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Em novo livro, Miguel Nicolelis apresenta explicação original para o funcionamento do cérebro e dinâmica das sociedades humanas

Teoria do Cérebro relativístico foi elaborada também a partir dos célebres experimentos em que macacos manipularam membros robóticos à distância, usando apenas o pensamento.

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O neurocientista Miguel Nicolelis está de livro novo. Intitulado O Verdadeiro Criador de Tudo – como o cérebro esculpiu o mundo como nós o conhecemos – a obra é uma espécie de legado científico do cientista, contendo as ideias destiladas  ao longo de quase quatro décadas de investigação do cérebro. Embora escrito em linguagem de divulgação, o livro apresenta uma ambiciosa explicação original sobre como se dá o funcionamento cerebral, que Nicolelis batizou de teoria relativística do cérebro. A partir dessa perspectiva “cerebrocêntrica”, o autor procura explicar uma vasta gama de comportamentos individuais e sociais, da construção das pirâmides ao  impacto das novas tecnologias digitais sobre a evolução humana.

Embora tenha desenvolvido a maior parte de sua carreira científica no exterior, Nicolelis se manteve ligado e interessado no desenvolvimento da ciência brasileira de várias formas. Talvez a mais conhecida tenha sido a criação do Instituto Internacional de Neurociências Edmond e Lily Safra, em Natal. Mas ela continua, por exemplo, em suas atividades atuais como coordenador do Comitê Científico de Combate ao  Coronavírus, ligado ao consórcio de governadores do Nordeste.

Publicada na data em que celebramos o Dia Nacional da Ciência, esta entrevista evidencia a criatividade dos pesquisadores brasileiros, e sua capacidade de fazer contribuições relevantes para  os principais problemas científicos em aberto.

 

Segue-se uma versão condensada da entrevista.

 

Scientific American Brasil — O seu livro é um tour de force, que para esclarecer ideias das neurociências passeia por areas como evolução humana, termodinâmica, teoria da informação, fisiologia vegetal, história antiga, teoria da relatividade, filosofia da ciência, história da arte, e até política, entre muitas outras áreas.

Miguel Nicolelis — Sim.

SAB — Por que você resolveu escrever este livro?

MN — Cinco anos atrás quando eu comecei a escrever o livro, eu achava que era preciso oferecer uma unificação da neurociência com as outras áreas do conhecimento humano de uma maneira mais completa. Diferente do que se costuma fazer.

Eu conheço os maiores neurocientistas do mundo, encontro com eles, converso. E raramente, nesses encontros de neurociência, se discutem as grandes questões da humanidade. Geralmente se debatem os detalhes técnicos da área, as descobertas. O reducionismo que domina a ciência mundial transformou boa parte da pesquisa em um exercício de desenvolver tecnologia e responder perguntas muito pequenas. Acho que mais ou menos em 2014 comecei a ter esse insight que era preciso trazer a neurociência para o seu devido lugar e mostrar,  tanto para os neurocientistas, quanto para a sociedade, qual é realmente o papel central da mente humana, do que eu chamei de o universo humano. Que na realidade é como eu defendo no livro, a melhor interpretação que nós temos da informação potencial oferecida pelo cosmos né.

Como o [físico dinamarquês] Niels Bohr gostava de dizer, ou como [físico americano] John Wheeler gostava de dizer: o universo depende de nós para interpretá-lo. Então foi isso: senti que era fundamental que as pessoas entendessem que… E, veja bem o que aconteceu na pandemia:  certas abstrações mentais que a gente aceita como verdade absoluta, uma “realidade divina”, na realidade são meras criações da mente humana que dominaram milhões e milhões de mentes que passaram a ser conhecidas, ou usadas, interpretadas, como o centro do universo, quando elas não são. Elas são o subproduto da mente humana né? Se por alguma razão eu não escrever nenhum outro livro,  esse aqui é o meu legado científico

 

SAB — Você tem 37 anos de carreira como pesquisador de neurofisiologia, e no livro você está apresentando então a sua teoria sobre como o cérebro opera, que você chamou de teoria do cérebro “relativístico”, em linhas gerais, como você descreveria essa teoria?

MN — Em linhas gerais: o cérebro ativamente cria um modelo do mundo exterior, mas ele cria isso continuamente, um modelo sempre em fluxo.  Porque ele compara os sinais que recebe do mundo exterior, através de seu aparato sensorial, com um modelo que  já tem, e com tudo aquilo que ele esculpiu ao longo da vida do indivíduo, mas também com o que foi herdado como parte da história da espécie. E ele é relativístico basicamente porque ele faz essa contínua comparação, e continuamente atualiza esse modelo pelo fenômeno da plasticidade. E gera abstrações mentais cuja finalidade fundamental é evoluir, sobreviver às contingências do mundo exterior.

