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Medidas para reduzir risco de COVID nas Olimpíadas de Tóquio são insuficientes, dizem especialistas

Estudiosos temem que restrições adotadas em megaevento esportivo não impeçam um surto internacional do vírus, mas organizadores rebatem.

Crédito: Julia Dorian/Shutterstock

No ano passado, quando as autoridades adiaram os Jogos Olímpicos de Tóquio para 2021, o anúncio somava-se a  decisões semelhantes tomadas por ligas esportivas profissionais e a recomendações nacionais e regionais para que todos ficassem em casa. Na época, os organizadores do Comitê Olímpico Internacional (COI) esperavam que, com um ano a mais, o mundo conseguisse controlar o SARS-CoV-2, o novo coronavírus causador da COVID-19, que recentemente havia sido classificada  como uma pandemia pela Organização Mundial da Saúde.

Os Jogos Olímpicos estão programados para começar no final deste mês, seguindo medidas de mitigação como barreiras físicas, diretrizes de distanciamento social e aplicação de testes virais, com o objetivo de evitar o aumento no número de casos. Mas como a vacinação permanece distribuída de forma desigual em todo o mundo – apenas cerca de 17% da população do Japão está totalmente vacinada – e a variante Delta, mais transmissível do que as outras, está se espalhando, os especialistas alertam que essas medidas podem não ser suficientes. Vários atletas já testaram positivo para COVID-19 após sua chegada ao Japão, levantando preocupações sobre um possível surto.

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“É uma cena de abertura perfeita para um filme, na qual todos são infectados pela Delta no mundo inteiro, e a origem do surto de COVID está relacionada às Olimpíadas”, disse Peter Chin-Hong, especialista em doenças infecciosas da Universidade da Califórnia, em São Francisco. “Este não é apenas um evento local de superpropagação em um país mal vacinado, mas [têm o potencial para se tornar] um evento de superpropagação global.”

Brian McCloskey, presidente do grupo de especialistas independentes que assessoram o COI sobre a contenção da COVID-19, afirma que, embora os casos individuais sejam inevitáveis, o objetivo dos regulamentos é impedir a formação de correntes de transmissão e aglomeração. No entanto, os especialistas entrevistados apontam para os riscos de transmissão viral associados a esportes e arenas específicos, à vida na Vila Olímpica e também a infecções disseminadas na comunidade em geral. No geral, eles indicam que, sem medidas de mitigação mais rígidas do que as introduzidas pelo COI, o número de infecções tende a aumentar

ORIENTAÇÕES ESPECÍFICAS PARA CADA ESPORTE

Atualmente, todos os atletas olímpicos devem seguir as mesmas diretrizes estabelecidas no manual oficial dos jogos. Se voarem internacionalmente neste mês, eles devem ser testados duas vezes nas 96 horas antes do voo, com  análise da reação em cadeia da polimerase (PCR) ou teste de antígeno aprovado. (Aqueles que viajaram antes de 1º de julho só foram obrigados a fazer um teste 72 horas antes de sua partida.).

Na chegada ao país, eles farão um teste rápido de antígeno baseado na saliva, que será processado enquanto passam pela imigração e recolhem suas bagagens. Um resultado positivo ou inconclusivo deverá ser confirmado com um teste PCR na Vila Olímpica. Se o teste dos atletas for negativo, eles poderão prosseguir para suas acomodações. Diariamente, eles são obrigados a verificar sua saúde em um aplicativo e fornecer amostras de saliva para um teste de antígeno, seguido por um teste de PCR na mesma amostra caso os resultados não sejam claros ou registrem positivo.

Quando se trata de transmitir um vírus respiratório que se espalha por meio de fluidos, gotículas e pelo ar, nem todo esporte pode ser tratado mesma forma. Michael Osterholm, diretor do Centro de Pesquisa e Política de Doenças Infecciosas da Universidade de Minnesota, foi coautor de um estudo publicado em maio no New England Journal of Medicine que apontava a necessidade de uma abordagem de gerenciamento de risco diferente. Ele e seus coautores escreveram que o COI deveria ter classificado cada esporte como tendo alto, moderado ou baixo risco de transmissão de COVID.

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De acordo com os autores do artigo, eventos ao ar livre que naturalmente afastam os competidores – como vela, arco e flecha e competições equestres – podem ser considerados de baixo risco. Eventos de risco moderado incluem aqueles que são realizados ao ar livre, mas nos quais o contato próximo é inevitável, incluindo rúgbi, hóquei em campo e futebol. Eventos esportivos internos que envolvem contato próximo, como boxe, são de alto risco. Em geral, qualquer evento esportivo interno é mais arriscado.

Para Annie Sparrow, professora de saúde populacional na Icahn School of Medicine em Mount Sinai e também co-autora do artigo, há esportes que caem em áreas cinzentas: natação, por exemplo, pode ser considerado de baixo risco para eventos individuais, mas risco moderado para revezamentos. O pólo aquático, que requer contato próximo, seria um esporte de alto risco. Essas avaliações de risco podem pautar mudanças na forma como certas competições serão realizadas. Por exemplo, os riscos de transmissão de eventos aquáticos seriam menores se eles fossem planejados para ocorrer em piscinas ao ar livre, explicou Sparrow.

Mas, de acordo com Osterholm, apenas tais designações não são o suficiente. Os organizadores deveriam ter exigido mais precauções para os atletas que competem em eventos mais arriscados. Isso pode incluir testes mais precisos usando apenas ensaios de PCR em vez dos baseados em antígenos, ou maiores restrições na socialização com qualquer pessoa que não seja um colega de equipe ou treinador. Recentemente, a presença de espectadores na maioria dos eventos foi barrada depois que o Japão declarou estado de emergência em Tóquio devido ao aumento em novos casos de COVID e temores sobre a variante Delta.

