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O astrofísico Avi Loeb diz que alienígenas já nos visitaram. E ele não está brincando.

Em entrevista, o professor da Universidade de Harvard explica sua hipótese chocante, defende a expansão da busca por vida alienígena e alerta para o que acredita ser uma crise na pesquisa científica

O astrofísico Avi Loeb. Crédito: Wikimedia Commons

Avi Loeb tem experiência em  controvérsias. O prolífico astrofísico da Universidade de Harvard é autor de pesquisas pioneiras e provocativas sobre buracos negros, explosões de raios gama, o início do Universo e outros tópicos essenciais de seu campo. Mas, por mais de uma década, ele também cortejou um assunto mais controverso: a existência de alienígenas, inclusive a melhor forma de encontrá-los. Até recentemente, o trabalho mais famoso de Loeb nesse sentido foi seu envolvimento com o Breakthrough Starshot, um projeto financiado pelo bilionário do Vale do Silício Yuri Milner. O objetivo é enviar ao espaço uma espaçonave que seria semelhante a um espelho, com a espessura de uma teia de aranha e impulsionada por um laser. Estas estruturas, chamadas  de “velas leves”, viajariam em alta velocidade até estrelas próximas.  Entretanto, tudo  começou a mudar no fim de 2017, quando astrônomos de todo o mundo resolveram estudar um enigmático visitante interestelar, que foi o primeiro que já observamos e que brevemente esteve ao alcance de nossos telescópios. 

Os descobridores do objeto o batizaram de ‘Oumuamua,  um termo havaiano que se traduz grosseiramente por “pioneiro”. As detalhadas análises desse passageiro celestial identificaram diversas propriedades que desafiaram explicações naturais mais simples. O formato  aparente do ‘Oumuamua, que lembrava  um charuto de 100 metros de comprimento,  não se assemelha, nem um pouco, a nenhum asteroide ou cometa conhecido. Nem sua luminosidade, pois o ‘Oumuamua possuía uma capacidade de refletir a luz pelo menos 10 vez maior do que  uma das rochas espaciais com maior reflectância no  sistema solar, brilhante o suficiente para sugerir a cintilância de um metal polido. Ainda mais estranho, à medida que ele se afastava após sua aproximação do Sol, o objeto apresentou uma aceleração  maior do que poderia ser explicado somente pela força gravitacional da estrela. Cometas podem exibir acelerações semelhantes devido ao efeito de impulsão dos gases que evaporam das suas superfícies geladas quando são aquecidas pela luz do Sol. Mas, nenhum sinal de  jatos semelhantes foi  observado ao redor do ‘Oumuamua. 

Para Loeb, a explicação mais plausível era óbvia e sensacional: a aceleração anômola da ‘Oumuamua, combinada com  seu formato  de charuto  e sua alta reflectância,  faz muito sentido se este objeto fosse na verdade  uma vela leve —  talvez o remanescente de alguma cultura galáctica há muito tempo defunta. Após ter passado anos ponderando sobre como poderemos, algum dia, encontrar evidências de civilizações cósmicas nas profundezas do espaço, Loeb ficou cada vez mais convencido que, no caso do ‘Oumuamua, foi a evidência que nos encontrou. No fim de 2018, Loeb e seu colaborador  Shmuel Bialy, bolsista de pós-doutorado de Harvard, publicaram uma pesquisa na revista Astrophysical Journal Letters, argumentando que ‘Oumuamua  foi nada menos do que o primeiro encontro  da humanidade com um artefato de inteligência extraterrestre. 

A pesquisa chamou a atenção dos jornalistas, mas não teve o mesmo impacto com a maioria dos companheiros de Loeb no campo da astrobiologia de Loeb, que insistem que, apesar de estranhas, as propriedades da ‘Oumuamua ainda o colocam dentro do reino dos fenômenos naturais. E afirmar outra coisa, dizem os críticos das ideias de Loeb, é na melhor das hipóteses uma atitude inábil, e na pior uma ação destrutiva. Pois prejudica a longa batalha para limpar os estigmas, trazidos pelos relatos de OVNIs e abduções por alienígenas, de algo que deveria ser, inquestionavelmente, um campo legítimo de pesquisa científica. 

