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Debate sobre hipótese de que COVID teria se originado de laboratório pode prejudicar cooperação internacional

Alegações feitas nos EUA de que vírus se originou de um vazamento de laboratório na China dificultam colaboração entre superpotências para acabar com pandemia e alimentam o bullying online.

Entrada do Instituto de Virologia de Wuhan, a cidade onde surgiu o Sars-Cov2, está no centro dos pedidos de investigação. Crédito: Ureem 2085/ Creative Commons.

Pedidos para investigar os laboratórios chineses atingiram um auge nos Estados Unidos. Líderes republicanos alegam que o vírus causador da pandemia é resultado de um vazamento de laboratório. Já alguns cientistas argumentam que essa hipótese requer uma investigação independente e completa. Mas, para muitos pesquisadores, o tom das crescentes demandas é inquietante. Segundo eles, a volatilidade do debate pode frustrar os esforços para estudar as origens do coronavírus.

Especialistas também alertam que as demandas crescentes estão aumentando as tensões entre os Estados Unidos e a China, às vésperas de reuniões cruciais nas quais os líderes mundiais tomarão decisões importantes sobre como conter a pandemia e se preparar para futuras emergências de saúde. Na Assembleia Mundial da Saúde desta semana, por exemplo, autoridades de saúde de quase 200 países estão discutindo estratégias. Entre elas estão o aumento da fabricação de vacinas e a reforma da Organização Mundial da Saúde (OMS).

No entanto, a cisão EUA-China tornará mais difícil alcançar algum  consenso sobre essas questões,  diz David Fidler, pesquisador do Conselho de Relações Exteriores, um grupo de estudos em Washington. “Se o conflito geopolítico entre essas duas grandes potências se abrandar, poderíamos criar algum espaço para, talvez, fazer algumas das coisas que são necessárias.”

Outros temem que a retórica em torno de um suposto vazamento de laboratório tenha se tornado tóxica. Chegando ao ponto em que alimenta o bullying online direcionado a cientistas e o assédio anti-asiático nos Estados Unidos. Além de ofender pesquisadores e autoridades chinesas, cuja cooperação é necessária.

ÂNIMOS EXALTADOS

Desde o ano passado, a discussão sobre a hipótese de um vazamento de laboratório tem sido barulhento. Porém, o tema alcançou o auge ao longo do  último mês – mesmo sem  evidências fortes que a favoreçam.  Em 14 de maio, 18 pesquisadores publicaram uma carta na revista Science argumentando que deveria-se explorar com mais profundidade a ideia de que o SARS-CoV-2  teria se originado do vazamento de um laboratório na China.  O documento aponta que a primeira fase de uma investigação sobre as origens do COVID-19 patrocinada pela OMS focou mais na hipótese de que o vírus teria vindo de um animal do que numa possível fuga de um laboratório.

Por exemplo, o relatório divulgado em março deste ano mapeou um grande mercado em Wuhan, China. Suas conclusões indicam que a maioria das amostras de SARS-CoV-2 recuperadas lá pelos investigadores foram encontradas perto de barracas que vendiam animais. Muitos virologistas dizem que esse enfoque é justificado, pois a maioria das doenças infecciosas emergentes começa com um transbordamento da natureza, como visto com o HIV, Zika e Ebola. Evidências genômicas também sugerem que um vírus semelhante ao SARS-CoV-2 se originou em morcego-de-ferradura (Rhinolophus spp). Depois, teria se espalhado para um animal desconhecido, que então passou o patógeno para as pessoas.

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A investigação concluiu que uma origem animal era muito mais provável do que um vazamento de laboratório. Mas, desde então, políticos, jornalistas, apresentadores de talk shows e alguns cientistas apresentaram alegações infundadas ligando o coronavírus ao Instituto de Virologia de Wuhan (WIV), a cidade onde a COVID-19 foi detectada pela primeira vez. Alguns membros do Congresso dos EUA e da mídia foram mais longe. Eles alegaram que o governo chinês está encobrindo um vazamento de SARS-CoV-2 do WIV, e que Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos EUA (NIAID ), está envolvido. O elo estaria no fato de que  o NIAID financiou alguns estudos no WIV. Ambos negaram, dizendo que não encontraram o SARS-CoV-2 até que o vírus fosse isolado dos pacientes ,no final de dezembro de 2019.

Mesmo que a carta da Science fosse bem intencionada, seus autores deveriam ter ponderado mais sobre o efeito que ela poderia ter sobre  o ambiente político que envolve a questão, disse Angela Rasmussen, virologista da Universidade de Saskatchewan, no Canadá.

O principal autor da carta, David Relman, microbiologista da Universidade de Stanford, na Califórnia, ainda sente que é importante expressar sua opinião e diz que não pode impedir deturpações. “Não estou dizendo que acredito que o vírus veio de um laboratório”, disse ele. Na verdade, Relman afirma que os autores do relatório de investigação da OMS foram categóricos em suas conclusões. Ele sugere que os investigadores podem ter achado a hipótese de origem natural mais “atraente” em vez de “altamente provável”.  Para o microbiologista, os agentes da organização deveriam ter escrito que não tinham informações suficientes para tirar uma conclusão sobre um vazamento. Eles visitaram o WIV e questionaram os pesquisadores lá, mas não receberam dados primários.

