Notícias

Será realmente possível desenvolver uma vacina segura e efetiva contra o coronavírus?

Ainda não sabemos. Mas custo, demora e expectativa de eficácia duradoura são alguns dos desafios envolvidos


Sempre que ocorre um surto de doença infecciosa, as vacinas vêm a nossa mente 
— e há bons motivos para isso. Vacinas  são seguras, relativamente caras e funcionaram bem contra doenças como varíola, poliomielite, febre-amarela e, mais recentemente, Ebola. 

Será que conseguiremos obter também uma vacina contra o novo coronavírus? A resposta é talvez sim, talvez não. O “talvez sim” vem da observação de que, em estudos com animais, a ação dos coronavírus estimula respostas imunológicas fortes, que parecem ser capazes de derrubar o vírus. Em grande parte, a recuperação à  COVID-19 pode se dever à resposta imunológica. O “talvez não” vem de evidências também muito boas, coletadas com vírus mais antigos de SARS e MERS, de que a imunidade natural contra essas  viroses teria vida curta. Na verdade, alguns animais podem ser reinfectados com o mesmo tipo que os infectou inicialmente. 

++LEIA MAIS

Pacientes com COVID-19 precisam ser testados também para bactérias e fungos, não apenas para o coronavírus

Pesquisadores enfrentam dificuldades para acompanhar número de mortes causadas pela COVID-19

Isso levanta questões mais cruciais com respostas igualmente ambíguas. Se uma vacina realmente se provar efetiva, seu efeito será duradouro? Neste momento, não podemos ter certeza. Para começar, quanto tempo levará para que seja desenvolvida? Nós podemos ter a esperança de que seu desenvolvimento será rápido, mas não há como ter certeza. 

Para entender melhor esse ponto, é importante entender como o corpo se defende de organismos invasores. 

 

COMO O CORPO SE DEFENDE CONTRA DOENÇAS

Certas barreiras físicas e químicas — pele, músculos, ácido estomacal — protegem o corpo de infecções  o tempo todo. A primeira linha de defesa é a imunidade inata, uma  resposta imediata e não específica a multidões de vírus estranhos e bactérias, ou patógenos, que encontramos a cada hora do dia. Isso inclui as defensinas, antigas proteínas anti-microorganismos que ativam caminhos celulares na luta contra patógenos, e macrófagos, os glóbulos brancos do sangue que expulsam e devoram todas as coisas estranhas. O principal objetivo de uma resposta imune inata é ser altamente efetiva. Nesse sentido geralmente funciona, mas nem sempre. 

A segunda linha de defesa é a imunidade adaptativa, onde o corpo desenvolve uma resposta duradoura específica para algo com que já se deparou anteriormente. Ela mobiliza dois segmentos do sistema imunológico: as células B, produtoras de anticorpos,  e as células T, que atacam e invadem microorganismos ou células que tenham sido afetadas por esses microorganismos. Em muitos casos a imunidade adquirida contra uma doença pode ter uma longa duração — às vezes persistindo pela vida inteira, em alguns casos alcançando dez anos ou mais. Outras vezes a resposta imunológica é de curta duração, o que aparenta ser o caso nos experimentos iniciais com o novo coronavírus. 

Nem todos conseguem aguentar o período de duas a oito semanas que leva para concluir a fase da resposta imunológica  —  e é aí que entram as vacinas. Vacinas previnem doenças simulando infecções, ensinando ao sistema imunológico a reconhecer, lembrar e combater um determinado patógeno antes que a infecção real ocorra. Ao invés de soltar organismos violentos no corpo, uma vacina constrói a imunidade usando antígenos, as moléculas inofensivas que habitam na superfície do patógeno. Os antígenos são “estranhos” o suficiente para levar à produção de anticorpos, mas não perigosos o suficiente para causar doenças. Graças à vacinação, aquilo que para o corpo viria através de um aprendizado em condições difíceis — no susto, com dor e a um alto custo — pode ser absorvido sob condições controladas com relativa facilidade. 

Tipos de vacina

Existem muitas maneiras de desenvolver uma vacina que detém doenças infecciosas com sucesso. A primeira a ser inventada, a vacina da varíola, usava um vírus vivo de vacina — um similar o suficiente ao agente original infeccioso, mas não o mesmo. Diferente de sua cara-metade causadora de doença, que matou cerca de 300 milhões de pessoas no seu ápice, o vírus da vacina causava sintomas leves da doença em pacientes saudáveis. Esse método pode ser replicado achando um vírus similar que acione a resposta imunológica desejada sem realmente infectar com a doença. 

Um tipo atenuado de vírus, usado para desenvolver a vacina contra febre amarela, é outra opção. Como o vírus ainda está vivo, mesmo debilitado, dá ao corpo uma duradoura lição sobre como neutralizá-lo. A resposta imunológica que resulta dura por décadas. O problema principal é de que nem todas as pessoas tem um sistema imunológico saudável o suficiente para aguentar o vírus vivo, não importa o quão debilitado esteja.  

