Notícias

Injeção de proteínas sensíveis à luz restaura a visão de homem cego

Teste clínico de nova tecnologia de optogenética permite que pessoa volte a enxergar após décadas, com a ajuda de óculos amplificadores de imagem

Crédito: Lighpoet/Envato elements

 

Após 40 anos de cegueira, um homem de 58 anos conseguiu enxergar imagens e objetos em movimento novamente. Isso foi possível graças a uma injeção de proteínas sensíveis à luz em sua retina.

O estudo, publicado em 24 de maio na revista Nature Medicine, é a primeira aplicação clínica bem-sucedida de uma técnica chamada optogenética, que usa flashes de luz para controlar a expressão gênica e o disparo dos neurônios. Ela é amplamente usada em laboratórios para sondar circuitos neurais e está sendo investigada como um potencial tratamento para dor, cegueira e distúrbios cerebrais.

O ensaio clínico foi conduzido pela empresa GenSight Biologics, com sede em Paris. Os participantes inscritos são pessoas com retinite pigmentosa, uma doença degenerativa que mata as células fotorreceptoras do olho. Em uma retina saudável, os fotorreceptores detectam a luz e enviam sinais elétricos às células ganglionares da retina (RGCs). Estas, então, transmitem o sinal ao cérebro. A terapia optogenética da GenSight contorna  as células fotorreceptoras danificadas por completo ao usar um vírus para transportar  proteínas bacterianas sensíveis à luz para as RGCs, permitindo que estas detectem imagens diretamente.

Os pesquisadores injetaram o vírus no olho de um homem com retinite pigmentosa. Após quatro meses de espera, para que os RGCs começassem a produzir as proteínas, eles testaram a visão do paciente. Segundo José-Alain Sahel, oftalmologista  do Centro Médico da Universidade de Pittsburgh e líder do estudo, um dos desafios enfrentados pela equipe foi regular a quantidade e o tipo de luz que entravam no olho, pois a retina saudável usa uma variedade de células e proteínas sensíveis à luz para enxergar. “Nenhuma proteína consegue replicar o que esse sistema pode fazer”, disse ele. Assim, os pesquisadores projetaram óculos que capturam as imagens ao redor do homem e as otimizam para serem detectadas pelas proteínas bacterianas.

++ LEIA MAIS

Implante de córnea artificial faz paciente cego voltar a enxergar

Novo olho artificial imita a curva natural da retina

Pessoas cegas conseguem “ver” letras que cientistas desenham em seus cérebros usando eletricidade

Usando uma câmera, os óculos analisam as mudanças no contraste e no brilho. Elas são convertidas em tempo real  no que Sahel descreve como um “céu estrelado” de pontos âmbar. Quando a luz desses pontos entra no olho de uma pessoa, ela ativa as proteínas e faz com que os RGCs enviem um sinal ao cérebro, que, então, transforma esses padrões em uma imagem.

O homem que participou do teste teve que treinar com os óculos por vários meses antes de seu cérebro se ajustasse de forma a conseguir  interpretar os pontos corretamente. “Ele era como um experimentalista, um cientista tentando entender o que estava vendo e dar sentido a isso”, disse Sahel. Com o tempo, o paciente foi capaz de distinguir imagens de alto contraste, incluindo objetos em uma mesa e as listras brancas em uma faixa de pedestres. Quando os pesquisadores registraram sua atividade cerebral, descobriram que seu córtex visual reagiu à imagem da mesma forma que faria se ele tivesse visão normal.

O homem ainda não consegue ver sem os óculos. Mas Sahel diz que ele os usa várias horas por dia e que sua visão continuou a melhorar nos dois anos seguintes à injeção. Seis outras pessoas receberam uma injeção com as mesmas proteínas sensíveis à luz no ano passado, mas a pandemia da COVID-19 atrasou seu treinamento com os óculos de proteção. Sahel espera ter seus resultados dentro de cerca de um ano.

SEGURO E PERMANENTE

“É um grande passo para este campo de estudo”, diz John Flannery, neurobiologista da Universidade da Califórnia, Berkeley. “O mais importante é que o método parece ser seguro e permanente,  isso é algo muito encorajador”. Como a retina contém cerca de 100 vezes mais fotorreceptores do que RGCs, a resolução das imagens detectadas por RGCs nunca será tão boa quanto a visão natural.  Porém, para Flannery, é emocionante que o cérebro possa interpretar imagens com precisão.

Outros dizem que mais pesquisas são necessárias. “É interessante, mas é um estudo clínico com um único paciente, apontou Sheila Nirenberg, neurocientista do Weill Cornell Medical College, em Nova York. Ela acrescentou que espera ver se as outras pessoas no estudo, incluindo algumas que foram injetadas com doses mais altas da proteína, terão resultados semelhantes.

++ LEIA MAIS

Usando estimulação luminosa, pesquisadores conseguem estabelecer comunicação entre chips e neurônios

Pela primeira vez, tratamento de edição genética com CRISPR é feito diretamente no corpo do paciente

A GenSight é uma das várias empresas que desenvolvem optogenética como tratamento para retinite pigmentosa  e outros distúrbios da retina. Em março, a empresa de Sheila Nirenberg, Bionic Sight, anunciou que quatro de seus cinco pacientes com retinite pigmentosa recuperaram algum nível de visão. Eles foram tratados com uma terapia optogenética semelhante a da GenSight e equipamentos de realidade virtual.  Os resultados completos do teste, entretanto, ainda não foram publicados. A gigante empresa farmacêutica suíça Novartis também está desenvolvendo uma tratamento baseado em uma outra proteína, tão sensível à luz que talvez não sejam necessários óculos de proteção. Essa terapia ainda não entrou em ensaios clínicos.

O neurocientista Karl Deisseroth, da Universidade de Stanford, na Califórnia, que co-desenvolveu a optogenética como técnica de laboratório, reassaltou a importância do estudo ao ser pioneiro em demonstrar os efeitos da terapia em pessoas. “Será interessante tentar isso com opsinas mais sensíveis à luz”, que podem não exigir óculos de proteção, disse. Mas Deisseroth espera que a optogenética seja mais útil como uma ferramenta de pesquisa que leva a terapias, em vez de uma terapia em si. “Esperamos ver ainda mais estudos humanos e clínicos guiados pela optogenética”.

Sara Reardon, publicado originalmente na Nature Medicine em 24/05/2021. 

Utilizamos cookies essenciais para proporcionar uma melhor experiência. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de privacidade.

Política de privacidade