Joe Biden

Através de uma série de novas políticas, Biden pôs fim à guerra contra a ciência imposta pelo governo Trump . Créditos: Twitter Joe Biden

Horas após ter vencido a eleição presidencial de 2020, o então  presidente eleito Joe Biden fez seu discurso de vitória para uma multidão de apoiadores que usavam máscaras em Wilmington, Delaware. “Qual é a vontade do povo?”, perguntou. “É unificar as forças da ciência com as da esperança para vencer as maiores batalhas de nossa geração.”

Hoje, quando Biden completa  100 dias de governo, a União dos Cientistas Preocupados (UCP) reflete sobre os avanços de Biden em relação às “forças da ciência”. Essa não foi e não é uma tarefa fácil, principalmente devido aos ataques do governo anterior. Durante a gestão  Trump, a UCP documentou quase 200 casos de interferência política em decisões que deveriam ter como base a ciência – e à medida que novas investigações se tornam públicas, esse número deve crescer. Tais ataques têm consequências reais, nenhuma tão clara quanto as 565.000 vidas perdidas nos EUA pela pandemia da COVID-19, uma crise alimentada pelo abandono da ciência pelo governo Trump.

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Em 100 dias, o novo governo já obteve grandes avanços na reconstrução e fortalecimento da ciência. Mesmo antes da posse, o presidente  deu um passo sem precedentes. Ele concedeu a seu conselheiro sobre assuntos científicos um cargo no gabinete presidencial, atitude que defendemos  por mais de uma década – e um sinal de que ele pretende não apenas ouvir os cientistas, mas deixar que exerçam liderança. Em 27 de janeiro, Joe Biden emitiu um relatório sobre a integridade da ciência, deixando claro que seu governo não toleraria a manipulação política de evidências científicas. O documento também orientou as agências científicas a fortalecerem a tomada de decisões com base em evidências, e  também a indicarem especialistas para ocuparem cargos de liderança, para que possam  supervisionar e aplicar  políticas e práticas que garantam a  integridade científica.

Avanços no combate a COVID-19, mudanças climáticas e muito mais

Biden posicionou a ciência como elemento central na luta contra a COVID-19. Após sua vitória em novembro de 2020, ele organizou uma equipe de cientistas  para orientar sua estratégia de combate à pandemia  Sua administração  criou uma força-tarefa, cuja função é monitorar e lidar com problemas na distribuição de vacinas, número de infecções e taxas de mortalidade.  A meta inicialmente proposta pela gestão Biden era de aplicar 100 milhões de vacinas nesses primeiros três meses. Quando ela foi facilmente atingida, o governo propôs um novo objetivo:  200 milhões  de doses devem ser administradas em 100 dias. Este também foi cumprido.

Além disso, cientistas que estudam o clima  voltaram a ser bem-vindos à Casa Branca. No dia em que tomou posse, o presidente Biden se comprometeu a incluir os EUA novamente no Acordo de Paris, criou o cargo de conselheiro  nacional para o clima da Casa Branca, revogou a licença federal do oleoduto Keystone XL e elevou  o custo social do carbono. A Secretária do Interior, Deb Haaland, logo revogou políticas da era Trump que incentivavam a produção de combustíveis fósseis em terras e águas públicas, e Biden interrompeu o arrendamento de petróleo e gás em terras públicas. O governo ainda prometeu limitar a poluição causada por metano, reduzir as emissões de gases de efeito estufa do setor de transporte e exigir que as empresas públicas divulguem os riscos climáticos representados por elas.

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A gestão Biden também priorizou a justiça ambiental,  uma mudança extremamente necessária. Isso porque populações carentes tendem a sofrer o impacto dos danos causados ​​por políticas anticientíficas como as do governo Trump. O Plano de Emprego Americano direciona bilhões de dólares para comunidades e para atividades envolvendo justiça ambiental. A Casa Branca criou dois  grupos, integrados por  especialistas no tema, que aconselharão a administração sobre a melhor forma de proteger a saúde e a segurança das comunidades carentes, e criou um cargo de liderança em justiça ambiental no Conselho de Qualidade Ambiental.

Esses esforços para restaurar a ciência em âmbito federal são animadores. No entanto, ainda há muito a ser feito, e o governo Biden deve buscar aconselhamento de cientistas, funcionários públicos, órgãos de fiscalização do governo e de outras organizações para fortalecer a tomada de decisões com base  em evidências e incluir uma gama mais ampla de vozes no processo. A atual gestão deve aprender com o passado para proteger a ciência federal no futuro.

O que ainda está por vir

Muitos governos tropeçaram no caminho para garantir a integridade científica. Obama deu ouvidos à política em vez da ciência em alguns casos, e empurrou com a barriga o estabelecimento de importantes princípios em âmbito federal. A implementação destes princípios revelou-se ainda mais difícil sob Trump: diversas personalidades nomeadas para cargos de alto escalão foram frequentemente responsáveis por algumas das mais terríveis violações .

Dessa maneira, uma das novas forças-tarefa do governo Biden foi solicitar  a revisão das políticas de integridade científica. Ao elaborar recomendações, ela deve aprender com as lições dos governos Obama e Trump e buscar contribuições externas, de fora das agências científicas.

As agências também estão sendo orientadas a revisar seus comitês consultivos, que ganharam muitos membros não qualificados ou em conflito de interesses nos últimos quatro anos. A administração deve “redefinir” vários de seus comitês consultivos (ou seja, começar as nomeações do zero ), processo que já está em andamento. Mas redefinir comitês não significa retornar ao status quo habitual. Conforme determinado pela gestão Biden, as agências devem garantir que os comitês consultivos científicos sejam mais diversificados, com experiências, disciplinas, instituições e perspectivas bastante distintos.

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Outro objetivo da equipe de Biden é  trazer de volta  a ciência ao governo. Nos últimos quatro anos, milhares de cientistas detentores de um saber vital  deixaram importantes agências cujas atividades envolvem temas científicos.  Além disso, à medida que as agências se reconstroem, elas devem buscar especialistas de grupos historicamente sub-representados na ciência, vindos de universidades e faculdades que não pertençam ao grupo das instituições mais tradicionais. Uma revisão dos programas de estágio já está em andamento, com a promessa de contratação de jovens talentos.

Não queremos fazer uma lista definitiva de sucessos obtidos, ou de recomendações. O governo Biden já fez mais, e deve fazer ainda mais, para proteger os cientistas e seu papel na tomada de decisões. A comunidade científica não pode se colocar  à margem e presumir que o governo Biden, ou qualquer governo futuro, vai garantir a aplicação da ciência em nível federal. Os cientistas são os maiores defensores da ciência, como ficou demonstrado pelo  sucesso no combate às ações anticiência nos últimos quatro anos. Essa mobilização deve continuar.

Vimos o que acontece quando os cientistas presumem que podem ou devem ignorar a política – e vimos as coisas incríveis que são possíveis quando a comunidade científica se engaja na vida cívica. Não podemos presumir que os fatos falarão por si. Cientistas e não-cientistas,todos nós que nos preocupamos com boas políticas e resultados justos, temos a responsabilidade de garantir que as decisões de nosso governo sejam baseadas em evidências e que a ciência sirva ao bem público.

Jacob Carter, Taryn MacKinney, Genna Reed, Gretchen Goldman, Anita Desikan, Casey Kalman e Andrew Rosenberg

Publicado em 28/04/2021