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Estudo piloto registra que mortes entre diabéticos que tem COVID-19 chegam a 10%

Além da doença, idade e índice alto de IMC são indicativos de maior chance de óbito e de uso de respiradores em até sete dias após hospitalização

Créditos: Shutterstock

O primeiro estudo sobre a COVID-19 a analisar especificamente os efeitos da doença em pacientes diabéticos hospitalizados  descobriu que um em cada dez participantes faleceu em até sete dias após a admissão ao hospital, e um em cinco foi entubado e já precisava de ventilação mecânica após esse período. A pesquisa foi publicada em Diabetology (a revista da Associação Europeia para o Estudo de Diabetes [EASD]) por Bertrand Cariou, Samy Hadjadj e colegas pesquisadores do  L’institut du Thorax, do Hospital Unviersitário de Nantes, do INSERM, do CNRS e da Universidade de Nantes, na França.

O estudo mostrou que dois terços (65%) dos pacientes diabéticos com COVID-19 admitidos eram homens, e a idade média dos pacientes era de 70 anos. Problemas no  controle  do açúcar no sangue não pareceram ter impacto nos resultados do paciente, mas  a existência  de complicações diabéticas e idade avançada aumentam o risco de morte, e um índice de massa corpórea (IMC) alto se associou a um aumento do risco da necessidade de ventilação mecânica, e  aumento do risco de óbito. 

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O estudo CORONADO analisou 1317 pacientes admitidos em 53 hospitais franceses (públicos e particulares) entre 10 e 31 de março em 2020. A maioria dos sujeitos hospitalizados possuía diabetes tipo 2 (89%) enquanto apenas 3% possuía tipo 1, e os casos remanescentes sofriam dos demais tipos de diabete. Em 3% dos casos, a diabetes só foi diagnosticada durante a hospitalização por COVID-19.

Complicações microvasculares (olhos, rins e nervos) foram encontradas em 47% dos sujeitos do estudo, e  complicações macrovasculares (artérias do coração, cérebro e pernas) se apresentaram em 41% dos pacientes analisados. Entre todos os pacientes do estudo, ao sétimo dia, um cada em cinco participantes  (20,3%) havia sido  entubado e colocado em ventilação numa unidade de tratamento intensivo, e um em 10 (10,3%) faleceu. Até o momento, 18% dos participantes foram liberados. 

A presença de complicações microvasculares ou macrovasculares mais que dobrou o risco de morte no sétimo dia. Idade avançada também aumentou substancialmente o risco de óbito: o grupo de pacientes com 75 anos ou mais tinha uma possibilidade  14 vezes maior de falecer do que pacientes com idade menor que 55 anos. Já os pacientes entre  65 e 74 anos tinham  três vezes mais chances de falecer do que aqueles com menos de 55 anos. A ocorrência de  apneia do sono, assim como dificuldades de respirar,  quase triplicaram  o risco de morte no sétimo dia. 

O estudo também confirmou que a insulina, e todos os tratamentos para regular a glicemia não representam fator de risco para formas mais graves da COVID-19, e podem continuar a ser ministradas em pacientes com diabetes. Não houve mortes em pacientes com menos de 65 anos com tipo 1 de diabetes, mas os autores destacaram que houve apenas 39 pacientes com tipo 1 de diabetes neste  estudo, e que outro trabalho está em andamento  para avaliar os efeitos da COVID-19 nessa específica condição.

Um índice alto de IMC  aumenta o risco de que o paciente seja entubado ou venha a óbito até o sétimo dia de hospitalização. As mulheres tinham uma chance  25% menor de apresentar os mesmos índices vistos nos homens (um número que possui muito significado estatisticamente). Porém, quando se avalia  apenas para óbitos, os homens não têm mais chances, em termos estatísticos, do que as mulheres de virem a falecer até o sétimo dia.  “Os fatores de risco para formas mais graves da COVID-19 são idênticos àqueles encontrados na população em geral: idade e IMC”, dizem os autores.

Os mais idosos, com diabetes há muito tempo e complicações da doença, e/ou apnéia em tratamento, tinham um risco maior de morte precoce, e podem necessitar de cuidados específicos para evitar a infecção com o novo coronavírus. O IMC também se mostra como um fator prognóstico independente para a gravidade da COVID-19 na população que vive com diabetes e precisa ser admitida em um hospital. A ligação entre obesidade e a COVID-19 necessita de novos estudos.

Os autores planejam publicar novos trabalhos no verão, detalhando o resultado de quase 3000 pacientes diabéticos hospitalizados com COVID-19, observando suas condições 28 dias após a admissão no hospital. O próximo estudo também realizará comparações mais detalhadas sobre os resultados da COVID-19 em pacientes com e sem diabetes. 

 

Publicado em 29/05/2020