Nós não necessariamente evoluímos para explicar a realidade, ou para criar um modelo de realidade. Nós evoluímos para criar um sistema nervoso central que nos permita maximizar as nossas chances de sobreviver. Então nesse sentido, eu gosto de brincar:  o Einstein ousou jogar o observador no meio da física né? Mas o observador não tem cérebro no modelo do Einstein. E eu achei que era fundamental entrar no cérebro do observador e mostrar que até coisas que nós assumimos como realidades inquestionáveis como o tempo e o espaço, são criações da mente humana da dinâmica de fenômenos naturais.

O cérebro pinta o tempo. Ele cria uma expressão do tempo a partir de eventos que se alteram no mundo exterior. Essas sensações… Por exemplo, o Newton achava nós nem tínhamos que pensar nelas. O modelo newtoniano do universo basicamente assume essa essência do tempo e espaço como primordiais. Basicamente,   ao colocar o cérebro no centro da cosmologia humana, você basicamente começa a responder de onde vem coisas como o tempo e o espaço né? A lógica, as relações causais, são todas criações da mente humana. Nenhuma estrela comemora aniversário nem nenhum cometa calcular sua órbita, ele só faz a sua órbita.

Um outro ponto que é interessante da teoria é a relevância da matemática. A matemática também é uma invenção da mente humana. Isso surpreende muita gente quando eu converso, as pessoas ficam assustadas. Elas acham que a matemática é uma descoberta do mundo. Na realidade ela é uma invenção humana, e isso cientistas cognitivos já provaram várias vezes. Essa informação nunca foi disseminada, nunca chegou ao conhecimento do grande público, e a teoria relativística [do cérebro] cria esse conceito muito importante que é o ponto de vista do próprio cérebro. Eu tento mostrar, através dos experimentos que eu fiz ou outras pessoas fizeram,  que o cérebro sempre tem uma expectativa antes de algo acontecer. Se essa expectativa vai ser preenchida ou não é outros quinhentos, mas ele sempre vai ter essa expectativa.

SAB — E como esta teoria que trata do funcionamento do cérebro  pode explicar a formação das sociedades humanas e as interações entre os homens?

MN — Como parte da teoria relativística, eu criei esse conceito da brainet, que é a capacidade que os cérebros humanos têm de se sincronizarem. [Isso ocorre]  mediante um conceito, uma abstração, que é gerada ou por um indivíduo ou por um pequeno grupo de indivíduos. A expansão de certas regiões do córtex humano permitiu que nós avançássemos ainda mais, além dos nossos primos chimpanzés e dos  primatas em geral, na capacidade de sincronizar nossas mentes e formar o que eu chamo de um computador orgânico e distribuído, Que é a brainet.

Isso explica como conceitos como deuses, religião, sistemas políticos, sistemas econômicos ou mercados adquirem uma característica quase que divina mesmo. E como eles são capazes de sincronizar milhões e milhões de pessoas para se comportarem como um exército coeso, uma identidade capaz de mudar o destino da espécie, né? Em alguns capítulos, eu faço um resumo breve história da humanidade, baseado nas  abstrações mentais que em um dado momento da história, foram capazes de emergir e sincronizar mentes em números enormes. Um dos primeiros exemplos que gosto de usar é o que as abelhas do deserto tem a ver com as pirâmides do Egito. Na verdade o fenômeno é muito parecido. As pessoas não param para pensar mas, no momento que o faraó se torna um símbolos divinos… O deus Sol, ao invés de ficar lá em cima, passa a ser ele o Deus… Essa mensagem foi capaz de sincronizar milhões de egípcios a se renderem a esse faraó e executarem qualquer tipo de trabalho, em prol de um conceito que foi absolutamente criado na mente da elite egípcia. O faraó se transformou em Deus por um decreto.

No momento em que o faraó  saiu de seu papel humano e assume seu papel divino, ele teve a capacidade de fazer com que milhares e milhares de seres humanos não tivessem mais o conceito de individualidade. E foi daí que as pirâmides humanas vieram. Uma pirâmide nada mais é que uma projeção de uma abstração mental, posta em pedra, como um portal para outra vida, construída como um símbolo da divindade do faraó. Nesse sentido, o mecanismo neurofisiológico que permitiu que isso ocorresse é muito semelhante ao modo como as abelhas constroem suas colmeias: é um processo distribuído de sincronização de múltiplos sistemas nervosos, que deixam de atuar como indivíduos e passam a atuar como um todo.