Loeb compartilhou suas ideias  com o público através do livro Extraterrestre: O primeiro sinal de vida inteligente além da Terra, que fala tanto da história de vida do autor quando dos mistérios fundamentais de ‘Oumuamua. A Scientific American conversou com Loeb sobre o livro, sua hipótese controversa e as razões que o fazem acreditar que a ciência está em crise. 

Olá Avi, como você está? 

Estou bem, mas venho dormindo pouco ultimamente. Para atender a  todos os pedidos de mídia, estive dando entrevistas para, por exemplo, Good Morning Britan à 1h50  da madrugada manhã, e às 3 horas da manhã para o programa Coast to Coast AM, além de aparições em redes dos Estados Unidos e televisão à cabo. E vou dar  quase 100 entrevistas para  podcasts nas próximas semanas. E eu já gravei conversas longas com [os podcasters] Lex Fridman e Joe Rogan para seus programas. Eu nunca vi nada igual,  houve muito interesse pelo livro. Fui contatado por  10 diretores e produtores de Hollywood  ao longo das últimas semanas! Eu brinquei com minha editora que, caso saia um filme disso, eu quero que o Brad Pitt faça o meu papel. 

Ha, realmente, a semelhança é impressionante. Baseado em sua produtividade, eu nunca acreditei que você dormisse muito. 

Minha rotina é acordar cada manhã as 5 da manhã, e correr. É muito bonito quando não tem ninguém lá fora, somente eu e os pássaros, patos e coelhos. E sim, devido a pandemia, os últimos 10 meses foram os mais produtivos da minha carreira. Eu não preciso me locomover diariamente para trabalhar. Eu não preciso encontrar tantas pessoas. E, ainda mais importante, eu não preciso pensar sobre o que está errado com todas as coisas que as outras pessoas dizem! 

Falando de coisas importantes, essa é uma que acredito que nós dois concordamos: na ciências, devemos manter a honestidade. Eu digo isso somente porque existe um ponto no livro Extraterrestre onde você alega que não quer a publicidade e que você não está interessado na autopromoção. Como isso pode ser verdade? 

Deixe-me explicar. Eu acredito que falar com a mídia é uma oportunidade importante porque me permite compartilhar minha mensagem com uma audiência maior que, em outro caso, não seria exposta a isso. 

Qual a sua mensagem, exatamente? Eu entendo que você está falando mais do que somente sobre  ‘Oumuamua. 

Sim. Minha mensagem é que existe algo de errado com a comunidade científica hoje, em termos de sua saúde. 

Atualmente há muitos cientistas  motivados pelo ego, por obterem  honrarias e prêmios, e para mostrar o quanto são inteligentes aos seus colegas. Tratam a ciência como um monólogo sobre eles mesmos, ao invés de um diálogo com a natureza. Eles construíram câmaras de eco utilizando estudantes e pós-doutorandos que repetem seus “mantras” para que suas vozes sejam mais altas e sua imagem, promovida. Mas esse não é o propósito da ciência. A ciência não é sobre nós; não é sobre nos empoderarmos ou melhorarmos nossa imagem. É sobre tentar entender o mundo, e é para funcionar como uma experiência de aprendizado na qual nós tomamos riscos e cometemos  erros ao longo do caminho. Quando se está na fronteira, nunca se  pode dizer  de antemão qual o caminho certo a seguir. Isso só pode ser obtido a partir do feedback dos experimentos. 