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Na ausência dessas medidas, adotar uma única abordagem é preocupante, disse Joseph Fauver, pesquisador associado da Escola de Saúde Pública de Yale, que trabalhou em estratégias de teste para a National Basketball Association (NBA) e a National Football League (NFL). “O risco de transmissão causado por esportes de equipe é inerentemente diferente de algo como a modalidade de arco e flecha ao ar livre”.

Já McCloskey destaca o fato das políticas terem sido elaboradas para não dependerem do status de vacinação dos jogadores, que varia de acordo com o país devido às disparidades de acesso e riqueza. Ele acrescenta que os organizadores planejam permitir uma certa flexibilidade quando se trata de isolamento e quarentena. Alguns atletas que testaram positivo ou foram identificados como próximos de alguém que testou positivo podem passar por uma “quarentena adaptativa” na qual  se isolam dos colegas de equipe, mas ainda têm permissão para treinar, dependendo da natureza do resultado do teste e  do contato. Em relação ao cancelamento de alguns eventos esportivos internos de alto risco, o conselheiro do COI afirma que as provas da transmissão do vírus durante partidas são não se sustentam. “Na verdade, não há provas suficientes de que a COVID tenha se espalhado no campo de competições”, disse ele.

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Porém, Osterholm discorda veementemente. Em Minnesota, por exemplo, um pico de 2021 no número de casos em abril foi parcialmente causado por eventos esportivos escolares. Outro relato recente identificou uma academia de ginástica em Oklahoma como a origem de um surto da variante Delta. Declarar que os esportes apresentam baixo risco de transmissão também ignora os riscos fora das próprias competições, disse Osterholm. “O que está faltando é um entendimento de que as Olimpíadas são muito mais do que apenas um evento atlético”.

Em resposta, McCloskey  reiterou que as evidências citadas mostram apenas uma associação entre a atividade esportiva e a transmissão, e não a prova de que a transmissão ocorreu durante o jogo. Ele acrescenta que o guia dos Jogos Olímpicos foi elaborado “para considerar holisticamente os riscos em todas as atividades nas quais os participantes têm contato, tanto dentro quanto fora do campo de jogo.”

RISCOS FORA DA COMPETIÇÃO

O guia olímpico contém recomendações para interações sociais nas vilas olímpicas e paraolímpicas e medidas para impedir a transmissão do vírus. Isso inclui orientações para que atletas e suas equipes usem máscara, a menos que estejam dormindo, comendo, bebendo, treinando ou competindo; para que evitem o contato físico, como apertos de mão e abraços; e que os atletas só frequentem locais listados em um “Plano de Atividades” pré-aprovado.

Segundo especialistas, algumas dessas medidas são mais eficazes do que outras. Intervenções como a redução da capacidade das mesas de seis para quatro pessoas nos refeitórios e a colocação de protetores contra respingos e barreiras de acrílico são ultrapassadas, disse Chin-Hong. “É como se tivéssemos voltado no tempo”, para antes de sabermos que o vírus é transmitido por aerossóis.

Osterholm compara a transmissão pelo ar a cheirar fumaça de cigarro: se alguém está fumando em uma sala fechada, os outros poderão sentir o cheiro da fumaça, mesmo que estejam atrás de barreiras de acrílico ou que o  fumante tenha saído da sala.  Segundo ele, a transmissão por aerossóis  não foi abordada adequadamente nos planos de ventilação, recomendações para abrir janelas provavelmente serão ignoradas durante o quente verão japonês.

Além disso, as diretrizes recomendam o uso de “máscaras não feitas de tecido sempre que possível” em vez de exigir respiradores N95, protetores muito melhores do que outros tipos de máscaras. Todos os participantes têm permissão para remover a máscara ao falar com pessoas que dependem de leitura labial –  desde que fiquem a dois metros dos atletas.

De acordo com as previsões do COI, mais de 85% dos atletas e representantes oficias nas vilas olímpicas e paraolímpicas – e mais de 70% dos repórteres – serão totalmente vacinados. Essas porcentagens, entretanto, não se estendem ao pessoal de apoio, incluindo jardineiros, preparadores de alimentos ou faxineiros.

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Ao contrário da NBA que reiniciou sua temporada de 2019-2020 na segunda metade do ano passado, os participantes das Olimpíadas não foram colocadas em uma bolha para se protegerem da COVID, explicou Fauver. “É essencial que a equipe de apoio esteja tão envolvida quanto os atletas nos testes de rotina, obedecendo ao distanciamento e usando máscaras – porque essas pessoas têm a mesma probabilidade de se infectar como qualquer outra pessoa”.

Sparrow ainda apontou que a NBA e a NFL também realizaram sequenciamento genômico em tempo real. Especialistas em saúde pública foram capazes de rastrear a propagação do vírus de pessoa para pessoa e localizar interações e ambientes específicos de alto risco. Mas o COI optou por não incluir essa técnica em seu programa de testes.

O COI afirma que as medidas de mitigação do guia oficial serão suficientes. “No momento, acreditamos que as medidas que temos em vigor são suficientes para nos ajudar a reduzir o risco, independentemente do surgimento de novas variantes”, afirmou McCloskey.

Quando os casos inevitavelmente ocorrem, no entanto, a disseminação afetará as populações de países não vacinados de forma desproporcional. Para Chin-Hong, essa distribuição desigual de vacinas é irônica, considerando o cenário dos Jogos Olímpicos. “Quando você pensa sobre as Olimpíadas, supõe-se que seja uma condição de igualdade  – você pode vir de qualquer país e chegar ao topo. Diante de uma pandemia, isso realmente diz muito sobre a desigualdade”.

Maddie Bender

Texto originalmente publicado na Scientific American 

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