Então esse é um fenômeno que a natureza selecionou através do processo de evolução porque ele é muito eficiente. Ele é resistente a danos. Então você pode perder um número grande de indivíduos que ele continua funcionando, e isso permite realmente executar coisas muito mais grandiosas e mais rapidamente  do que fariam  pequenos grupos ou um indivíduos atuando isoladamente.

 

SAB — Tradicionalmente, as neurociências são marcadas por um debate entre duas visões sobre como se dá o funcionamento cerebral. A perspectiva localizacionista  tem a ideia de que a atividade vai ocorrer em populações de neurônios situadas em áreas específicas do cérebro. E há a  visão distribuída, que fala na atividade de neurônios situados em diferentes áreas que estão interconectadas. O que permitiria bater o martelo em favor do modelo distribuído?

MN — Existem várias evidências.  [em outros textos] Eu já tinha listado uma série delas, quando me detive no que eu chamei de essa guerra de 200 anos na neurociência. Ela  começou com Thomas Young, no começo do século 19. Ele foi um físico que é famoso pela [descoberta da] propriedade ondulatória da luz, com o experimento das duas ranhuras. Mas na realidade ele foi o primeiro grande neurocientista, ao criar a teoria “tricromática”, da visão colorida. Sem nunca ter visto uma retina, ele simplesmente deduziu que, se você tivesse três tipos de receptores com curvas de sensibilidade amplas e houvesse  intersecção entre elas, você poderia codificar qualquer cor do espectro. Ele estava certo. Só  130 anos depois é que  estudaram a retina e descobriram os três tipos de cones, inclusive isso valeu um prêmio Nobel.

Na verdade o meu modelo distribuído não é o modelo clássico, proposto nos anos de 1950. Aquele  dizia que tudo era homogêneo no córtex. O que eu proponho é que existem graus de especialização. Por exemplo: coloque  uma venda em uma pessoa normal como eu e você, e deixe passar  10, 15 minutos. Depois pegue  um aparelho de ressonância magnética e peça a pessoa vendada para fazer  uma tarefa tátil com as pontas dos seus dedos. [Com esse experimento] vamos detectar respostas táteis no seu córtex visual já.  Isso sugere que existe uma conectividade entre o sistema sinestésico e o sistema visual.

Mesmo assim, se você tira o estímulo visual, essa conectividade permite quase que instantaneamente, na realidade hoje esse experimento já foi feito com menos de um minuto, e você consegue ver que o córtex visual tem potencial tátil. E  a mesma coisa acontece com o córtex tátil. Nós fizemos isso em nosso laboratório com macacos, outras pessoas fizeram com seres humanos. Você detecta no córtex tátil respostas visuais.

Por exemplo: quando nós criamos a interface cérebro-máquina eu estava interessado nessa pergunta. Nós pusemos eletrodos, em diferentes áreas corticais dos nossos macacos, para controlar um braço mecânico usando atividade cerebral. E  o que a gente notou foi que os sinais motores podiam ser obtidos fora do córtex motor, em outras áreas. Então, como o cérebro é extremamente interconectado, você basicamente tem todos os elementos para bater esse martelo. A gente encontra esse crosstalk de funções cerebrais por todo o lugar do córtex. E a resistência que ainda existe [contra essa ideia] é  porque o modelo clássico que deu o prêmio Nobel para algumas pessoas. Elas simplesmente não funcionam com essa ideia. Então evidentemente leva uma geração para que essas mudanças aconteçam. Os autores daquelas ideias já faleceram mas os alunos deles estão lá. Está todo mundo tentando defender o território do pai, e esse território caiu, as paredes foram destroçadas, as muralhas invadidas, mas a resistência, como as teorias do pensamento científico ele evoluiu, precisa de uma geração passar para que novas ideias tomem o lugar.

SAB — De que forma você acha que o intenso uso de tecnologia no nosso cotidiano afeta o nosso cérebro?

MN — Isso é um dos capítulos talvez mais importantes do mundo moderno, ou para descrever o mundo que virá depois da pandemia. A minha teoria é de que qualquer coisa que se imponha ao cérebro de uma maneira decisiva, como é hoje em dia a lógica digital, começa a influenciar o funcionamento do cérebro. Como o cérebro é plástico e como a função principal dele é se moldar às contingências do mundo exterior para aumentar nossas chances de sobrevivência,  esse nosso envolvimento cotidiano intenso com a lógica digital, está alterando os comportamentos humanos. Na verdade, no limite ele pode realmente eliminar todas as características próprias da mente humana que são analógicas:  empatia, solidariedade, intuição, senso de estética, todos esses atributos não computáveis — você nunca vai ter um algoritmo para intuição, você nunca vai ter um algoritmo para senso estético.

