Notícias

Desenvolvimento acelerado de vacinas na China deixa muitas perguntas sem resposta

País asiático já se comprometeu a fornecer vacinas para muitos países, entre eles o Brasil. Mas ainda não está claro se conseguirá cumprir promessas

Créditos: Karl Tapales Getty Images

Na corrida pelo desenvolvimento de  uma vacina contra o coronavírus, a China tem feito promessas ousadas. Uma autoridade chinesa da área de saúde da China anunciou publicamente que uma vacina efetiva contra o coronavírus estará disponível ao fim deste ano. O país também se comprometeu a compartilhar sua vacina com mais de uma dezena de nações, particularmente países de baixa renda com quem tem relações próximas. Mas, mesmo que a  vacina fique pronta em breve, alguns cientistas questionam se o país conseguirá produzir doses em quantidade suficiente para cumprir suas promessas internacionais, e se lidar com países individualmente seria a melhor forma de assegurar a distribuição igualitária de vacinas. 

Wu Guizhen, especialista-chefe em biossegurança no Centro para Controle e Prevenção, em Pequim, disse à mídia estatal chinesa no mês passado que duas vacinas desenvolvidas pelo grupo farmacêutico Sinopharm, de Shanghai, serão disponibilizadas  em novembro ou dezembro. As vacinas estão sendo testadas em vários países, incluindo Emirados Árabes Unidos, Bahrain, Peru e Argentina. 

++ LEIA MAIS 

Pessoas já infectadas por outro tipos de coronavírus apresentam sintoma mais brandos de COVID-19

Anticorpos persistem por meses em pessoas que apresentaram quadros graves de COVID-19

No dia 9 de outubro, a China também anunciou que se juntou à iniciativa Acesso Global para a Vacina para COVID-19 (COVAX). A COVAX é um empreendimento que reúne a OMS, a Coalização para Preparo e Inovação para Epidemias (CEPI) e a Aliança Gavi por  Vacinas. O objetivo é  fornecer 2 bilhões de doses da vacina para as pessoas mais vulneráveis e para empregados do sistema de saúde, especialmente em países pobres. Cerca de 80 países ricos se comprometeram a apoiar a COVAX, com a notável exceção  dos Estados Unidos. Não está claro ainda se a China irá fornecer dinheiro ou vacina, nem quantas. 

Os desenvolvedores de vacina chineses criaram quatro entre as doze  principais candidatas a vacina que estão em estágios finais de desenvolvimento pelo mundo. Nenhuma vacina completou ainda os testes de Fase III que são cruciais e necessários para estabelecer a segurança e a eficácia. Mas isso não impediu que centenas de milhares de pessoas, tanto na China como em outros lugares, fossem inoculadas  com alguma das quatro candidatas  chinesas, num procedimento conhecido como autorização para uso emergencial. Entre essas vacinas estão as desenvolvidas pela Sinopharm, além de uma desenvolvida pela produtora Sinovac, em Pequim, e outra pela CanSino Biologics, em Tianjin. 

Os cientistas dizem que o órgão regulador de medicamentos do país, que faz parte do Ministério da Saúde, precisa aguardar por dados de um ensaio robusto que mostre que as vacinas são seguras e efetivas antes de garantir a aprovação completa delas. 

Em um e-mail enviado a revista Nature, Wu disse que o Ministério da Saúde irá aguardar pelos resultados de grandes ensaios antes de aprovar para venda. “Até lá, ainda existem incertezas”, ela diz. 

Fora da China, há elevadas  expectativas  de que logo uma vacina chinesa estará disponível.  Os grandes ensaios da Sinopharm, na Argentina, que começaram no último mês, tiveram ampla cobertura da mídia, diz Eduardo Spitzer, diretor científico do Laboratorio Elea Phoenix, em Buenos Aires, que está organizando o ensaio. “Estamos trabalhando o mais rápido possível, mas sem perder a qualidade dos dados obtidos.” 

Demanda e oferta

O líder da China, Xi Jinping, declarou em maio à Organização Mundial da Saúde que suas vacinas seriam um “bem global público”, e a lista de países com os quais a China prometeu compartilhar sua vacina continua a crescer. Mas os cientistas questionam se os produtores terão doses suficientes para cumprir a promessa. 

 Nos últimos meses, autoridades do governo,  incluindo Xi e o premier Li Keqiang, afirmaram publicamente que irão disponibilizar a vacina chinesa para as Filipinas, Camboja, Burma, Tailândia, Vietnam e Laos, além de países africanos e latinoamericanos.

