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Fósseis revelam que parente do humano “andava como humano, mas escalava que nem macaco”

Fósseis de coluna vertebral recém-descobertos indicam que o "Australopithecus sediba" era adaptado tanto para andar ereto como para subir em árvores.
Australopithecus sediba, um parente humano.

Reconstrução de um Australopithecus sediba, um parente humano primitivo com adaptações transitórias. Modelo encomendado pelo Museu de História Natural da Universidade de Michigan (EUA). Crédito © Sculpture: Elisabeth Daynes/Photograph: S. Entressangle

Descoberta de fósseis de vértebras de um parente humano primitivo — Australopithecus sediba — permite a arqueólogos dar fim a um debate sobre a movimentação desse hominídeo. Pelo que indica a forma de sua coluna, a espécie andava ereta, mas ainda reteve a capacidade de escalar árvores de forma semelhante aos macacos de hoje

O estudo parte de uma equipe internacional de arqueólogos e foi publicado na revista de livre acesso eLife.

Datados de 2 milhões de anos atrás, esses fósseis praticamente completam a coluna vertebral inferior de um indivíduo já conhecido, a fêmea MH2, apelidada de “Issa” pelos pesquisadores. Em suaíli, o nome significa “protetora”. 

A descoberta foi feita em 2015 no sítio arqueológico de Malapa, próximo a Johannesburg (África do Sul), durante escavações para construção de uma trilha de mineração. Entretanto, os fósseis só foram revelados para o público agora. Essa região, chamada de “Berço da Humanidade”, é considerada um patrimônio mundial e já foi palco de diversas outras descobertas semelhantes — inclusive a descoberta desta espécie, em 2008.

Novos fósseis para coleção

O estado de preservação dos fósseis surpreendeu a equipe. Eles foram encontrados envoltos em brecha, uma rocha composta por fragmentos maiores aglutinados por uma “massa”, semelhante ao cimento. Para preservar sua integridade, os pesquisadores decidiram primeiro fazer uma tomografia do material, montando um modelo 3D com todas as características morfológicas intactas. 

Em seguida, as vértebras foram reunidas com outros fósseis encontrados no local e, surpreendentemente, eles se encaixaram perfeitamente com a coluna vertebral de Issa, um Australopithecus sediba inicialmente estudado em 2010. O encaixe tornou Issa um dos conjuntos mais completos e bem preservados de um parente humano primitivo já encontrado, especialmente ao considerar suas articulações.

“Séries associadas de vértebras lombares são extraordinariamente raras nos registros fósseis de hominídeos. Há somente três colunas inferiores comparáveis conhecidas em todo o registro africano primitivo,” explica Scott Williams, principal autor do estudo. Ele é professor da Universidade de Nova York (NYU, EUA) e da Universidade de Witwatersrand (Wits, África do Sul).

Novas vértebras de um parente humano.

Silhueta de Issa, com destaque às novas vértebras encontradas. Crédito © NYU & Universidade Wits

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“Ainda que Issa já fosse um dos esqueletos mais completos de hominídeo primitivo descobertos, essas vértebras praticamente completam a parte inferior de suas costas,” afirma Lee Berger, coautor do estudo e professor na Universidade de Wits. “[Isso] também torna sua região lombar uma concorrente para as completas já encontradas, e provavelmente uma das mais bem-preservadas,” afirma Berger. Foi ele quem descobriu esta espécie, junto com seu filho de nove anos, em 2008. 

Segundo os pesquisadores, outro detalhe que torna o fóssil ainda mais importante é que ele contém tanto as vértebras inferiores como a dentição, encaixando em um mesmo esqueleto. Pode parecer um detalhe trivial, mas a presença da dentição garante que as vértebras são de um Australopithecus sediba e não outro tipo de hominídeo. 

Teorias para Issa

Issa, por ser muito completa e excepcionalmente bem-preservada, é um objeto de estudo muito frutífero para entender a movimentação desta espécie de parente humano. Mas, antes de encontrar essas vértebras, antropólogos não tinham o espécime ideal para o trabalho.

Isso, por sua vez, levou muitos a concluírem em estudos sobre os Australopithecus sediba que a espécie não possuía “lordose” em sua morfologia. Lordose é a curvatura na parte inferior da coluna vertebral, presente apenas em espécies que andam eretas. Dessa forma, essa característica está presente em diversos ancestrais humanos, como o Homo erectus, e na nossa própria espécie, H. sapiens

Segundo essa teoria, a espécie de Issa teria a coluna reta. Consequentemente, sua movimentação no solo seria mais semelhante à de macacos, com as costas curvadas. Entretanto, as novas evidências mostram exatamente o contrário. A lordose desse parente humano é extremamente acentuada, ficando atrás somente de um fóssil de H. erectus encontrado no Kenya e de humanos modernos. Isso indica que eles estariam bem-adaptados ao andar bípede e ereto — mais semelhantes a humanos do que imaginado.

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Mesmo assim, isso não quer dizer que seja semelhante em outros aspectos. “A presença de lordose e outras características da coluna representam adaptações evidentes para andar em duas pernas,” afirma Gabrielle Russo, professora da Universidade de Stony Brook (EUA). “Mas há outros traços, como protuberâncias transversais orientadas para cima que indicam a presença de uma forte musculatura de torso, talvez para comportamentos em árvores.”

Parente humano escalando.

Issa tinha as adaptações necessárias para escalar e andar sobre dois pés. Crédito © NYU & Universidade Wits

Esse tipo de musculatura é comum em macacos e, segundo Shahed Nalla, professora da Universidade de Joanesburgo e na Wits, “quando combinada com outras partes da anatomia do torso, indica que sediba reteve adaptações para escalar.” Como afirma Berger, a espécie de Issa “andava como humano, mas podia escalar que nem macaco.”

De fato, estudos anteriores da pélvis e dos membros inferiores e superiores indicam a natureza de transição da espécie. “De que maneira essa combinação de características persistiu em nossos parentes primitivos — incluindo adaptações em potencial tanto para andar no chão em duas pernas como para subir em árvores efetivamente — é, talvez, uma das questões mais notáveis a respeito da origem humana,” afirma Cody Prang, professor da Universidade A&M do Texas (EUA). Segundo ele, estudar essas vértebras é essencial para entender essa importante etapa da evolução

Publicado em 25/11/2021.

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