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Encontrado no fundo do mar, Antikythera é o primeiro computador planetário do mundo

Descoberto em 1900, o mecanismo de Antikythera parecia milhares de anos à frente de seu tempo — e até hoje guarda mistérios.
Antikythera.

Fragmento do mecanismo de Antikythera, com a engrenagem do painel frontal em destaque. Crédito: Rachel Blackman/Flickr

Em um artigo para a Scientific American Brasil de junho de 2022, Tony Freeth,  matemático, cineasta e membro da Equipe de de Pesquisa Antikythera, da Universidae College de Londres, detalha como seu grupo de pesquisa descobriu um novo uso para a placa frontal do objeto, que até hoje continua repleto de mistérios.

Em 1900, um grupo de mergulhadores procurava por esponjas naturais em Antikythera, ilha entre Creta e a Grécia continental. Um deles, Elias Stadiatis, usando o clássico capacete de cobre e latão, emergiu dizendo ter visto “mortos nus” no leito do Mar Mediterrâneo. Os mortos, na verdade estátuas gregas, faziam parte de um naufrágio que deu origem à primeira escavação arqueológica de larga escala debaixo d’água. 

Um dos objetos encontrados foi uma caixa do tamanho de um dicionário grande, que, diante das maravilhas do naufrágio grego de 60-70 a.C., permaneceu ignorada. Mas, meses depois, ela se partiu no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, expondo algo que, segundo as ideias do momento de desenvolvimento tecnológico, não deveria estar lá: engrenagens de um sistema complexo, que ficou conhecido como o mecanismo de Antikythera, datado entre 205 e 60 a.C.

Ao longo das décadas, cientistas encontraram marcações e sistemas internos que ajudaram a identificá-lo como um computador planetário. Entre essas características está um mostrador para indicar o ciclo de 19 anos no qual ocorrem 235 fases da Lua (ciclo metônico), além de outro indicador de 233 meses para prever eclipses solares e lunares — ambos no painel traseiro do objeto.

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Entre seus propósitos principais está a capacidade de rastrear os movimentos dos “errantes”, objetos que tinham um movimento estranho pelo céu, diferentes das “estrelas fixas”, sem movimento relativo entre si. A astronomia da Grécia Antiga, baseada em parte na astronomia dos babilônios, tinha grande dificuldade em rastrear esses errantes, que pareciam variar entre ir na mesma direção do Sol, ou um movimento prógrado, ou ir em direção contrária, em movimentos retrógrados. 

Hoje, sabemos que os errantes são os cinco planetas do Sistema Solar que podiam ser vistos pelos gregos antigos, e seu movimento estranho é causado por orbitarem o Sol, assim como a Terra. Mas, na antiguidade, acompanhá-los era um grande desafio. Uma saída, portanto, seria calculá-lo com um computador. 

Apesar de conhecido esse propósito, montar o quebra cabeça de 83 fragmentos de Antikythera não é uma tarefa fácil, e ainda mais complicado é engendrar seu funcionamento.

No mecanismo proposto por Tony Freeth e sua equipe, Antikythera possuía 69 engrenagens separadas em sistemas para prever o movimento do Sol, Marte, Júpiter, Saturno, Mercúrio, Vênus, da Lua e de seus nodos, em diferentes referenciais e subsistemas. Com determinados números de dentes, a máquina era capaz de acompanhar o ciclo desses astros e traduzi-lo em calendários, exibidos na parte traseira do dispositivo.

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Segundo o autor, “de fora, um usuário poderia girar um botão de calendário para um ponto desejado passado, presente ou futuro e as engrenagens internas moveriam os ponteiros e anéis no mostrador para revelar previsões celestes”. 

Mas a característica mais proeminente do objeto, e foco da equipe de Freeth, é a roda motriz no painel frontal com quatro raios, que exibia a localização dos astros com contas coloridas e era projetada para completar uma volta por ano. Baseados em uma tomografia de 2005, para estudar o objeto sem destruí-lo, — e nas evidências de que esta roda segurava mais peças no passado — sua equipe descobriu novas relações de períodos astronômicos e avançou no entendimento de como o esse mecanismo de exibição da posição dos planetas se encaixava, “completando” as partes faltantes através de um mergulho na astronomia antiga.

Freeth deixa claro que ainda há muito para se desvendar do misterioso Antikythera, mas seus trabalhos, usando métodos de análise de última geração, dão passos importantes para revelar a maravilha tecnológica da Grécia Antiga e desfazer preconceitos sobre suas capacidades científicas.

Quer mais detalhes sobre as descobertas de Freeth sobre o painel frontal do computador planetário? Leia o artigo completo e ainda veja uma ilustração explicativa das entranhas do dispositivo na edição de junho de 2022 (nº 231) da Scientific American Brasil, disponível em versão digital e impressa, por assinatura ou compra avulsa. Confira na loja!

Publicado em 15/06/2022.

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