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China faz primeiro pouso histórico no misterioso lado distante da Lua

O evento marca um ponto de virada para a exploração espacial chinesa e pode revelar segredos profundos da história lunar

A humanidade acaba de colocar sua bandeira no lado distante da Lua. A missão chinesa Chang`e 4 tocou o chão da cratera Von Kármán, de 186 km, na madrugada desta quinta-feira (3 de janeiro), concretizando o primeiro pouso no misterioso lado distante da Lua.

 

A Chang`e 4 irá realizar uma variedade de trabalhos científicos ao longo dos próximos meses, ajudando os cientistas a entender melhor a estrutura, formação e evolução do satélite natural da Terra. Porém, o peso simbólico da missão é que terá o maior impacto sobre o público: a lista de locais inexplorados no Sistema Solar ficou um pouco mais curta.

 

A aterrissagem épica – que aconteceu às 0:26, horário de Brasília, de acordo com as autoridades espaciais chinesas – se sucede após duas grandes conquistas aeroespaciais da NASA. No dia 31 de dezembro, a nave OSIRIS-REx entrou na órbita do asteróide Bennu, e a sonda New Horizons capturou imagens do objeto Ultima Thule, pouco depois da meia-noite do dia 1 de janeiro.

“Parabéns a todo o time da Chang`e 4 pelo que parece ser um pouso bem sucedido no lado distante da Lua. Isso é algo inédito para a humanidade, e uma conquista impressionante!” afirmou, via Twitter, Jim Bridenstine, Administrador da NASA, após a notícia do feito começar a circular nas mídias sociais.

 

TERRA INCOGNITA

 

A Lua leva aproximadamente o mesmo tempo para completar uma volta em torno de seu próprio eixo e para orbitar Terra: 27,3 dias. Por causa dessa coincidência de movimentos, nós só conseguimos ver uma face da Lua, a qual chamamos de lado visível. Esse lado familiar recebeu muitos visitantes ao longo dos anos, tanto humanos quanto robôs; todas as seis missões tripuladas Apollo, da NASA, para a superfície lunar pousaram no lado visível. O lado distante é um alvo muito mais difícil para a exploração de superfície, porque o núcleo rochoso da Lua bloquearia a comunicação direta com qualquer módulo de pouso ou jipe robô que estivessem lá. (E não o chame de “o lado escuro”; o lado oculto recebe a mesma quantidade de luz solar que o lado visível).

 

Para lidar com essa questão, a China lançou um satélite de retransmissão chamado Queqiao em maio de 2018. O Queqiao se estabeleceu no ponto L2 do sistema Terra-Lua, um ponto gravitacionalmente estável além da Lua, do qual o satélite pode manter à vista tanto a Chang`e 4 quanto o seu planeta natal.

 

O fluxo de dados que passará pelo Queqiao provavelmente será extenso. A Chang`e 4, que foi lançada no dia 7 de dezembro e entrou na órbita lunar 4.5 dias depois, possui oito instrumentos científicos: quatro em um módulo de pouso e quatro em um jipe robô.

 

O módulo de pouso abrigará a Câmera de Pouso, a Câmera para Terreno, o Espectrômetro de Baixas Frequências e o Experimento de Dosimetria de Neutrôns, fornecido pela Alemanha. O jipe robô está equipado com uma Câmera Panorâmica, um Radar de Penetração Lunar, um Espectrômetro de Imagem Infravermelha Visível e Próxima e o Pequeno Analisador Avancado para Átomos Neutros de Alta Energia, desenvolvido pela Suécia.

 

A Chang`e 4 irá, portanto, ser capaz de caracterizar seu entorno com grande detalhe, sondando a composição da superfície bem como as camadas de estruturas abaixo do nível do solo. Tais observações podem ajudar pesquisadores a compreender melhor porque as faces da Lua são tão diferentes. Por exemplo, planícies vulcânicas escuras chamadas “maria” cobrem boa parte do lado visível, mas estão praticamente ausentes do lado distante. (Nós temos boas imagens do lado distante visto de cima graças à espaçonaves como a Lunar Reconnaissance Orbiter, da NASA.)

 

A missão deve trazer algumas novas e intrigantes imagens também; a Cratera Von Kármán localiza-se na Bacia do Polo Sul-Aitken (SPA), uma das maiores bacias de impacto no Sistema Solar. A bacia do SPA mede incríveis 2.500 km de borda a borda e tem cerca de 12 km de profundidade. Além disso, a Chang`e 4 realizará um experimento biológico, que irá acompanhar como os bichos-da-seda, os tomates e as plantas Arabidopsis crescem e se desenvolvem na superfície lunar. A missão também fará observações de radioastronomia, aproveitando a excepcional tranquilidade e calmaria do lado distante. (O Queqiao também está reunindo dados de astronomia, usando um instrumento próprio chamado Explorador de Baixa Frequência da China e Holanda.)

 

UM PROGRAMA LUNAR AMBICIOSO

 

A Chang`e 4 é somente o mais novo passo do programa robótico de exploração lunar da China, o qual foi nomeado em homenagem à deusa da Lua na mitologia chinesa. A nação lançou Chang`e 1 e Chang`e 2 em 2007 e 2010, respectivamente, e conseguiu um pouso próximo com a Chang`e 3 em dezembro de 2013. (A Chang`e 4 foi originalmente projetada como um backup para a Chang`e 3, então o hardware das duas missões é semelhante.)

 

A China também lançou uma cápsula de retorno em uma viagem de oito dias ao redor da Lua em outubro de 2014, uma missão conhecida como Chang`e 5T1. Esse foi um teste para o esforço de retorno de amostras da Chang`e 5, que poderia ser lançada já neste ano. O país também tem ambições para missões tripuladas, mas seu programa de voos espaciais humanos está focado na órbita terrestre, pelo menos no curto prazo. Até o início dos anos de 2020, os chineses planejam ter uma estação espacial funcionando ali.

Mike Wall
 
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