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Até doentes assintomáticos sofreram dano cardíaco causado pela COVID-19

Cada vez mais estudos alertam para diversos tipos de efeitos danosos do novo coronavírus sobre o coração de pessoas infectadas, às vezes perdurando meses após a cura

O SarsCov-2. Foto de microscopia do NIAID

Além de dispor de embasamento  científico, a noção de que doente com COVID-19  pode vir a apresentar  cicatrizes no pulmão ou problemas respiratórios possui uma espécie de “aura” de verdade. Afinal, nós ouvimos as histórias que estão circulando, certo? Os  pacientes  muitas vezes contam como tiveram grandes dificuldades para respirar, e como chegaram a ter a impressão de que, tal como descreveu a  atriz Alyssa Milano, tinham “ um elefante sentado em seu peito”. 

Também já faz bastante tempo que ficamos sabendo que alguns pacientes de COVID-19 sofrem danos cardíacos. Mas, ao longo das últimas semanas, surgiram evidências de que até quem nunca apresentou sintomas da doença pode sofrer estes danos.  E essa descoberta aterrorizadora ajuda a explicar por que as escolas e as ligas esportivas profissionais estão agindo com muita cautela para decidir se retomam ou não suas atividades.  

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têm havido várias notícias abordando atletas que relatam problemas cardíacos após a doença.  Em mais de uma dezena de atletas ligados as universidade da conferência Power Five foram identificadas lesões no miocárdio que se seguiram à  infecção por coronavírus, diz  a ESPN. Duas das conferências — a Big Ten e a Pac-12 — já anunciaram que estão adiando todos os esportes competitivos até 2021. E na principal liga de  basebal, a MLB, o craque  do Boston Red Sox, Eduardo Rodriguez, contou aos  repórteres que se sentia com “100 anos de idade” como resultado de sua luta contra a COVID-19, e disse que sua participação na MLB seria encurtada  devido a uma miocardite —uma inflamação no músculo do coração, geralmente acionada por um vírus. Rodriguez disse: “Essa [o coração] é a parte mais importante do seu corpo, então quando alguém  escuta isso…. Eu tive um pouco de medo. Agora que eu sei o que é, ainda dá medo.” 

 Por que esses atletas (e suas ligas e conferências) estão tomando precauções tão extremas? É por conta do que está em jogo. Apesar de geralmente se resolver sem incidentes, a miocardite pode levar a complicações graves como arritmia cardíaca, falha cardíaca crônica e até morte súbita. Algumas semanas atrás, um ex-jogador de basquete do Estado da Flórida, Michael Ojo, morreu, supostamente por  complicações cardíacas logo após se recuperar da COVID-19 na Sérvia, onde estava jogando profissionalmente. 

Essa é o pano de fundo: a miocardite aparenta resultar da infecção direta do vírus atacando o coração, ou possivelmente como uma consequência da inflamação acionada pela resposta imunológica excessivamente agressiva. E não está relacionada a idade: Na revista The Lancet, médicos recentemente relataram o caso de uma criança de 11 anos com síndrome inflamatória multissistêmica (MIS-C) — uma doença rara — que morreu de miocardite e falha cardíaca. Na autópsia, os patologistas conseguiram identificar partículas de coronavírus presentes no tecido cardíaco da criança, ajudando a explicar o envolvimento direto do vírus em sua morte. Na realidade, os pesquisadores estão relatando a presença da proteína viral no músculo cardíaco de seis pacientes que faleceram. Note-se o fato de que esses pacientes foram documentados como tendo falecidos de falha pulmonar, não havendo sinais de que o coração estivesse envolvido, nem um histórico de condições cardíacas. 

Ossama Samuel, vice-chefe  de cardiologia no hospital Mount Sinai Beth Israel em Nova York, me contou sobre um grupo de jovens adultos que desenvolveram miocardite, alguns aproximadamente um mês após se recuperarem da COVID-19. Um paciente, que desenvolveu a miocardite quatro semanas após acreditar que havia se recuperado  do vírus, respondeu a um tratamento por esteróides mas desenvolveu uma recorrência na forma de uma pericardite (uma inflamação no tecido que cerca o coração). Outro paciente, com aproximadamente 40 anos, teve uma  redução das funções  cardíacas depois da  miocardite, e um terceiro — homem atlético com 40 anos — está experienciando  taquicardias ventriculares recorrentes e perigosas, e necessitando do uso de  um desfibrilador para proteção. Sua ressonância magnética também mostrou fibrose e danos em seu tecido cardíaco, que podem ser permanentes, e ele pode ter que receber um desfibrilador permanente. 