Os produtores de vacina chinesa também realizaram acordos com países onde as vacinas estão sendo testadas. A Sinovac, que possui uma vacina em fase III e diz que os resultados devem estar disponíveis no fim de novembro, possui um acordo para entregar 60 milhões de doses em São Paulo, Brasil, e se comprometeu com 40 milhões de doses para a Indonésia até março. Spitzer diz que os detalhes do acordo que a Sinopharm fez para fornecer vacinas para a Argentina são confidenciais. 

Zheng Zhongwei, chefe da força tarefa para a vacina contra a COVID-19 do governo chinês, disse no mês passado que a China terá a capacidade de produzir 600 milhões de doses até o fim do ano, e um bilhão no próximo ano. Mas, dado que o país possui uma população de 1,4 bilhões de pessoas e a maioria não foi vacinada, não haveria muitas doses disponíveis para exportação. 

Os números não fazem sentido, diz Klaus Stöhr, que liderou a unidade de resposta a epidemias na Organização Mundial da Saúde (OMS) durante 15 anos, e agora está aposentado. “O número de doses disponíveis na China será, de longe, insuficiente  para permitir exportações, a não ser que uma decisão política seja tomada para enviar doses apesar das necessidades na China”, ele diz. 

A China também poderia usar de acordos bilaterais  com países  para obter futura influência política ou econômica, diz Jerome Kim, diretor-geral do Instituto Internacional de Vacinas em Seul. “Isso seria lamentável”, diz ele.

Mas Kim elogiou a decisão da China de ingressar na COVAX. “Quando Xi disse que tornaria as vacinas um‘ bem público global ’, ele disse as palavras certas. Participar da COVAX transforma essas palavras em ação ”, diz ele.

Se a China quiser oferecer doses de vacina, será preciso aprová-las  pela OMS e pela CEPI. Atualmente, nenhuma das quatro candidatas chinesas estão na lista de vacinas apoiadas pela CEPI. E o país também terá que aumentar sua capacidade produtiva se quiser atender outras nações. “Muitas perguntas ainda não foram respondidas”, diz Kim.

Segurança primeiro

Antes que as vacinas chinesas sejam  distribuídas para mais pessoas, é preciso demonstrar sua segurança e efetividade, dizem Kieny e outros cientistas. 

Eles também criticaram a alegação, feita pela Sinopharm, de que  o uso generalizado das vacinas mostrou feito em condições emergenciais demonstraria que elas são seguras e efetivas. A empresa diz que não houve infecções entre as dezenas de milhares de pessoas que foram vacinadas antes de viajarem  para outros países afetados pelo coronavírus, mesmo que nenhum dado que demonstre  essa alegação tenha sido tornado público.  

“Eu pessoalmente não daria créditos aos resultados”, diz Marie-Paule Kieny, pesquisador de vacinas na INSERM, uma agência de pesquisa biomédica nacional da França, em Paris. 

É difícil tirar conclusões de tais observações porque existe um risco maior de viés, diz Paul Offit, pesquisador de vacinas no Hospital da Criança em Filadélfia na Pensilvânia. Os pacientes que foram vacinados podem imaginar que, se apresentarem algum sintoma semelhante a uma gripe, não poderia ser causado por uma infecção por SARS-CoV-2, e não reportariam às autoridades. “Eles podem pensar, ‘eu fui vacinado, então provavelmente é nada’”, diz Offit. 

A Sinopharm não respondeu ao pedido da Nature por comentários. 

Em resposta aos questionamentos da Nature se as vacinas poderiam ser aprovadas a luz de tais dados preliminares, Wu disse que os dados seriam uma “pequena parte” das evidências que os reguladores utilizam para avaliar as vacinas. “Também é necessário obter os dados válidos dos ensaios clínicos de fase III para avaliar completamente a segurança e a efetividade das vacinas”, ela diz. 

Wu disse que o programa de uso emergencial começou em pequena escala e se expandiu gradualmente desde Julho. As pessoas que foram vacinas estão sendo monitoradas com cuidado para reações adversas, e alertadas para continuarem a evitar a exposição ao vírus, ela disse. 

As informações publicamente disponíveis sobre os ensaios de vacinas foram limitados, diz Stöhr, que possui dúvidas sobre tais esforços. “É uma pena, afinal conheço muitos colegas na China que trabalham nos maiores padrões científicos e médicos”, ele diz. 

Esse artigo foi reproduzido com permissão

David Cyranoski

Nature Magazine

Publicado em 14/10/2020