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“Inverno vulcânico” pode ter sido a causa do maior evento de extinção em massa já ocorrido na história da Terra

Nova pesquisa analisou evidências geológicas e concluiu que a causa do evento de extinção em massa do fim do Permiano foi, em parte, um resfriamento planetário causado por erupções no sul da China.
Erupção pode ter causado evento de extinção em massa.

Erupção pode ter gerado “inverno vulcânico” e iniciado o maior evento de extinção em massa registrado. Foto de erupção atual. Crédito Pexels/Pixabay

Ao analisar a composição mineral de rochas vulcânicas, um grupo de pesquisadores concluiu que erupções no sul da China foram uma das principais causas para o evento de extinção em massa do fim do Permiano (EPME, na sigla em inglês). Elas teriam causado um “inverno vulcânico” ao liberar cinzas e gases densos que bloquearam uma parte significativa da luz do Sol, gerando um resfriamento em escala global.

O EPME foi o maior dos desastres ecológicos da história do planeta. Ele ocorreu há cerca de 252 milhões de anos e extinguiu cerca de 81% das espécies de animais do oceano — e 89% das terrestres. Assim, seu impacto na biodiversidade do planeta foi tão profundo que cientistas o usam para marcar a fronteira entre a era Paleozoica e a era Mesozoica. 

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Suas causas são objeto de debates, mas, até agora, acreditava-se que o principal fator foi uma série de erupções nos Trapps siberianos (Rússia). Elas espalharam lava pela região e liberaram grande volume de gases e partículas na atmosfera. Esses gases, além de venenosos, também teriam ampliado o efeito estufa em escala global. Dessa forma, eles levariam a um aquecimento repentino que rompeu cadeias alimentares e inviabilizou a sobrevivência de muitas espécies.

A principal evidência para isso estava na datação de rochas ligadas a esta explosão, em conjunto com cálculos que estimavam o impacto global que uma erupção nos Trapps siberianos causaria. 

As erupções no sul da China

Porém, uma nova análise revelou que essas erupções podem ter sido posteriores ao EPME. O estudo foi feito por cientistas do Instituto Nanjing de Geologia e Paleontologia da Academia Chinesa de Ciências e publicado na revista Science Advances.

No trabalho, os pesquisadores utilizaram métodos mais precisos e notaram que um terço das rochas associadas às erupções russas eram mais recentes que o EPME. Ao analisar a sua intrusão magmática — processo de circulação de magma abaixo da superfície que desmancha e reforma minerais antes de uma explosão — o grupo concluiu que ela também deve ter ocorrido posteriormente à extinção

Pensando nisso, o grupo buscou erupções de outras regiões que poderiam ter causado o evento.  

Dessa forma, o grupo encontrou no sul da China, algumas formações rochosas possuíam quantidades anômalas de mercúrio e certos isótopos mais leves de cobre. Ao analisar esse “enriquecimento” com uma nova metodologia, os cientistas concluíram que eles foram causados pelo depósito de partículas ricas em enxofre. Em outras palavras, elas estavam cobertas de cinzas vulcânicas

Rochas do evento de extinção em massa.

Rochas ricas em cobre (verde) indicaram atividades vulcânicas no sul da China no período do EPME. Crédito Instituto Nanjing de Geologia e Paleontologia da Academia Chinesa de Ciências

Ao datar essas rochas através de sua composição mineral, o grupo concluiu que as erupções chinesas correspondiam com o início do EPME. Além disso, havia evidências biológicas da extinção na região — algo ausente nos Trapps siberianos. 

Nova teoria para o evento de extinção em massa

Levando esses fatores em consideração, o artigo propõe uma nova teoria para o evento. “Ao olharmos mais de perto para as evidências geológicas do período da grande extinção, descobrimos que o EPME pode ter tido múltiplas causas entre espécies marinhas e não marinhas,” afirma Michael Rampino, professor do Departamento de Biologia da Universidade de Nova York e coautor do estudo. 

A explicação proposta é que erupções no sul da China liberaram grandes quantidades de cinzas e gases. Estes, por sua vez, se espalharam pelo globo, bloqueando parte da luz solar que chegava na Terra.

Dessa maneira, as temperaturas do planeta rapidamente caíram, gerando um resfriamento em escala planetária que contribuiu para extinção de muitas espécies — um verdadeiro “inverno vulcânico”. Além disso, com a diminuição da luz disponível, grande parte dos organismos fotossintetizantes —  na terra e principalmente nos oceanos — morreram. Além de afetar as cadeias alimentares diretamente, isso levou a uma diminuição na quantidade de oxigênio disponível, sufocando parte da vida do período. 

“Aerossóis atmosféricos de ácido sulfúrico produzidos pelas erupções podem ter sido a causa de um resfriamento global durante décadas, antes do aquecimento severo observado no intervalo do EPME,” explica Rampino.

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Esse período de aquecimento após a queda nas temperaturas deve ter sido causado por outras erupções, como a dos Trapps siberianos. Elas injetaram grandes quantidades de gás carbônico na atmosfera, intensificando o efeito estufa. Portanto, o efeito combinado dessas erupções ajudou a causar variações drásticas na temperatura do planeta, agravando ainda mais os efeitos do evento de extinção em massa.

Em suas conclusões, os autores do artigo ressaltam que estudar extinções em massa não se aplica apenas ao passado. “Um dos fatos mais interessantes e preocupantes sobre a extinção no fim do Permiano é sua similaridade com o que está acontecendo hoje,” afirma Shen Shuzhong, professor da Universidade de Nanjing. “De forma similar ao que estava acontecendo nesse período, a Terra atual está enfrentando aquecimento acelerado devido às emissões antropogênicas de CO2.”

Publicado em 19/11/2021.

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