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Crença em vida alienígena em planetas próximos era comum até os anos 1960

Ideia era tão disseminada que astrônomos chegaram a calcular possível população de Saturno e defender existência de vegetação na Lua. Até Carl Sagan achava que existiam indícios de que Marte poderia ser habitado.

Mapa dos supostos canais de Marte desenhado pelo astrônomo italiano Giovanni Schiaparelli em 1877.

Um dos aspectos mais intrigantes da história da nossa busca para descobrir se existem ou não outras formas de vida no Universo, e se alguma delas pode ser considerada inteligente da maneira que  nós somos, está no quanto nossa atitude filosófica para com esse tema variou ao longo dos séculos, tanto numa direção quanto na outra. Hoje estamos testemunhando uma certa  “era de ouro” no que diz respeito a iniciativas para obter respostas. Muito do trabalho em andamento decorre da combinação das revoluções  na exploração do sistema solar e na ciência de exoplanetas, e de nossas descobertas sobre a diversidade e tenacidade da vida aqui na Terra. Juntos, esses campos de estudo nos deram lugares para investigar, fenômenos para procurar e mais confiança de que estamos nos aproximando rapidamente do ponto em que nossa habilidade técnica nos permitirá encontrar  respostas sobre a existência de vida em outros lugares.

Entre estas iniciativas está o projeto Busca por Inteligência Extraterrestre (SETI, na sigla em inglês), pois nos tornamos mais acostumados ​​com a ideia de que indícios de intervenções tecnológicas e manipulação  da matéria são algo que se pode e deve investigar  ativamente.  Mas esse tipo de pesquisa, que é chamado tanto de  SETI quanto de busca por “tecnoassinaturas”, ainda enfrenta alguns desafios assustadores – entre eles a necessidade de sofre uma atualização tecnológica, após passar décadas recebendo financiamento insuficiente.

Mas o mais fascinante é que, sob muitos aspectos, já fizemos tudo isso antes. Apenas não foi algo recente, nem envolveu  o mesmo conjunto de ferramentas que agora temos à disposição.

Na Europa Ocidental, no período que transcorreu de cerca de quatrocentos anos atrás até o século 20, o debate sobre a  existência de vida fora da Terra parece ter sido menos uma questão de “será” e mais de “o quê”. Assim como outros famosos cientistas que se manifestaram a respeito,   Christiaan Huygens escreveu em seu Cosmotheoros: “Tantos sóis, tantas terras, e cada um deles cheio de plantas, árvores e animais … até mesmo os pequenos senhores ao redor de Júpiter e Saturno …” E esta perspectiva  de pluralidade cósmica não era incomum. Em quase todos os aspectos, era muito mais simples e razoável presumir que a riqueza da vida na Terra simplesmente se repetia em outros lugares. Isto é, uma vez que se deixava de considerar a Terra como algo especial.

Em outras palavras: durante vários períodos, não houve um questionamento tipo  ” será que estamos sozinhos?”. Em vez disso, o debate já entrava nos detalhes de como se dava a vida em outras partes do Cosmo.

Nos anos 1700 e 1800, tivemos astrônomos como William Herschel, ou o mais amador Thomas Dick, que não só propuseram  que nosso Sistema Solar foi invadido por formas de vida desde a Lua até os planetas externos (e Dick bateu o recorde ao sugerir  que os anéis de Saturno abrigavam cerca de 8 trilhões de pessoas), mas que estavam convencidos de que podam enxergar  evidências. Herschel, que dispunha de bons telescópios, convenceu-se de que havia florestas na Lua, no Mare humorum, e especulava que as manchas escuras visíveis no Sol fossem  na verdade buracos em uma atmosfera quente e brilhante, sob a qual uma superfície fria abrigava grandes seres alienígenas.

Embora possamos questionar alguns de seus padrões científicos, pessoas como Herschel e Dick estavam de fato seguindo a filosofia de que a vida estava em toda parte, elevando-a ao nível de qualquer outro fenômeno observável. Herschel também estava aplicando os melhores instrumentos científicos que existiam à época.