E esse é  outro problema com a ciência hoje: as pessoas não só estão motivadas pelos motivos errados; elas também não são mais guiadas pelas evidências. As evidências mantém a humildade,  porque você prevê algo, testa e às vezes as evidências  mostram que você está errado. Agora, vê-se  muitos cientistas célebres  fazendo acrobacias matemáticas sobre muitas coisas que não podem ser testadas: teoria das cordas, multiverso, até mesmo a teoria da inflação cósmica. Uma vez, em um fórum público, eu indaguei a [o físico] Alan Guth, o autor da a teoria: “a inflação é falseável?”,  e ele disse ser uma pergunta boba, porque  qualquer que sejam os dados cosmológicos gerados por um experimento, é possível encontrar uma versão do modelo da inflação capaz de explicá-los. Portanto, a inflação fica numa posição muito forte porque pode explicar tudo! Mas eu vejo isso como uma posição muito fraca, porque uma teoria de tudo é, algumas vezes, uma teoria de nada. Pode não haver diferença entre as duas coisas. 

    Para mim, essa bolha de coisas imaginárias é como estar sob o efeito de drogas: Você pode ficar sob o efeito e imaginar que é mais rico que o Elon Musk, que é hoje a pessoa mais rica do mundo. Essa é uma ideia muito divertida. Você pode se sentir muito bem assim, e falar disso com seus amigos. E se você faz parte de uma comunidade grande que pensa parecido, todos podem apoiar e respeitar um ao outro, e você premia uns aos outros, e isso é ótimo, certo? Mas então se você quiser retirar seus fundo, se você realmente quer gastar esse dinheiro que você acredita ter, você percebe que na realidade não tem nada. Assim como ir a um caixa eletrônico, realizar experimentos funciona como um choque de realidade. E, na ciência, é essencial que tenhamos esse choque,que realizemos previsões que possam ser testadas, porque de outra forma não vamos aprender nada novo. Eu não acho que as pessoas tenham consciência disso mais.  

Então especular sobre a teoria das cordas e o multiverso é ruim, mas especular sobre as civilizações alienígenas e seus artefatos que passam pelo sistema solar é okay? É possível dizer que qualquer coisa pode ser explicada apelando-se para a ideia de  “alienígenas”. 

A diferença é que, no caso dessa última [especulação], é possível fazer previsões sobre ela e testá-las depois, e as especulações se originam  de uma posição conservadora. 

Se ‘Oumuamua é parte de uma população de objetos que se movem em trajetórias aleatórias, então, com base na descoberta com o telescópio Pan-STARRS, pode-se estimar que em breve começaremos a encontrar, em média, um desses objetos por mês após a estréia do Observatório Vera C. Rubin. Podemos também estabelecer um sistema de instrumentos — talvez satélites — que não apenas monitorem o céu, mas também sejam capazes de reagir à aproximação de tais objetos para que possam fotografá-los  quando chegam, ao invés de persegui-los enquanto vão embora, porque eles se movem muito rápido. Nem todo esse trabalho precisa ser feito no espaço: podemos imaginar que existam meteoros de origem interestelar também, e podemos procurar por eles. E se encontrarmos um que acabou na superfície da Terra, poderíamos até conseguir examiná-lo com nossas próprias mãos. 

As pessoas perguntam por quê eu recebo essa atenção da mídia. A única razão é porque meus colegas não estão usando o senso comum. Compare  a teoria das cordas e os multiversos com o que eu e muitos outros dizemos; com base nos dados da missão Kepler da Nasa, aproximadamente metade das estrelas similares ao Sol na galáxia possuem um planeta com o tamanho aproximado da Terra, com aproximadamente a mesma distância da Terra para o Sol, o que permite que haja água líquida na superfície e a química da vida, tal como a conhecemos. Então, se você rolar os dados da vida bilhões de vezes na Via Láctea, quais as chances de estarmos sozinhos? Minúsculas, provavelmente! Dizer que se alguém  arranjar circunstâncias similares obterá resultados similares é, para mim, a declaração mais conservadora imaginável. Então eu espero que a maioria das pessoas endosse isso, me apóie  e diga, “Ótimo Avi, você está certo. Nós devemos procurar por essas coisas porque elas devem ser muito prováveis”. Ao invés disso, o que eu vejo é uma retaliação que mostra a falta de uma parceria intelectual, Por que, de que outra forma se  pode explicar o trabalho sobre as dimensões extras da teoria das cordas ou do multiverso quando não temos pistas de sua existência? Mas isso é considerado popular? Isso é loucura. 