Esse é um diagnóstico muito perigoso. Pacientes com miocardite geralmente vivenciam sintomas como falta de ar, dor no peito, febre e fadiga — enquanto alguns não apresentam sintomas. J.N., um funcionário da área de saúde que pediu para permanecer em anônimo, me disse que os sintomas da COVID-19 primeiramente aparecerem em seu caso no fim de Março. Ele foi hospitalizado no Centro Médico Mount Sinais após desenvolver febres muito fortes chegando a 40 graus Celsius, dor no peito, náusea, vômito  e diarréia. 

“Mesmo o Advil e Paracetamol não ajudaram com as febres”, disse J.N.. Com apenas 34 anos de idade, ele foi diagnosticado com miocardite induzida por COVID-19 e falha cardíaca grave. Os médicos o levaram à  UTI  e o colocaram  em uma bomba de balão intra-aórtico devido à fraqueza  de seu coração. Ele passou duas semanas no hospital e sofreu recorrências desde sua alta. “Eu tomo muito cuidado. Estou muito preocupado com a quantidade de tempo que me sinto doente, e se esses sintomas vão durar para sempre ou irão embora de repente”. J.N. disse que atividades do cotidiano, como carregar sua filha de um ano de idade pelas escadas, deixam-no muito cansado. Ele está inapto a trabalhar desde março. 

De acordo com alguns relatos, até 7 % das mortes por COVID-19 podem resultar da miocardite. (Outros acreditam que tal estimativa é alta demais) A arritmia que de vez em quando é verificada também é preocupante, e pesquisadores descobriram ser comum entre pacientes com COVID-19. No caso de J.N., ele notou que seu coração acelerava em diversas ocasiões a quase  130 batidas por minuto. E mesmo que a prevalência desse vírus em pacientes ainda seja desconhecida, um estudo descobriu que a arritmia ventricular ocorreu em 78%  dos pacientes sem COVID-19, com até 30% deles vivenciando arritmias sérias 27 meses depois. 

Os especialistas estimam que metade dos casos de miocardite se resolvem sem uma complicação crônica, mas diversos estudos sugerem que pacientes com COVID-19 mostram sinais da patologia mesmo  meses após terem contraído  o vírus. Um estudo ainda não revisado, envolvendo 139 funcionários de saúde que desenvolveram a infecção por coronavírus e se recuperaram, descobriu que, cerca de 10 anos após os sintomas iniciais, 37% deles foram diagnosticados com miocardite ou miopericardite — e menos da metade deles apresentava sintomas na época de seus testes. 

Qualquer tipo de sequela cardíaca  é algo  preocupante, e estamos vendo mais evidências disso. Um estudo alemão descobriu que 78% dos pacientes recuperados de COVID-19, dos quais a maioria apresentava sintomas fracos ou moderados, apresentaram envolvimento cardíaco mais de dois meses após seu diagnóstico inicial.  Constatou-se que  seis de cada 10 pacientes apresentaram inflamação miocárdica persistente. Ao mesmo tempo em que enfatiza que pacientes individuais não precisam se preocupar, o pesquisador  principal Elike Nagel acrescentou em um e-mail que: “O que eu acho é que a COVID irá aumentar a incidência de falhas cardíacas ao longo das próximas décadas”.

Abordar a miocardite é central. Ainda bem que alguns casos agudos se resolvem por si sós, necessitando apenas de monitoramento hospitalar e possivelmente alguns medicamentos cardíacos. Nós aprendemos que esteróides e imunoglobulinas — úteis em outros casos — não são efetivos na miocardite  viral aguda, apesar de Samuel ter dito que pode haver algum uso  para os esteróides em pacientes mais jovens que parecem vivenciar mais o tipo autoimune da condição. E, claro, uma vacina efetiva poderia ajudar a prevenir os casos em primeiro lugar. 

Samuel disse ser “extremamente perigoso” que atletas diagnosticados com miocardite pratiquem esportes competitivos por pelo menos três a seis meses, devido ao sério risco de arritmia ou morte súbita, e diversos atletas já tomaram a decisão de seguir tais preocupações a risca. Nós provavelmente veremos tais decisões no futuro próximo, conforme cada esporte entra no pico de sua temporada. 

E para o resto de nós? Use uma máscara, pratique o isolamento social, evite aglomerações e passe mais tempo em ambientes abertos. Eu ressalto o aviso de J.N.: “tenha cuidado. Para começar, não pegue o vírus.” Hoje, essa é a melhor defesa que temos. 

Carolyn Barber

Publicado em 01/09/2020