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Morre Maurício Tuffani, referência do jornalismo científico no país

Ex-editor de Scientific American Brasil, ele formou gerações de jornalistas e divulgadores de ciência no Brasil.

Marcos Santos/USP Imagens

 

“É, seu Pablo. Quem mandou a gente não estudar?” Essa frase, dita há quase 20 anos, nas profundezas de uma madrugada de extenso trabalho jornalístico, dá uma ideia de como era o senso de humor de Maurício Tuffani, que faleceu ontem, em São Paulo, aos 63 anos. A piada estava no fato de que Tuffani, já na época um veterano celebrado do jornalismo científico brasileiro, era alguém que estudava muito, e quase ininterruptamente, com aquela intensidade que só os autodidatas têm. O conhecimento que ele amealhou nos livros e artigos que devorava e nos bancos universitários por onde passou (nunca se diplomou) lhe permitiam navegar com segurança por uma infinidade de assuntos, dos fundamentos da matemática aos segredos do aikidô ou os meandros da legislação ambiental brasileira.

Tuffani era uma pessoa superlativa. Do ponto de vista intelectual, muito conhecimento, muita memória, muita visão crítica, aguçada ao longo de décadas de militância nas redações. E muita disposição para entrar em polêmicas que achasse que valiam a pena, tais como a suspensão da exigência de diploma universitário para o exercício do jornalismo, uma causa que ele sustentou durante décadas, e da qual emergiu vindicado.

Do ponto de vista humano, era alguém com muito senso de humor, muita capacidade para auxiliar colegas jornalistas, muita força para defender seus pontos de vista contra quaisquer tipos de pressão, quando necessário. E, também boa vontade abundante para compartilhar seu saber e experiência com as novas gerações de profissionais do jornalismo científico e de comunicadores de ciência (logicamente, eu sou um desses jornalistas).

Tuffani trabalhou ou colaborou com diversos importantes veículos de comunicação brasileiros, tendo sido editor-chefe de Scientific American Brasil entre 2015 e 2016. Ao longo de duas passagens pela Folha de São Paulo, construiu sua reputação como editor de ciências e repórter investigativo, ao assinar diversas reportagens de impacto. Desde 2016, ele exercitava estes dons editoriais e investigativos à frente do blog Direto da Ciência, no qual apresentava uma cobertura única dos principais temas ligados à pesquisa, ao meio ambiente e à academia no Brasil. Foi nesse blog, vale lembrar, que surgiram as primeiras denúncias envolvendo o nome de Ricardo Salles, quando este ainda era Secretário estadual de Meio Ambiente de SP.

Mas também se aventurou para além das redações dos veículos. Era um comunicador nato, e essa capacidade lhe permitiu trabalhar em todos os lados do balcão. Conheceu de perto os meandros do Congresso e de Brasília quando atuou como assessor de um parlamentar durante a Assembleia Constituinte de 1988. Sua passagem pela Unesp, onde trabalhou como chefe da assessoria de comunicação e imprensa entre 2005 e 2009, lhe deu uma visão de bastidores da universidade pública brasileira. Da Unesp, passou à secretária Estadual de Educação, acompanhando o reitor que havia se tornado secretário, e ampliou ainda mais seu conhecimento da máquina pública — havia trabalhado também na Secretaria de Meio Ambiente por um período. Aliás, havia retornado à Unesp recentemente, agora como editor-chefe do jornal da Universidade.

Tuffa gostava de relatar desventuras e aventuras de todos os lugares por onde passou — e como passou por muitos lugares, era um incansável contador de “causos”, uma qualidade essencial para um bom jornalista. A boa prosa também lhe permitiu continuar a fazer novos amigos numa época em que muita gente já se conformou com um círculo mais ou menos estável de relações. Em todas os lugares onde trabalhamos juntos, eu me espantava com a quantidade de pessoas que ele conhecia e com quem conversava animadamente, independentemente do grau de instrução ou formação intelectual. Gente superlativa é assim: gosta de gente.

A grande capacidade afetiva do Tuffa vai nos fazer tanta falta quanto a sua lucidez. Tuffani deixa a esposa, Lélia, e o filho André.

 

Pablo Nogueira

 

 

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