Notícias

Cientistas vão debater novas regras para criação de “bebês CRISPR”

Em agosto, uma comissão internacional se encontrará para desenvolver linhas menos ambíguas sobre a edição genética de embriões, após polêmico experimento chinês

Shutterstock

A segunda coisa mais chocante que He Jiankui disse na cúpula de edição genômica internacional em Hong Kong, em novembro de 2018 — logo após anunciar que duas irmãs gêmeas haviam nascido de embriões cujo DNA ele havia alterado com a técnica CRISPR — foi que ele havia seguido as diretrizes para edição de embriões estabelecidas por um painel de importantes cientistas e especialistas em bioética dos Estados Unidos.

Tal comitê, parte da Academia Nacional de Ciência, Engenharia e Medicina, basicamente disse em 2017: “se a sociedade acha que é OK, então prossiga com extremo cuidado”. He alegou que havia preenchido todos os itens propostos pelo painel, cumprindo uma longa lista de critérios que incluem editar apenas genes “comprovadamente” causadores de doenças, conduzir estudos preliminares “fidedignos” em animais, e ter “mecanismos de supervisão confiáveis”.

Se He realmente acredita nisso, ou se estava dizendo apenas para contornar a culpa de conduzir um experimento perigoso e antiético, ninguém sabe de fato. Mas, seu depoimento deixou praticamente todos horrorizados — principalmente os membros daquele comitê de 2017.

“Foi um choque”, conta o biólogo Richard Hynes, do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT) e vice-líder do comitê. Independentemente do que He disse, “ele quebrou todas as regras” que o painel estabeleceu sobre a edição de embriões. “Ele certamente não seguiu o espírito do relatório”, diz Sharon Terry, presidente do grupo sem fins lucrativos Genetic Alliance e membro do comitê de 2017.

Mesmo antes da dupla surpresa na fala de He, no entanto, já havia a preocupação de que o relatório de 2017 havia deixado, mesmo que involuntariamente, portas abertas para edições embriões pouco éticas. “Alguns de nós falamos sobre a necessidade de produzir diretrizes mais detalhadas”, diz o biólogo Robin Lovell-Badge, do Instituto Francis Crick, de Londres, membro do painel de 2017.

Mas eles não estabeleceram esses detalhes a tempo de parar He. Agora, no entanto, há uma segunda oportunidade para se discutir regras para a edição de genes em embriões.

Em agosto, a Comissão Internacional para o Uso Clínico da Edição de Genoma Germinativo Humano iniciará a reelaboração do documento, realizando sua primeira reunião pública para discutir o que os organizadores — as Academias Nacionais de Ciência dos EUA e a Royal Society do Reino Unido — esperam que será um documento sobre edição de embriões mais detalhado e menos ambíguo. Também chamada de edição germinal, a técnica altera o DNA de embriões, de forma que qualquer futura prole herde as mudanças.

“Não podemos deixar as coisas como estavam em 2017”, analisa Victor Dzau, presidente da Academia Nacional de Medicina. “Ainda há questões pendentes sobre o que deve e o que não deve ser feito. É preciso haver muito mais clareza sobre as circunstâncias em que a edição de embriões seria aceitável.”

Os autores do relatório de 2017 não pretendiam ser ambíguos. Mas o documento não dizia que a edição de embriões deve ficar para sempre fora do laboratório. Em vez disso, concluía que a edição da linhagem germinativa “pode ser permitida”, mas somente depois de “muito mais pesquisa” e “por razões convincentes e sob estrita supervisão”.

Desta vez, diz Dzau, “temos que ser mais claros”.

O relatório da Comissão Internacional, que deve ser divulgado no próximo verão, pode explicar exatamente quais experimentos com camundongos e outros animais seriam necessários antes de testar o CRISPR em um embrião humano, além da quantidade de informação necessária sobre o gene alvo e precisamente como analisar o DNA do embrião para ter certeza de que a edição aconteceu como planejado antes de iniciar uma gravidez, diz Lovell-Badge. Essas diretrizes também evitariam linguagem subjetiva que um cientista desonesto poderia usar para se esconder (como “supervisão confiável”, “doença grave” e “alternativas razoáveis”).

