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EUA abandonam Acordo de Paris após Trump protelar ações contra aquecimento global por quatro anos

Iniciativas estaduais e barateamento das energias renováveis reduziram danos de abandono de políticas de mitigação, mas o impacto de Trump sobre o clima pode ser de longo prazo

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A saída dos Estados Unidos do histórico Acordo de Paris sobre o clima, estabelecido em 2015, começou a valer  hoje, coroando quatro anos de iniciativas do presidente Donald Trump para reverter as políticas de mitigação de mudanças climáticas adotadas no governo Obama. A aceleração das emissões de gases efeito estufa do país durante o mandato de Trump pode ter sido atenuada por esforços empreendidos por estados e municípios, pelo emergente mercado de energia renovável e pela recessão econômica que foi causada pela pandemia da COVID-19. Mas mesmo assim os passos atrás dados durante esse governo podem levar a um aumento na quantidade de carbono na atmosfera ao longo da próxima década, ou num período ainda maior. 

A posição dos Estados Unidos contrasta muito com a adotada pela maior parte das demais nações. Outros países industrializados estão “detalhando políticas que são adequados com seu contexto nacional particular, e estabelecendo  compromissos ambiciosos que se relacionam com essas políticas em vários aspectos”,  diz Rachel Cleetus, diretora de Políticas do Clima e do Programa de Energia da União de Cientistas Preocupados. Apenas na última semana, por exemplo, o primeiro-ministro japonês Yoshihide Suga acenou com a redução a zero das  emissões de carbono do país até  2050. A China e a União Europeia firmaram compromissos similares. “No momento, os Estados Unidos estão isolados globalmente”, acrescenta Cleetus. “Nenhum outro país deixou o acordo.” 

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Quando o acordo de Paris foi concluído em 2015, foi celebrado como um compromisso histórico, adotado por aproximadamente 200 nações, para reduzir as emissões de gases de efeito estufa para impedir os piores efeitos das mudanças climáticas. O objetivo estabelecido pelo pacto era impedir que as temperaturas médias globais subissem mais de 2 graus Celsius acima dos níveis pré-industriais até o fim deste século, e envidar esforços para manter esse crescimento na temperatura média abaixo de 1,5 graus Celsius. Ao contrário das alegações de Trump, o acordo (que passou a ser válido em novembro de 2016), não traz imposições: solicita-se aos países signatários que adotem suas próprias estratégias para reduzir as emissões; 

Assinar o acordo foi um dos pontos altos da ambiciosa política climática capitaneada pelo presidente Barack Obama. As emissões dos Estados Unidos aumentaram constantemente durante décadas antes que ele fosse eleito, e seu governo  reverteu essa tendência. Isso exigiu ações como definir padrões mais rigorosos de economia de combustível em  veículos, e estabelecer  um Plano de Ação Climática que “delineou as reduções de emissões sistemáticas para quase todo setor da economia”, diz Kate Larsen, diretora do Grupo Rhodium, uma organização de pesquisa independente. Larsen recentemente foi co-autora de uma análise que descobriu que a reversão dessas políticas climáticas empreendida por  Trump poderia fazer com que o  equivalente a um terço das emissões de gases do efeito estufa emitidas no ano de 2019 seja despejado na atmosfera até 2035. “Nós estimamos que, com o conjunto de  políticas do governo Obama funcionando, os Estados Unidos chegaria próximos de cumprir a meta estabelecida pelo acordo de Copenhagen em 2009, que visava uma redução de 17%  [nas emissões de carbono em relação aos  níveis de 2005] em 2020”, ela diz. As políticas implementadas por Obama não teriam bastado para alcançar as as reduções mais rigorosas estabelecidas pelo Acordo de Paris, de reduzir as emissões entre 26% e 28% abaixo dos níveis de 2005 até o ano de 2025, mas elas “teriam sido um bom primeiro passo”. 