Em vacinas inativadas como a vacina contra poliomielite, o vírus foi inativado e por isso não pode se replicar, o que significa que diversas doses devem ser administradas ao longo do tempo. 

Nas vacinas de subunidade, como as disponíveis para Hepatite B e o Vírus do Papiloma Humano (HPV), são injetadas partes particulares do vírus em músculos. Elas são geralmente administradas com adjuvantes, uma dose de reforço estrategicamente alimenta a composição da injeção com células imunes causando inflamação. Diferentemente de outros tipos de vacina, que podem causar complicações ou até mesmo morte em pessoas com imunodeficiências crônicas ou outras condições, quase todo mundo pode suportar a resposta imunológica ativada por uma vacina de subunidade

Para transportar  com segurança  os fragmentos  virais que constituem uma vacina de subunidade, os cientistas purificam compostos de proteína e os inserem em um vírus inofensivo, que está destinado a não sobreviver a uma perigosa jornada no corpo humano. Conhecido como vetores virais, essas ferramentas foram utilizadas para criar a vacina contra o Ebola. No caso do novo coronavírus, por exemplo, o vetor adenovírus seria uma escolha apta.  

Por muitos anos, as empresas  de biotecnologia tentaram sem sucesso produzir vacinas genéticas, que usassem o código genético em vez do próprio vírus ou de suas partes individuais. 

Um candidato proeminente a vacina contra COVID-19 é baseado em RNA, que o vírus se utiliza como código genético ((tudo bem?)); ainda não foi aprovado. Como estamos em uma área desconhecida, não sabemos qual tipo de vacina irá funcionar — e a melhor estratégia é tentarmos todas, exigindo um esforço massivo que felizmente já está encaminhado

POR QUÊ O DESENVOLVIMENTO DE VACINAS LEVA TANTO TEMPO

Por que Anthony Fauci, ex-diretor do Instituto Nacional de Alergias e Doenças Infecciosas dos EUA, disse que pode demorar  18 meses até que se produza  uma vacina segura e inteiramente funcional? A dificuldade é, por um lado, encontrar uma vacina que funcione contra uma doença muito particular e. por outro, que seja eficaz  para toda a humanidade na outra. É por isso que o desenvolvimento de vacina normalmente ocorre num rimo mais lento, em comparação  a outros produtos farmacêuticos — não por falta de esforço ou inovação, mas porque a segurança precisa ser posta a prova além de qualquer sombra de dúvida. 

Geralmente os medicamentos terapêuticos são prescritos para pessoas doentes conforme suas necessidades; já as vacinas geralmente administras em larguíssima escala a  pessoas saudáveis. No caso dos medicamentos, são necessários vários alguns dias para que os cientistas possam administrar tratamentos experimentais para pacientes hospitalizados com coronavírus, de forma a avaliar sua segurança e a eficácia; já nos testes em que são injetadas  vacinas em  sujeitos não afetados, o processo pode levar anos. Acrescente-se o desafio de produzir e distribuir esse produto no ambiente de um mercado global  volátil, além de   gastos de centenas de milhões de dólares, e voilá — verá porque muitos especialistas duvidam que teremos uma vacina tão cedo. 

Nós sabemos que algumas respostas de anticorpos podem realmente piorar uma doença. O caso mais recente envolveu  o vírus da dengue nas Filipinas, e existem certas prova de que problemas desse gênero acontecerão com o novo coronavírus. Se queremos uma vacina que seja  administrada para um amplo segmento  da população humana , cabe a nós proceder com o máximo de precaução. Ainda assim devemos agir o mais rápido que pudermos, com o máximo de recurso que pudermos. Mas agir com  cuidado — ou nos arriscamos a aumentar o contágio da pandemia. 

Na corrida para encontrar uma vacina eficaz, precisamos testar rigorosamente dezenas de candidatos. Isso vai demandar muito financiamento. Em média,  uma vacina em ensaio clínico pode custar o equivalente a  25 mil dólares ou mais por participante. E pode ser necessário envolver  dezenas de milhares de participantes no teste, para garantir que o candidato a vacina é efetivo e seguro. Isso significa que testar um único candidato a vacina  custaria mais de 250 milhões de dólares, só para recrutar participantes. Multiplique 250 milhões por 10 — o número mínimo de candidatos a vacinas, na minha visão, que precisam chegar a esse estágio — somando-se os custos de pesquisa e desenvolvimento de um processo de manufatura, e a soma total pode estar em algum lugar na casa dos 10 bilhões de dólares. 

Mesmo 10 bilhões de dólares seriam um preço pequeno a se pagar para desenvolver uma maneira de parar uma pandemia que está paralisando economias ao redor do mundo. Não importa quanto dinheiro seja preciso para desenvolver uma vacina viável, vai valer a pena. Não podemos é não gastar.

William A. Haseltine

Publicado em 07/04/2020