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No Dia mundial do Oceano, vamos refletir sobre seu simbolismo

O oceano inspirou grandes obras de artistas nacionais, como Dorival Caymmi e Jorge Amado. Porém, estima-se que 70 milhões de brasileiros nunca viram o mar.
Oceano

O Dia Mundial do Oceano é uma iniciativa da ONU que promove a conscientização sobre a importância dos oceanos e como protegê-los. Créditos: Dimitris Vetsikas, Pixabay

O Dia Mundial do Oceano, comemorado a cada 8 de junho, é uma iniciativa da Organização das Nações Unidas que teve origem em 2009. A data nos permite celebrar o oceano e nossa conexão com ele, bem como para aumentar a conscientização sobre o papel crucial que o oceano desempenha em nossas vidas e sobre as maneiras como as pessoas podem ajudar a protegê-lo. Essa intenção havia sido esboçada pela primeira vez na Rio 92 no Rio de Janeiro, mas demorou para ganhar consenso mundial.

Esse hiato de 17 anos teve consequências para a saúde do oceano. A degradação do oceano é como um câncer que rapidamente se alastra e que demanda imediata remediação. Demorar em tomar atitudes pode ser a diferença entre a vida e a morte. E quanto antes as medidas forem tomadas, inclusive na prevenção, melhor tende a ser o resultado. Essa morosidade em cuidar do oceano pode ser considerada como negligência da humanidade em relação a um
grande aliado de sua existência. Por outro lado, essa demora pode também ilustrar uma falta de clareza dos líderes mundiais sobre esse papel central do oceano na sustentabilidade do planeta.

Recentemente, o movimento em prol do oceano recebeu esforços. Além do dia do oceano, em 2017 a ONU propôs que a década entre 2021 e 2030 fosse dedicada à Ciência Oceânica para o Desenvolvimento Sustentável. A Década do Oceano busca amplificar o simbolismo que amparou a proposição do dia mundial do oceano. E é sobre o papel desse simbolismo que pretendo me aprofundar.

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Datas comemorativas marcam ciclos. Algumas são criadas em forte associação a ciclos naturais ou sazonais, como festas religiosas acopladas ao período das colheitas. Outras possuem um evidente componente cultural, como eventos históricos ou conquistas que são periodicamente festejados. Essas datas marcam episódios que são relembrados ou que permitem repactuar princípios que foram garantidos em tempos pretéritos. No caso do dia do oceano, há sim um componente histórico, que revela o avanço no entendimento de sua importância.

Entretanto, o simbolismo do Dia Mundial do Oceano está mais associado à necessidade de se destacar um tema que precisa de atenção da sociedade, a exemplo das campanhas de combate ao câncer de mamas ou próstata, materializadas pelo outubro rosa e o novembro azul, respectivamente. Mas, embora a temática do oceano tenha ganhado a agenda internacional, de fato, não creio que tenhamos algo a comemorar.

A qualidade do ambiente marinho continua sendo perdida ao longo do tempo. Como um grande sumidouro dos rejeitos gerados pelas atividades humanas, como o esgoto, o lixo e os poluentes industriais, a exemplo do petróleo e do mercúrio, o oceano também vem sofrendo com outros tipos de agressões. Extinções de espécies que sequer foram conhecidas pela ciência, invasão de espécies exóticas, destruição de ambientes, como manguezais e recifes de coral, pesca irregular, ilegal e não reportada e mudanças do clima correspondem a importantes ameaças que ilustram a ampla crise que assola o oceano.

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Essas alterações se desdobram em catástrofes para a humanidade. Ao perdermos a qualidade do ambiente marinho,
perdemos benefícios providos para as pessoas e inúmeras oportunidades de desenvolvimento de atividades socioeconômicas, como turismo, pesca e aquicultura. Estamos falando de cerca de 20% do Produto Interno Bruto do Brasil, valor que depende direta e indiretamente do oceano. Estamos falando de oportunidades para ampliar a oferta de alimento e a segurança alimentar para o planeta. Estamos falando de condições para gerar milhões de empregos e produzir a energia limpa e renovável que tanto precisamos para caminharmos na direção de uma economia de baixo carbono e combatermos os efeitos das mudanças climáticas.

Mas perdemos mais ainda. Perde-se o próprio simbolismo que o oceano tem para a humanidade. O simbolismo que inspirou e inspira a música e as artes plásticas, a literatura, a cultura popular e a mística do desbravamento de um ambiente ainda incógnito para nós. Sem o simbolismo do oceano não teríamos a suíte dos pescadores de Dorival Caymmi, os quadros de José Pancetti, os romances de Jorge Amado, os contos populares compilados por Câmara Cascudo e as aventuras de Júlio Verne.

Essa simbologia moveu inúmeras pessoas a conhecer o mar. Cito duas histórias que repercutiram amplamente e que
ilustraram a magia que o mar exerce sobre as pessoas. Em 1995, em relato do jornalista Roni Lima à Folha de São Paulo, a Sra. Maria do Carmo Jerônimo, mineira de 124 anos, conheceu o mar. Tendo sido escrava até os 17 anos, aguardou muito tempo até ter podido realizar esse desejo, uma segunda alforria, que só se igualava à sua vontade de conhecer o Papa.

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Em 2021, Pâmella Rocha, uma menina goiana de 9 anos, também conheceu o mar. Com um câncer em fase avançada e que levou à amputação de uma de suas pernas, Pâmella tinha um enorme desejo de estar próxima ao mar. E ela o fez. Junto com sua família e diversos apoiadores, o sonho virou realidade e ela veio a conhecer o que achava que era uma “grande represa”. “Foi maravilhoso ver os olhinhos dela brilhando”, registrou sua mãe, Vannina Rocha, em um terno desabafo à jornalista Vanessa Chaves, do G1.

A exemplo de Dona Maria do Carmo e de Pâmella, cerca de 70 milhões de brasileiros nunca tiveram a oportunidade de ver, sentir e se banhar no mar. De sentir a energia das ondas, o sal no corpo, a brisa na face e a areia salpicando na pele. De ver o sol nascer, “emergindo” de um horizonte oceânico.

E aí eu pergunto, o que fazer nesse dia? Podemos usar o Dia do Oceano para refletirmos, para nos questionarmos sobre o que de fato conhecemos sobre ele, sobre o entendimento que temos sobre a importância dele para nossas vidas, e sobre o papel de nossas atitudes cotidianas na saúde do oceano. Mas, mais que isso, usemos esse dia para reforçar o simbolismo do oceano. E o que o simbolismo de garantir sua saúde e seu uso sustentável podem ter para superarmos as mais desafiadoras adversidades e progredirmos enquanto humanidade. Falando em simbolismo… Considerando o planeta como um ser vivo, certamente o oceano seria sua alma. E sem alma… jamais seremos um planeta efetivamente vivo!

Alexander Turra é professor do Instituto Oceanográfico da Universidade de São Paulo e Titular da Cátedra Unesco
para a Sustentabilidade do Oceano.

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