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Novo estudo apresenta as mais fortes evidências vinculando poluição do ar e mortes prematuras

As descobertas aparecem ao mesmo tempo em que administração de Donald Trump afrouxa regulamentações sobre qualidade do ar

Helicóptero combate incêndio em floresta no Norte da Califórnia. Shutterstock.

Enquanto os incêndios naturais varriam a Califórnia no ano de 2018, os céus ficaram cobertos de fuligem e outras partículas poluentes.  preencheram os céus. A concentração de material particulado aumentaram de forma generalizada para mais de 12 microgramas por metro cúbico (µg/m3), o que fez a Califórnia ser avaliada como  “não saudável” pela Agência de Proteção Ambiental (APA) dos EUA. E, em alguns lugares, esse número chegou a centenas de milhares de µg/m3. 

A poluição incluía partículas com diâmetro de 2,5 mícrons ou até menores, conhecidas como PM2.5, que também são expelidas de escapamentos e de chaminés quando ocorre a queima de combustível fóssil em fábricas e automóveis.  Seu tamanho minúsculo permite a elas chegarem ao fundo de nossos pulmões, causando problemas respiratórios breves. Milhares de estudos anteriores mostraram como tais partículas podem causar intensificar a asma exagerada ao longo do tempo  e contribuir para problemas cardiovasculares, recém-nascidos com peso abaixo do esperado e outros problemas. Existe amplo consenso médico quanto a essa associação. Porém, alguns membros de um comitê da APA coordenado por uma pessoa indicada pelo governo  Trump,  assim como  alguns consultores de indústrias de petróleo e gás, alegam que os estudos não mostram causalidade direta. A estatística da Universidade de Harvard, Francesca Dominici, e seus colegas abordaram estas contestações  em um estudo publicado em julho na revista Science Advances. Eles dizem que sua investigação mostra a ligação mais abrangente  já encontrada entre poluição do ar e mortes prematuras.

Estudos tradicionais da poluição do ar geralmente utilizam apenas análises de regressão, um método estatístico designado para compreender a probabilidade de um fator em particular (como poluição do ar) influenciar um resultado — nesse caso, a mortalidade. Mas nem sempre fica claro se tais modelos contabilizam adequadamente outros possíveis fatores influenciadores. Na nova pesquisa, a equipe de Dominici utilizou cinco abordagens estatísticas (incluindo a análise de regressão) com um conjunto de dados de 570 milhões de observações coletadas durante 16 anos de 68,6 milhões de registros médicos. Essa técnica ajuda a isolar os efeitos da poluição particulada de outras possíveis influências. Ele efetivamente imita um experimento controlado (o teste “padrão  ouro” para localizar a causa e o efeito), que seria antiético de empregar  nesse tipo de pesquisa. “Essa área da estatística nunca foi aplicada na análise de poluição do ar e mortalidade”, diz Dominic.   

Os resultados mostram que reduzir os níveis atualmente permitidos de PM2.5, de 12 para 10 µg/m3, poderia diminuir o risco de mortalidade em até 7%,  salvando mais de 143 mil vidas em uma década. 

O estudo impressionou outros pesquisadores da área, incluindo C. Arden Pope III, um especialista em poluição do ar da Universidade de Brigham Young, e John Bachmann, ex-diretor associado no departamento de qualidade do ar da APA. “Em ter de tamanho, em termos de poder estatístico e em termos de sofisticação analítica, isso é o melhor que se pode fazer”, diz Pope. 

As descobertas aparecem na mesma época que a administração de Trump está relaxando as regulamentações para a poluição do ar. Em abril, a APA propôs não alterar as regras sobre PM2.5, após ter conduzido o que disse ter sido  uma revisão cuidadosa e uma consulta a seus conselheiros científicos. Antes que a revisão terminasse, entretanto, o diretor da APA, Andrew Wheeler, demitiu um painel auxiliar de conselheiros que geralmente fornecem orientação científica para tais assuntos. O conjunto de estudos sobre poluição do ar é algo poderoso, diz Bachman, e “esse novo estudo e uma resposta muito potente” a proposta da APA. 

Susan Cosier

Publicado em 30/07/2020