Me permita colocar isso em um contexto muito específico. Eu, obviamente não sou um rebelde de fora; Estou em posições de liderança. Faço parte do Conselho de Física e Astronomia das Academias Nacional [de Ciências, Engenharia e Medicina], okay? Esse conselho supervisiona o projeto Astronomy and Astrophysics Decadal Survey, que irá organizar as principais prioridades científicas para a Nasa e a Fundação Nacional de Ciência quando for publicada, no fim deste ano. Agora, eu vejo astrônomos falando sobre telescópios futuros que custam bilhões de dólares, com a principal motivação de encontrar a vida ao buscar por oxigênio na atmosfera de exoplanetas. Esse é um desejo nobre. Mas se você olhar para a Terra durante seus primeiros dois bilhões de anos aproximadamente, o planeta não possuía muito oxigênio em sua atmosfera, mesmo que houvesse muita vida microscópica. Esse é o primeiro ponto.

O segundo ponto é que, mesmo que haja oxigênio, ele pode surgir a partir de processos naturais, como a quebra de moléculas de água. Então mesmo que você gaste esses bilhões e encontre oxigênio e talvez, encontrar metano também, as pessoas ainda vão discutir sobre isso para sempre. Veja quanta discussão cerca sobre a potencial detecção de fosfina em Vênus, que é uma molécula muito incomum, em comparação ao oxigênio. De qualquer maneira, meu ponto é que com esses mesmos instrumentos —  não são necessários  novos investimentos ou fundos — pode-se na realidade obter evidências conclusivas sobre vida, inteligência e tecnologia. Como seria isso? Poluição industrial na mesma atmosfera. Seria possível, por exemplo, buscar por clorofluorcarbonetos, essas moléculas complexas que só são produzidas na Terra por sistemas de refrigeração. Se encontrarmos isso em outro planeta, não há  nenhuma outra maneira de  produzir essas moléculas naturalmente. Teríamos  evidências conclusivas de que existe vida, e mais coisas naquele local. 

Então qual o problema em dizer que buscar por poluição industrial é algo válido a se fazer? O que,  além de algum tipo de barreira psicológica que impede alguns cientistas de admitirem que eles querem que a busca por assinaturas tecnológicas de civilizações alienígenas fique à margem, com pouco financiamento? O que estou dizendo é que esse tipos de coisas devem ser priorizadas e que existem coisas que são conservadoras que podem ser feitas, porque elas nos trarão mais informações sobre a existência de vida alienígena. E mesmo assim, neste momento estamos fazendo o oposto. 

Você escreveu sobre um conceito que você chama de “Aposta de ‘Oumuamua”, em referência a aposta de Pascal, o matemático do século 10, Blaise Pascal, que argumentava que os benefícios de assumir que Deus existem superar os malefícios. Da mesma maneira, você diz que acreditar que ‘Oumuamua é um artefato alienígena seria algo bom porque catalizaria uma revolução na ciência espacial e a tecnologia centrada ao redor de uma busca mais vigorosa por vida e inteligência além da Terra. Mesmo que essa caça não encontre alienígenas, seguindo seu raciocínio, ainda teríamos um entendimento muito mais profundo de nosso contexto cósmico. E os investimentos por trás disso iriam aumentar nossa habilidade de responder outras questões sobre o universo e, talvez, até mesmo ajudar a impedir nossa própria extinção. 