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Na carta à Science, os autores observam que os asiáticos têm sido perseguidos por aqueles que culpam a China pela COVID-19 e tentam argumentar contra os abusos. No entanto, alguns defensores agressivos da hipótese do vazamento  interpretaram a carta como um apoio às suas ideias. Por exemplo, um neurocientista pertencente a um grupo que afirma investigar COVID-19 de forma independente escreveu no twitter que a carta é uma versão diluída de ideias que sua equipe postou online no ano passado. Naquela mesma semana, no Twitter, o neurocientista também criticou Rasmussen, que tentou explicar ao público estudos que sugeriam uma origem natural do SARS-CoV-2. Ele a chamou de gorda e fez um comentário depreciativo sobre sua anatomia sexual. Rasmussen disse: “o debate se afastou tanto das evidências que não sei se podemos voltar ao que era antes”.

Relman diz que está triste com o abuso feito por seus colegas cientistas, mas se mantém firme.

CIENTISTA EM CONFLITO

As demandas por investigações sobre laboratórios  aumentaram ainda mais com o início da Assembleia Mundial da Saúde em 24 de maio. A partir dali, os Estados Unidos solicitaram que a OMS conduzisse um estudo fase 2 “transparente e com base científica”.  O presidente dos EUA,  Joe Biden, anunciou que pediu à comunidade de inteligência estadunidense  que “pressionasse a China a participar” de uma investigação. A OMS, que não tem autoridade para conduzir uma investigação na China sem a permissão do país, está atualmente considerando propostas para a próxima fase do estudo.

Enquanto isso, as manchetes dos EUA estão explodindo com o interesse revivido na hipótese de vazamento de laboratório, e muitas têm relação com dois artigos publicados no jornal  The Wall Street Journal. Um deles se refere a um documento confidencial, divulgado por um  anônimo membro da administração do ex-presidente Donald Trump. Nele, consta a informação de que três pesquisadores do WIV teriam ficado doentes em novembro de 2019. Já o segundo diz que as autoridades chinesas impediram um jornalista de entrar em uma mina abandonada onde o WIV coletou amostras de coronavírus de morcegos em 2012. Os pesquisadores há muito sustentam que nenhum dos vírus era o SARS-CoV-2. Em resposta, o Ministério das Relações Exteriores da China disse: “Os EUA continuam inventando alegações inconsistentes para investigar os laboratórios em Wuhan”.

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Kristian Andersen, virologista da Scripps Research, na Califórnia, afirma que nenhuma evidência forte apoia a hipótese de vazamento em laboratório.  Ele teme que as demandas hostis por uma investigação sobre a WIV possam sair pela culatra, porque muitas vezes soam como afirmações. Andersen diz que isso pode diminuir a probabilidade de cientistas e bucrocratas chineses compartilharem informações. Outros virologistas sugerem que tais sentimentos podem levar a um maior escrutínio das verbas dos EUA para projetos de pesquisa conduzidos na China. Eles apontam para um projeto de coronavírus executado por uma organização sem fins lucrativos dos EUA e o WIV, que foi abruptamente suspenso no ano passado, depois que os Institutos Nacionais de Saúde dos EUA retiraram seu financiamento. Sem essas colaborações, diz Andersen, os cientistas terão dificuldade em descobrir a origem da pandemia.

DIPLOMACIA

Porém, mais está em jogo do que a descoberta das origens do COVID-19. Analistas de políticas globais de saúde argumentam que é crucial para os países trabalharem juntos a fim de conter a pandemia e preparar o mundo para o futuro. As ações necessárias, dizem eles, incluem a expansão da distribuição de vacinas e a reforma das regras de biossegurança, tais como a adoção de padrões para relatar dados de vigilância de vírus. Mas tais medidas requerem um amplo consenso entre os países poderosos, disse Amanda Glassman, especialista em saúde global do Centro para o Desenvolvimento Global em Washington DC. “Precisamos olhar para o quadro geral e focar nos incentivos que nos levem aonde queremos chegar. Uma abordagem de confronto tornará as coisas piores.”

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Fidler concorda. Ele diz que as crescentes demandas e denúncias estão contribuindo para uma cisão geopolítica em um momento em que a solidariedade é necessária. “Os Estados Unidos continuam importunando a China com essa questão de investigação”. Mesmo que as investigações sobre a origem do COVID-19 avancem, Fidler não espera que elas revelem nem tão cedo os dados definitivos que os cientistas buscam. As origens da maioria dos surtos de ebola permanecem ignoradas, por exemplo. Os pesquisadores passaram 14 anos coletando evidências de que a epidemia de síndrome respiratória aguda grave (SARS) de 2002-2004 foi causada por um vírus transmitido de morcegos para civetas, que infectaram humanos.

Portanto, com uma necessidade premente de políticas de biossegurança, Fidler acha que os Estados Unidos deveriam se concentrar em fomentar a diplomacia da pandemia, por meio de reuniões entre embaixadores dos EUA e da China, como aconteceu com as discussões sobre mudanças climáticas em abril. “Será que não há algumas coisas que realmente precisamos fazer para nos prepararmos para a próxima pandemia, devido ao desastre desta?”

Amy Maxmen

Este artigo foi reproduzido com permissão e foi publicado pela primeira vez em 27 de maio de 2021 na Nature Medicine

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