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O mito de Stephen Hawking

Hawking foi um importante físico, mas a imprensa e o público o enxergavam como profeta — e ele não procurou desencorajá-los.
Stephen Hawking

Ao mesmo tempo em que o físico se preocupava em não ser reconhecido por sua competência, ele abraçou e incentivou o mito de Stephen Hawking. Créditos: WikiMedia

 

Havia quase que uma reverência religiosa no silêncio que tomou conta da plateia no início da palestra de Stephen Hawking. Como era comum, cada assento estava ocupado, e multidões se aglomeravam perto das saídas e corredores, esticando seus pescoços para conseguirem ver o físico. E, enquanto ele entrava no palco, o público estava visivelmente encantado. “Em alguns momentos, havia silêncio durante 30 ou 40 segundos”, disse Christophe Galfard, um dos alunos de Hawking que também veio a se tornar  divulgador científico. “Foi esse silêncio que me motivou a seguir essa carreira”.

Mas apesar da paixão de Hawking por compartilhar seu trabalho em cosmologia e astrofísica, poucas pessoas naquele auditório estavam ali para aprender sobre ciência. Eles queriam estar na presença daquele que subiu o Monte Sinai e que recebeu  alguns dos segredos do cosmos. Hawking era um grande cientista, porém, em sua busca por reconhecimento,  recebeu o manto de profeta. Foi uma barganha faustiana que transformou Hawking no mais proeminente cientista das nossas gerações, mas teve um custo.

O profeta e o cientista

Quando um profeta fala, ele expressa  a confiança e a infalibilidade divinas. No entanto,  a profissão do cientista tem como principio fundamental a incerteza.  Quase que por definição, biólogos, físicos e químicos têm suas cabeças repletas de informações imprecisas; mesmo aqueles com os maiores egos sabem que grande parte do conhecimento construído por eles ao longo dos anos é experimental, incompleto ou até errado. O real propósito do cientista é reduzir as incertezas . Enquanto profetas estão sempre certos, bons cientistas, treinados a se esforçar para estarem um pouco menos errados, são por natureza hesitantes e condicionais. E isso faz com que seja fácil ignorá-los até mesmo quando  são as únicas autoridades relevantes.

Mas não foi o caso de Stephen Hawking.  A partir do final da década de 1980,  momento no qual ele vestiu o manto de profeta, ele jamais seria ignorado. A venda de todos os seus livros estava sempre garantida, fossem eles bem escritos e compreensíveis ou não. Suas palestras costumavam esgotar os ingressos, e formavam-se  aglomerações de pessoas nos corredores que esperavam ansiosamente ver o físico famoso. Ele conseguia comandar a plateia como nenhum outro cientista; a imprensa e o público prestavam atenção em cada palavra que saía de sua boca, até mesmo naquelas que não estavam relacionadas ao seu trabalho sobre buracos negros e cosmologia, ou que poderiam revelar ausência de uma visão profunda ou conhecimento.

Hawking foi capaz de convencer a todos que sua opinião era sempre importante. “Seus comentários atraíam atenção exacerbada, ainda que fossem sobre tópicos que não eram de sua especialidade, como filosofia, alienígenas e inteligência artificial”, escreveu Martin Rees, amigo próximo e colega. Essa confiança e teimosia lhe custaram o respeito de vários de seus colegas, especialmente nos últimos anos de carreira.

Construção do mito de Stephen Hawking

No entanto, talvez o aspecto mais complicado da transformação de Hawking em celebridade esteja relacionado à sua  deficiência. Quando ele começou a ganhar reconhecimento, sua doença (esclerose lateral amiotrófica) avançava  agressivamente. Hawking sempre suspeitou que sua rápida ascensão nos rankings de físicos, seus prêmios, sua nomeação a Royal Society com apenas 32 anos, e até sua indicação à posição de professor Lucasiano, já ocupada por Isaac Newton, tenham sido resultado de sua deficiência, e não da sua destreza como físico.

“Penso que fui nomeado como um tapa-buraco para preencher o cargo, como alguém cujo trabalho não iria desgraçar os padrões esperados de um professor Lucasiano. Mas acho que pensaram que eu não viveria muito tempo, e logo poderiam escolher outro candidato, alguém mais adequado”, disse uma vez a um entrevistador. “Bom, sinto desapontar os eleitores.”

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Por mais que essa dúvida tenha perturbado Hawking durante toda a sua vida — pois ele verdadeiramente gostaria de ser reconhecido por seu conhecimento científico, em vez de sua perseverança diante da doença — o físico percebeu que sua fama se baseava muito mais neste último fator. Ele se incomodava por ter sua reputação ligada a uma caricatura de gênio deficiente, e que seus conhecimentos extraordinários fossem vistos como uma compensação divina pela incapacidade de seu corpo. Porém, ao mesmo tempo, ele também abraçou esse mito e até ajudou a construí-lo, de modo a aumentar seu renome.

O mito de Stephen Hawking ofuscava a humanidade da pessoa por trás dele. Na verdade, Hawking não foi o maior cientista da sua geração. Ele foi um importante físico cuja relevância é quase universalmente  incompreendida; uma pessoa que sofreu profundamente e causou sofrimento; um cientista celebridade que rompeu as barreiras de seus antepassados e mudou o conceito de celebridade científica. Para que realmente se possa compreender  Hawking, e também sua ciência, deve-se rejeitar o mito e examinar o que está por baixo dele. Parar de ver Hawking como um profeta e sim como um ser humano falho e brilhante.

Charles Seife

Publicado em 07/04/2021

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