Durante o século 20, a possibilidade de que Marte fosse dotado de um clima mais clemente em sua superfície, e portanto mais capaz de abrigar vida, ainda carregava um peso significativo até que foram obtidos os dados do sobrevôo da sonda Mariner 4 em 1965. Embora tenha havido afirmações exageradas, tais como a da existência de  “canais” em Marte, feitas por  Percival Lowell  no final dos anos 1800 e bem no comecinho  dos anos 1900, os astrônomos da época discordaram amplamente dessas interpretações específicas. Curiosamente, isso aconteceu porque eles simplesmente não conseguiram reproduzir as observações, e descobriram que os vestígios que Powell associava a canais e civilizações praticamente não existiam  (um exemplo de como avanços nos dados melhores podem refutar teorias com grande apelo). Mas, para além das distrações de Lowell, não era fácil refutar a existência de alguma espécie de clima temperado em Marte, bem como de vida em sua superfície. Por exemplo, Carl Sagan e Paul Swan publicaram um artigo pouco antes da chegada da Mariner 4 a Marte, no qual escreveram:

“O atual corpo de evidências científicas sugere, mas não demonstra inequivocamente, a existência de vida em Marte. Em particular, as ondas de escurecimento que procedem das calotas polares em vaporização através das áreas escuras da superfície marciana, observadas por fotometria,  foram interpretadas em termos de atividade biológica sazonal. ”

Basta dizer que essa proposta seguiu o caminho de muitas outras ideias excessivamente otimistas sobre como encontrar vida no planeta vermelho. Na verdade, é  fascinante pensar como o fenômeno de escurecimento periódico que discutiram poderia de fato se encaixar num quadro de biosfera na superfície em Marte. Talvez esta seja uma lição bastante séria quanto aos exageros na interpretação baseada em dados limitados.

Mas o ponto principal é que, muitas vezes nó assumimos o ponto de vista de que existe vida alienígena, e o usamos  para  explicar certas observações cósmicas. O problema é que, à medida que os dados melhoram e o escrutínio se intensifica, a presença de vida não se revela – seja a partir da exploração dos planetas  ou da busca por inteligência extraterrestre. E por causa disso, passamos para o outro extremo, onde a questão sobre  “o quê” retornou ao estágio de “será”.

Claro, é provável que, ao longo dos séculos nós, tenhamos subestimado o desafio sistematicamente.  Ainda hoje é evidente que apenas arranhamos a superfície quanto à busca por emissões estruturadas de rádio, típicas de uma forma de vida tecnológica. Essa insuficiência foi lindamente quantificada e explicada por Jason Wright e colegas em 2018, que compararam com alguém que observa  uma banheira com água quente e tira conclusões sobre o conteúdo dos oceanos da Terra.

Nesse sentido, talvez a questão mais fundamental seja se, desta vez, possuímos ou não o equipamento tecnológico para solucionar o quebra-cabeça de uma vez por todas. Não há dúvida de que nossa capacidade para perceber os fenômenos mais etéreos e fugazes do Cosmo está em alta. Mas parece haver uma linha tênue entre reconhecer essa possibilidade emocionante e descambar para o mesmo tipo de arrogância que vitimou alguns de nossos precursores. Naturalmente, dizemos que vivemos no período mais especial  da existência humana, e que se apenas pudermos expandir nossas mentes e nossos esforços, então tudo poderá ser revelado!

Claro, nenhum de nós pode saber com certeza como as coisas se desenrolarão. Pode ser melhor sermos  muito explícitos quanto à incerteza inerente a tudo isso, porque é realmente muito emocionante ter que enfrentar o desconhecido, e o que simplesmente não pode ser conhecido. O que não devemos fazer é permitir que a natureza imprevisível deste pêndulo particular, que oscila entre as possibilidades, nos impeça de tentar.

Caleb A. Scharf

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