difícil para você ler esse texto como foi para difícil para mim escrever. Certamente, devemos ficar de olho em tudo isso, e trabalhar para melhorar a situação. O oceano está enfrentando dificuldades. Mas, saiba que ele também nos oferece uma forma de avançarmos. Ele nos oferece diversas oportunidades para abandonarmos os combustíveis fósseis, sequestrarmos toneladas de carbono e criarmos um sistema de alimentação sustentável. Eu estou falando de energia renováveis obtidas do mar e biocombustíveis derivados de algas, de ecossistemas costeiros e agricultura regenerativa no oceano. Nós estamos atrasados em fazermos esta transformação, para deixarmos de enxergar o oceano como vítima ou ameaça e passar a apreciá-lo como um herói. 

Energia renovável costeira

Cerca de 40% dos americanos vivem em condados costeiros. Imagine se as casas e lojas que ficam ao longo das costas funcionassem à base da energia costeira obtida das ondas e do vento. Isso não precisa ser um sonho. Na costa, o vento é mais forte e consistente do que é em terra, então turbinas flutuantes poderiam significar mais energia, gerada de maneira mais confiável — e produzida mais próxima aos centros populacionais. Entretanto, mesmo com algumas iniciativas em desenvolvimento, o Block Island Wind Farm, que fica  a algumas milhas de distância de Rhode Island, é atualmente o único parque eólico comercial que fica no oceano em operação nos Estados Unidos. Devido a vários fatores, nós estamos muito atrás do Reino Unido, Alemanha e outros países europeus no uso desse recurso ventoso sem custo.

O vento costeiro pode, e deve,  passar de representar 0%  de nossa energia nacional para cerca de 10%  até 2050, se  quisermos atender a necessidade de descarbonização rápida de nossa rede elétrica. Além disso, também há a tecnologia emergente para aproveitar a energia das ondas e das correntes, e até  espalhar painéis solares pela superfície do mar. Embora seja preciso cuidarmos dos ecossistemas oceânicos e das rotas migratórias das espécies animais quando selecionarmos as localizações das instalações, nós também precisamos nos agir  rapidamente. 

Ecossistemas marinhos

O oceano pode não apenas  ser  fonte de energia livre de carbono, mas também pode sequestrar toneladas de carbono: até agora, absorveu cerca de 30% do dióxido de carbono que nós emitimos com a  queima de combustível. Ultimamente, houve muitas discussões sobre plantar  árvores, bilhões delas, sem mencionar o fato de que cerca de metade da fotossíntese global acontece no oceano. A miopia do foco  em terra não enxerga o potencial de sequestro de carbono das zonas úmidas, recifes de corais, recifes de ostras, florestas de algas e mangues. 

Na realidade, as zonas úmidas podem segurar cinco vezes mais o carbono em seus solos do que uma floresta temperada ou tropical! E mesmo que Nova York e Nova Jersey tenham perdido 85% de suas regiões costeiras, o pouco que permanece reduziu os danos durante o furacão Sandy em $625 milhões. Os ecossistemas costeiros podem geralmente providenciar proteção mais barata e efetiva do que falésias, e o “carbono azul” não deve ser ignorado. Proteger e restaurar ecossistemas costeiros é um bom investimento. 

Biocombustível de algas

 Os biocombustíveis produzidos em terra — geralmente etanol a partir de cultivo de milho e açúcar — geralmente dependem de grandes quantidades de água, fertilizantes e pesticidas, e precisam de tanto combustível fóssil para serem produzidos que quase não são considerados sustentáveis. Não é o que acontece com a alga que cresce ao longo da costa, apesar de ainda ser necessário muita pesquisa e infraestrutura para que se possa produzir o biocombustível a partir de algas em escala. O programa da agência federal de Projetos de Pesquisa Avançada – Energia (ARPA-E), que financia P&D, estima que os Estados Unidos poderiam plantar 500 milhões de toneladas de macroalgas anualmente, que equivale a cerca de 10% da demanda de transporte nacional. Além disso, algas marinhas absorvem toneladas de dióxido de carbono conforme crescem — Elas podem crescer até 60 centímetros em um único dia, e transformar a luz do sol em energia química de forma mais eficiente do que as plantas da terra. Mesmo conhecendo a ciência, para mim, a fotossíntese ainda parece mágica. 

Agricultura oceânica regenerativa

Nós também podemos, e devemos, usar algas para fornecer energia para nossos corpos e alimentar nosso gado, não apenas para providenciar energia para nossas máquinas. Com mais de 90% dos estoques de peixes globais explorados ao máximo, nós certamente não podemos contar com peixes selvagens para alimentar o mundo conforme nossa população se aproxima dos oito bilhões. Ao mesmo tempo, a indústria de cultura aquática vem sendo altamente insustentável, geralmente focada em peixes carnívoros que necessitam de muitos alimentos e infraestrutura. Entretanto, há um grande potencial para um renascimento regenerativo na agricultura oceânica, focada em algas e mariscos que se alimentam por filtragem (ostras, mexilhões, vieiras), que vivem simplesmente da luz da sol e nutrientes já presentes na água do mar. 

Esse tipo de agricultura oceânica pode reduzir a acidificação dos oceanos locais (fotossíntese!) e melhorar a qualidade da água local. Além disso, as algas absorvem o excesso de nitrogênio e fósforo que sobra da terra pelo uso excessivo de fertilizantes para a agricultura industrial, e pode causar zonas mortas no oceano. Bônus: esses “vegetais do mar” possuem alto valor nutricional, e quando são usados como alimento para o gado,  podem reduzir suas emissões de metano em até 67%.  

Conforme nossa economia luta para se recuperar da recessão causada pelo coronavírus, também é importante notar que a adoção dessas soluções climáticas ligadas ao oceano pode gerar muitos empregos. Nos Estados Unidos, a “economia azul” suporta cerca de três milhões de empregos e contribui anualmente em 285 milhões de dólares para o PIB, a partir do turismo, navegação, pesca e construção. E isso pode continuar a crescer. Na próxima década, a instalação de um parque eólico de Maryland à Maine poderia gerar cerca de 36 mil  empregos em tempo integral. Como parte de um pacote de estímulo verde, uma Corporação de Conservação Climática poderia colocar pessoas para trabalhar replantando ecossistemas costeiros.  A agricultura regenerativa oceânica poderia criar milhões de empregos diretos e indiretos. 

É por isso que precisamos de um “Novo Acordo Azul” além do verde. O novo acordo verde quase não menciona o oceano em lugar nenhum. O oceano precisa passar de figurante para peça central se nós formos endereçar essa crise climática na magnitude que ela precisa. 

Então quando você pensa sobre as soluções climática, não pense apenas em painéis de teto solar e carros elétricos. Não fique de costas ao oceano. Ele abana positivamente com soluções climáticas.              

Publicado em 08/06/2020

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