Eu falo no livro inclusive sobre uma conversa com um cientista computacional de inteligência artificial muito famoso, quando cheguei para ele e disse ‘então me programe [o conceito de ] beleza no seu algoritmo’ e ele falou ‘então me defina beleza’. Eu disse ‘então esse é o problema’. Eu não consigo definir beleza. Eu assumo sem problema algum a beleza da minha mãe, dos meus filhos, em alguma face ou rosto, ou pintura. Mas eu não consigo definir, é algo que vem da minha mente como produto da minha experiência de vida. E isso não é redutível a um algoritmo.

Ele falou: ‘se eu não posso reduzir isso a um algoritmo isso não existe, não me interessa’. Falei ‘você vai negar que você experimenta a sensação de beleza ao olhar para o rosto de sua mulher?’. Ele falou ‘não, eu sei que eu experimento, mas se eu não posso colocar isso em um algoritmo ele não existe no meu mundo, e no mundo da ciência”.

Então aí há  uma grande contradição. Porque  a ciência diz que  os “algoritmos podem explicar tudo’, mas não assume que não pode explicar tudo. Pelo menos não do jeito como que a gente fez ciência nos últimos 2000 anos. É uma clara contradição.

Ironicamente, ao expor nossos jovens e todos nós, um número explosivo de olhos a lógica digital, você começa a modificar como o cérebro percebe o que é fundamental, e o cérebro começa a atuar em sincronia com um tipo de contingência estatística que está influenciando a vida dele. A lógica digital passa a ser incorporada pela mente humana. E, inclusive vários autores falam sobre isso, eu acho que não é acidente:  jovens que cresceram inundados pela lógica digital passam a ter certos problemas como ansiedade, angústia, dificuldade de relacionamento social. Eu cito [no livro] vários autores que têm estudado isso e mostrado como essa influência está se transformando em algo concreto. Inclusive, faço um alerta por temer que, se isso continuar, a gente basicamente evolua para se transformar em uma espécie de zumbis biológicos digitais, nos quais  os grandes atributos analógicos da mente simplesmente não se manifestam mais, ou [esses atributos analógicos] sejam basicamente eliminados do cérebro.

Você e o ex-ministro Sérgio Rezende tem se dedicado a coordenar o Comitê Científico do Consórcio do Nordeste, quais têm sido as atividades do comitê?

Bom, nós somos um órgão consultivo, de assessoria aos nove governadores do nordeste que formaram esse consórcio há um ano atrás. No final de março eles entraram em contato conosco — com o Sérgio e Eu — perguntando se gostaríamos de coordenar esse grupo de representantes científicos indicados pelos governadores, somados a  outras pessoas que poderíamos convidar, para oferecer recomendações, sugestões e potenciais abordagens para o manejo da pandemia.

E como eu tinha passado  o mês de março inteiro reclamado publicamente da inexistência de um comitê nacional,  quando eu conversei com o Sérgio nós chegamos a conclusão que essa era a melhor opção disponível no momento para tentar criar uma tática e um diálogo entre a ciência e os gestores políticos no nordeste. Lá vivem  quase 60 milhões de pessoas, e começava a se registrar na costa, em Fortaleza, em Recife, em São Luiz, um crescimento explosivo da doença.

Nós aceitamos. Imediatamente criamos nove sub-comitês por área de interesse, entre eles uma sala de situação virtual, onde a gente começou a coletar dados do aplicativo digital que a gente acionou logo na primeira reunião, que tinha sido criado pelo governo da Bahia. Começamos a gerar análises e relatórios que chamamos de boletins, para fornecer algo aos governadores e a todos os gestores do Nordeste, e também ao público: quais são as melhores práticas propostas para o manejo da situação, e também qual é a evolução do quadro. Nós começamos a fazer diagnósticos.

Depois,  nós reunimos pessoas de todo o Brasil e criamos uma plataforma virtual chamado Projeto Mandacaru que hoje tem mais de 2000 colaboradores, entre cientistas, estatísticos, matemáticos, pessoal de ciências humanas… pessoal inclusive de arte gráfica e arte digital para fazermos gráficos, campanhas. Como fizemos inclusive do isolamento social no dia das mães, dia do dos namorados, enfim. E começamos a fazer reuniões e a trabalhar com esses sub-comitês e a trabalhar com os voluntários e periódicamente começamos a soltar esses boletins, que tem basicamente um caráter de recordação, sugestão. Nós não alteramos nada nem tomamos nenhum tipo de decisão. Quem faz isso são os prefeitos e governadores, mas eu acho que a gente oferece um hall  de sugestões e de opções que está par a par com qualquer comitê científico no mundo nesse momento.