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Iscas de sangue falso envenenado podem ajudar a combater mosquitos

A substância produzida pelo parasita da malária ajudaria a atrair mosquitos para iscas de sangue falso envenenado, controlando sua população.
Mosquitos.

Mosquitos Anopheles são os vetores da malária. Crédito: Dr. William Collins/USCDCP/Pixnio

Mosquitos podem ser ludibriados a se alimentarem de suco de beterraba “sanguíneo” temperado com veneno. É o que mostra um novo estudo, publicado em Communications Biology.

Doenças transmitidas por esses insetos matam mais de 700.000 pessoas no mundo todos os anos, e só a malária é responsável por mais de 50% delas, segundo S. Noushin Emami, bióloga infectologista da Universidade de Estocolmo (Suécia) e principal autora do estudo. Uma abordagem para controlar as populações de mosquitos é misturar veneno com uma isca açucarada. Soluções para problemas globais de saúde precisam ser simples para funcionarem na prática, diz Lech Ignatowicz, CEO de uma startup sueca chamada Molecular Attraction, que ele e Emami fundaram para combater doenças transmitidas por insetos.

Os dois pesquisadores e seus colegas queriam criar uma isca de mosquitos acessível, escalável e específica para insetos que se alimentam de sangue. Primeiro, a equipe precisou de uma base simples e não sanguínea para a isca, uma vez que sangue livre de contaminantes é difícil e caro de obter e armazenar. A solução? Sumo de beterraba. Esses vegetais são abundantes na  Suécia, explica Ignatowicz, e seu suco vermelho escuro é visível dentro das entranhas dos mosquitos, o que facilita aos pesquisadores observarem se eles de fato estão consumindo aquilo. Mas fazer com que os insetos aderissem ao “sangue” de origem vegetal exigiu certa persuasão.

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Em 2017, o grupo de Emami descobriu que o Plasmodium falciparum — um dos parasitas causadores da malária — libera uma substância química chamada HMBPP no sangue de um animal hospedeiro. Esta age como um irresistível e apetitoso convite molecular para mosquitos, seduzindo-os a consumir esse sangue repleto de Plasmodium para que o parasita possa se propagar para um novo hospedeiro.

Cerca de cinco vezes mais mosquitos ingeriram o suco de beterraba depois que os pesquisadores adicionaram HMBPP. Emami afirma que a substância ajuda a garantir que só esses sanguessugas específicos sejam atraídos para o sumo de beterraba e assim consumam o pesticida. Os pesquisadores também estão estudando alternativas naturais para os venenos testados, com o intuito de encontrarem alguma substância que só prejudique mosquitos.

Kristina Gonzales-Wartz, bióloga de doenças infecciosas na Universidade Estadual do Arizona, não afiliada ao estudo, aplaude a ideia de usar a HMBPP para restringir a toxina a mosquitos. “Isso é muito inovador”, elogia. “Mas quão viável é em uma escala maior?”

Agora, os pesquisadores estão empenhados em adaptar a isca para uso comercial. Isso pode envolver trocar as beterrabas por plantas mais comuns ou populares (e mais baratas) em áreas endêmicas de malária.

Annie Melchor

Publicado originalmente na edição de março de 2022 da Scientific American Brasil; aqui em 10/06/2022.

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