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No coração gelado da Antártida

Memórias do primeiro brasileiro a pisar no Pólo Geográfico Sul

O coração da Antártida é formado por um vasto planalto de gelo, cuja altitude varia de 1.500 a 4 mil metros acima do nível do mar. Essa região da calota polar, de área equivalente à do Brasil, é na verdade o maior deserto do planeta e a parte de sua superfície onde imperam as mais hostis condições à existência de vida. Nela se registrou o frio mais intenso da Terra (-89,2ºC na base Vostok, da Rússia); a escuridão da noite polar perdura de 4 a 6 meses; ventos incessantes varrem as planícies, esculpindo sulcos e ondulações (chamados “sastrugi”) sobre a dura crosta de neve. O teor de umidade do ar durante o ano é comparável ao dos grandes desertos de areia (a neve cai raramente, mas empilhada camada sobre camada, vai se transoformando em gelo). Grande parte dessa calota de gelo assenta-se sobre o fundo rochoso do continente.Algumas montanhas apontam seus picos acima da superfície. Em outras partes, o gelo assenta-se sobre fundo muito abaixo do nível do mar.

O Pólo Sul geográfico — o ponto teórico em que emerge na superfície o eixo ao redor do qual a Terra gira — está situado no coração do Planalto Polar, a uma altitude de 2.835 metros, sobre gelo de mais de 2.500 metros de espessura. Em novembro de 1956, como conribuição ao Ano Geofísico Internacional, os Estados Unidos plantaram, no pólo, uma base chamada Amundsen-Scott e que desde então é ocupada permanentemente. A partir de 1975, a base foi reinstalada sob uma redoma de aluminio de 60 metros de diâmetro. Conseguiu-se assim evitar o esmagamento das edificações pelo acúmulo de neve arrastada pelo vento.

Novembro de 1961: pela segunda vez, estou de volta à Antártida com a marinha norte-americana, representando o que é atualmente o Conselho Nacional Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq) e credenciado como correspondente de imprensa. Dessa vez viajei num avião Constellation, da Nova Zelândia até a base de McMurdo, na ilha de Ross, precisamente de onde partiram Ernest Shackleton (em 1907) e Robert Falcon Scott (em 1911) em busca da conquista do pólo. As chances de visitar a base no pólo eram bem poucas, por isso meu grupo de convidados foi surpreendido, dia 17, pelo aviso do comandante Hahn: “Estejam preparados para um vôo ao pólo sul às 13h30. Levem toda a vestimenta pesada, inclusive as de uso em caso de emergência. O almirante Tyree estará no mesmo vôo”.

O avião Hércules voou a 600 km/h sobre a grande geleira de Beardomore, precisamente sobre o áspero caminho descoberto por Shackleton em 1908 e escolhido por Scott em 1911 para alcançar o planalto polar e atiangir o pólo. Este “Amazonas azul”, como a geleira já foi descrita, tem 200 km de comprimento por 60 km de largura.,Três horas depois da decolagem, perdemos altura rapidamente para o pouso no pólo. “A temperatura lá fora é de -39ºC”, anunciou o comandante do Hércules. “E o vento sopra a 10 nós (18,5 km/h). Vão necessitar de todo o equipamento polar que receberam para suportar essas condições. E lembrem-se de que a altitude do planalto nesse ponto é de quase 3 mil metros, portanto andem devagar. Cuidado com as hélices quando se afastarem do avião; os motores permanecerão ligados. Terão quatro horas para permanecer no pólo, até serem recolhidos pelo próximo avião”.

Depois que o avião pousou no gelo, sobre patins, abriu-se a rampa traseira para desembarque da carga e, naquele instante, gravou-se nossa primeira e fantástica visão do pólo sul. O deserto branco, a superfície enrugada da neve endurecida e com os sulcos orientados na direção do vento predominante. Um pouco à distância, a fumaça rasteira saía das chaminés apontando à flor da neve, que sepultava completamente os edifícios da primeira base Amundsen-Scott. O vento das hélices arrancava um pó de neve da superfície, produzindo o efeito de uma “blizzard”, a típica tempestade branca da Antártida.

Ao pisarmos no solo, uma repentina injeção de ar frio, extraordinariamento seco, de pureza quase palpável, reavivou-nos e estimulou-nos o organismo. Em instantes congelou-se a mucosa do nariz. Afastando-nos do avião, caminhamos em direção à base. O efeito da altitude logo se fez sentir em todos. Chegamos ofegantes, quase tossindo por falta de ar. Entramos no edifício principal descendo a rampa escavada na neve. Depois de uma visita às instalações, aos laboratórios, à “mina” de gelo (um poço de 28 metros de profundidade para estudos glaciológicos) e de um almoço (sopa de lagosta), acompanhamos o almirante Tyree numa caminhada ao mastro que assinalava o local exato do pólo sul. Nosso grupo era heterogêneo e cosmopolita: cerca de 15 cientistas, militares, jornalistas; dois alemães, um polonês e um brasileiro. Menos de 600 pessoas haviam pisado o pólo sul até aquela data.

Caminhamos os 600 metros em silêncio, ofegantes. O ruído de nossas pesadas botas térmicas, rompendo a crosta dura de neve, tinha um efeito inquietante: um ruído de outro planeta, penso ainda hoje. Olhei meus companheiros e surpreendeu-me o evidente estado de exaustão deles; notei que os lábios de alguns haviam adquirido uma tonalikdade azul-anil. Mais tarde, todos nós sofremos alguma forma de náusea, vômitos, desarranjos gástricos e dores de cabeça. Nosso guia, o capelão Andress, atribuiu esses efeitos ao frio, à falta de ambientação à elevada altitude, além da desidratação provocada pela secura do ar. Devido a maior rarefação da atmosfera antártica, a altitude de 3 mil metros no pólo pode ser comparada à de 4,5 mil metros em outras regiões.

Ao aproximarmo-nos do mastro e do pequeno abrigo de madeira sobre o ponto exato do pólo, imaginei a cena passada há exatamente 49 anos e 10 meses, no dia 17 de janeiro de 1912 (agora há 91 anos e um mês). Scott e seus quatro companheiros, arrastando seus trenós, enfrentando o vento, as mãos e os pés praticamente congelados, após dois meses e meio de marcha, atingem o pólo, onde avistam a tenda de Amundsen (que os precedera por 34 dias) e, sobre ela a bandeira norueguesa. “Oh, Deus! Que lugar horrendo, e quão terrível é para nós tê-lo tão penosamente atingido sem a recompensa da prioridade!” – essas palavras de Scott ficaram registradas em seu diário. Sabíamos que em apenas três horas o Hércules nos levaria de volta a McMurdo, com suas barracas aquecidas e o chuveiro quente semanal.

Quanto a Scott, e os dois companheiros que restaram de sua equipe após outros 75 dias de caminhada e ainda a 200 km da ilha Ross, imobilizados em sua tenda (a apenas 18 km do depósito de víveres mais próximo), por contínuas tempestades, encontrariam seu fim, vitimados pelo frio e pela fome. A amostra que provamos do clima do planalto polar aumentou poderosamente nossa reverência pelas figuras de Amundsen, Scott, Shackleton e dos outros pioneiros exploradores da Antártida.

Em breve será comemorado o primeiro centenário da conquista do Pólo Sul. Nesse intervalo de tempo o conhecimento da região foi fantasticamente ampliado, especialmente durante o Ano Geofísico Internacional. Mas, por muitas razões, a Antártida ainda é um continente misterioso.

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