Por exemplo, uma alternativa para casais que querem poupar o filho de uma doença genética que ocorre em suas famílias é analisar os genomas de embriões criados por meio da fertilização in vitro e implantar apenas os saudáveis. As circunstâncias em que tal “diagnóstico genético pré-implantacional” pode alcançar esse objetivo, ou casos em que os casais têm chance zero de um embrião saudável, “não foram abordado com detalhes suficientes” pelo relatório de 2017, analisa Dzau.

Tampouco ficou claro sobre o que são as necessidade ou circunstâncias médicas “convincentes”. He Jiankui argumentou que proteger as duas crianças contra a infecção pelo HIV se enquadrava nessa categoria, justificando a sua decisão de editar o gene CCR5 de uma forma que impedisse que a maioria das cepas do vírus causador da AIDS infectassem as células. No entanto, existem outras maneiras de prevenir a infecção de HIV sem ter que editar os genes de pessoas, o que torna “convincente” um rótulo que depende do olhar de cada um.

Por mais simples que pareça, declarar a edição de embriões algo pouco conhecido, inseguro e, portanto, inaceitável não é uma opção, diz Dzau.  “A ciência se move tão rápido que posso imaginar que em algum momento será um procedimento fácil e seguro”, diz ele. De fato, os apelos por uma moratória no uso clínico da edição da linha germinativa humana, que se seguiu ao anúncio do nascimento de He, implicitamente reconhecem que um dia, talvez em breve, a segurança e outros argumentos contra a edição de embriões retrocederão. Bem antes disso, argumenta Dzau, “temos que determinar a partir de quando será seguro suficiente. O que, especificamente, alguém precisaria garantir para ter um sinal verde?”

Isso envolveria assuntos muito complicados, como sequenciamento de genoma e outras tecnologias a serem usadas ao avaliar se a CRISPR atingiu seu alvo, quantas células embrionárias foram editadas (He ficou bem longe dos 100%) e se as edições pretendidas poderiam causar efeitos colaterais. O gene CCR5 que He queria editar — e que não conseguiu, na maioria — tem implicações em muitas características além da suscetibilidade ao HIV, incluindo a vulnerabilidade à gripe e ao vírus do Nilo Ocidental e à redução da expectativa de vida.

O relatório de 2017 “foi focado em princípios”, conta Lovell-Badge. A nova comissão “deve ser focada em detalhes práticos”.

E não apenas detalhes técnicos. He insistiu que obteve o consentimento “adequado”, de acordo com as diretrizes de 2017, dos pais cujos embriões ele alterou. Na verdade, ele obteve o consentimento por si mesmo (um grande erro ético, já que as pessoas podem se sentir coagidas quando o cientista que lidera a pesquisa faz o pedido) e não explicou completamente os riscos e benefícios.

A nova comissão visa desenvolver uma “estrutura” que os governos nacionais e outros possam usar ao estabelecer regulamentos para edição de embriões ou proibi-los. Atualmente, a técnica é banida nos EUA, grande parte da Europa, Japão, Canadá e Austrália, embora as restrições de alguns países sejam ambíguas; muitos não abordaram a questão. As autoridades chinesas concluíram, após investigação, que a experiência de He violou suas leis, e ele foi demitido de sua posição na Universidade de Ciência e Tecnologia do Sul, em Shenzhen.

“Eu não acho que seja possível fazer um caminho para edição de embriões que seja impossível de driblar”, diz Hynes, do MIT. “Mas você pode tornar mais difícil.” Uma maneira de fazer isso seria endossar explicitamente uma moratória, algo que o comitê de 2017 “temia que colocasse isso fora de limites para sempre, já que as moratórias tendem a ficar presas e nunca vão para a frente”, diz Terry.

Enquanto isso acontece, um cientista russo recentemente declarou suas intenções de editar embriões usando a CRISPR. E He discutiu a possibilidade de oferecer o serviço de edição de embriões para casais com  um médico especializado em fertilização de Nova Iorque, segundo relatou a revista Science.

“Espero”, diz Lovell-Badge, “que possamos fazer algo antes que pessoas loucas fundem uma clínica [de edição de embriões] e tentem ganhar dinheiro com isso”.

 

Sharon Begley

Republicado com autorização de STAT

Utilizamos cookies essenciais para proporcionar uma melhor experiência. Ao continuar navegando, você concorda com a nossa Política de privacidade.

Política de privacidade