Trump começou a tentar a desfiar o legado de seu predecessor quase que imediatamente após sua posse. Em março de 2017, ele ordenou a Agência de Proteção Ambiental que sucateasse o Plano de Energia Limpa — uma política da era Obama que visava reduzir, até 2030, as emissões  de geração de energia nos EUA em até 32% dos níveis de 2005. Sob  essa diretriz, a agência adotou a política de  Affordable Clean Energy. De acordo com as análises do Grupo Rhodium, a mudança de política somente poderia resultar em um máximo de 624 milhões de toneladas métricas das emissões de gases efeito estufa até 2035. A administração de Trump também enfraqueceu os requisitos para eficiência de combustível e reverteu diversas regulações relacionadas ao metano, um potente gás efeito estufa, entre outras ações. Em conjunto, essas mudanças de regra resultarão em um excesso de 1,8 bilhões de toneladas de CO2 equivalentes até 2035, de acordo com relatório da Rhodium. “Os últimos quatro anos da administração de Trump não foram apenas  uma reversão de muitas das políticas de Obama que poderiam nos colocar no caminho para alcançar nossas metas  iniciais”, disse Larsen, “[também foram] quatro anos de oportunidades perdidas para continuar o progresso da administração de Obama”. 

Apesar do tempo perdido, uma confluência de fatores impediu que as medidas  de Trump gerassem resultados tão deletérios. Iniciativas de estados e municípios,  somadas à crescente competitividade econômica das fontes de energia renováveis, ajudaram a diminuir as emissões na falta de regulamentações federais. Joseph Aldy, economista da Escola de Governo John F. Kennedy da Universidade Harvard, que serviu como um assistente especial de Obama para a energia e o ambiente de 2009 a 2010, diz que o resultado é que durante o mandato de Trump as emissões se mantiveram estáveis, ao invés de registrarem um pico. “A administração de Trump diminuiu o progresso consideravelmente, mas não reverteu o progresso”, diz Aldy. “Ela certamente não cumpriu sua promessa  [de campanha] de trazer o carvão de volta” como uma fonte de energia. (Indústrias com matriz por carvão produzem mais que o dobro de emissões de CO2 que matrizes de gás natural.) O apelo de mercado do barateamento do  gás natural, da energia eólica e da energia solar  significam que “simplesmente não há razão econômica” para investir no carvão, ele diz.   

A pandemia de  COVID-19 também diminuiu o total de emissões em 2020 dos Estados Unidos. De acordo com um estudo publicado na revista Nature Climate Change em maio, as emissões globais de CO2 caíram cerca de 17% nos primeiros quatro meses de 2020, comparado com o ano anterior. As maiores reduções foram causadas por diminuições agudas no transporte por aviação e pela superfície. Outra pesquisa, publicada em outubro na Nature Communications, descobriu que as emissões de CO2 começaram a aumentar novamente em maio e junho de 2020, resultando em um declínio das emissões globais de cerca de 9%, comparado com 2019. Eri Saikawa, cientista ambiental da Universidade Emory, que não estava envolvido em nenhum estudo, diz que o fato de que a redução nas emissões se deveu aos afeitos da  COVID-19 não é uma boa notícia. “Nós realmente precisamos fazer tudo que podemos para reduzir [as emissões]”, ela diz. “A COVID não pode fazer isso”. Se o governo federal continuar a ignorar as mudanças climáticas após o abrandamento da pandemia, os movimentos populares  poderiam pressionar os governos locais a se moverem por conta própria”, ela diz. 

A atuação federal para o combate às mudanças climáticas agora depende de quem assumirá o governo  em janeiro de 2021.  Trump continua a reverter as regulações de emissões, e a nomear funcionários para cargos-chave que fizeram declarações pondo em dúvida  conceitos sobre o clima que são amplamente aceitos.  Mas o ex-presidente Joe Biden pretende re-instituir as políticas de mudança climática que são ainda mais ambiciosas que as de Obama. Ele também disse que trará os Estados Unidos de volta ao acordo de Paris. Fazer isso seria um processo relativamente simples e aconteceria 30 dias após Biden enviar a notificação de sua intenção de voltar. Mas mesmo que uma administração Biden ataque agressivamente as emissões de carbono, o impacto de Trump sobre as políticas climáticas pode ser duradouro. 

“Existe um efeito duradouro devido a uma atuação falha ao longo dos últimos quatro anos”, diz Aldy. “Nós precisamos de uma abordagem que adote políticas públicas [sobre mudanças climáticas] para  toda a economia e todo o governo. É o atraso em entender disso que torna tudo mais difícil. Mas conforme Trump demonstrou com a COVID-19, é  realmente difícil para ele trabalhar muito para lidar com desafios.”

Jim Daley

Publicado em 04/11/2020

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