Mas com todas essas chances tão altas, o que você diz em relação à crítica de que “apostar tudo” na promoção de ‘Oumuamua como algo de natureza artificial pode ser gratuito e perigoso? Seus críticos dizem que você gera mais danos do que benefícios. Por exemplo, você mencionou que apareceu no podcast do Joe Rogan, um dos mais populares do mundo. Isso é ótimo para vender livros. Mas dada a reputação de Rogan de espalhar desinformação perigosa em seus podcasts, essa é uma iniciativa inteligente?  Você também concordaria em dar palestras em uma reunião de pessoas que acreditam em OVNIs perto da Área 51? Quais devem ser os limites para o chamado “fator de piada” que  impediram o progresso na busca por inteligência extraterrestre durante décadas? 

Ok, segue meu ponto de visa. As pessoas financiam a ciência. E as pessoas estão extremamente interessadas na busca por vida alienígena. Então preciso perguntar: Se os cientistas são financiados pelas pessoas, como ousam fugir dessa questão, que pode ser respondida com as tecnologias que estão desenvolvendo? 

Existem, é claro, histórias de ficção científica sobre alienígenas, e existem muitos relatos sem fundamento  de OVNIs. Agora, imagine que houvesse uma literatura sobre as propriedades mágicas da COVID-19 que não se mostre verdadeira. Isso significaria que os cientistas não devam trabalhar para procurar por uma vacina para essa pandemia? Não! Eu não vejo a busca por assinaturas tecnológicas como algo diferente da busca pela natureza da matéria escura. Nós investimos centenas de milhões de dólares na busca por partículas massivas que interagem mais fracamente, um dos principais candidatos a matéria escura. E, até o momento, essas buscas falharam. Isso não significa que foram um desperdício: faz parte do processo científico. 

E, em termos de risco, na ciência, nós devemos apostar tudo. Não podemos simplesmente evitar certas ideias porque nos preocupamos com as consequências de discuti-las, porque existe um risco grande nisso também. Isso seria similar a dizer a Galileu para não falar sobre a Terra se mover ao redor do Sol e evitar olhar em seu telescópio porque era muito perigoso para a filosofia da época. Nós não devemos querer repetir aquela experiência. Precisamos abrir um diálogo entre cientistas onde as pessoas apresentem diferentes ideias, e então permitir que as evidências ditem quais estão certas. No contexto de ‘Oumuamua, eu digo que as evidências disponíveis sugerem que esse objeto em particular é artificial, e a maneira de testar isso é encontrar mais exemplares  e examiná-los. Simples assim. 

Então como você muda essa situação? Eu acredito que a resposta é trazer isso a público, tanto quanto se possa. 

No seu livro, você liga sua posição sobre o ‘Oumuamua com uma frase, uma citação, que você aprendeu enquanto era recruta nas Forças de Defesas de Israel: “Deitar o seu corpo no arame farpado”. Isso é, realizar sacrifício pessoais para o bem maior.  Você será um mártir por essa causa então? Você perdeu amigos ou títulos por essa causa?

Ninguém me atacou com violência ou algo do tipo. Talvez as pessoas falem de mim pelas costas, o que faria mais sentido dada a minha posição de liderança. Mas eu realmente não sei. Eu não tenho expressão  em redes sociais. Entretanto, devo dizer que eu acredito que os meus críticos mais vocais, com comentários desagradáveis no Twitter e em outros lugares, são cientistas relativamente medíocres. A maioria dos cientistas realmente bons não se comportaria dessa maneira; eles argumentaram a favor ou contra minhas alegações, e isso seria o suficiente. Comentários desagradáveis não fazem sentido,  a menos que, lá no fundo… bem, eu não me surpreenderia se muitos desses críticos na realidade estiverem muito intrigados com essa possibilidade de que ‘Oumuamua seja artificial. Mas eles não querem admitir. Então bradam alto o oposto. 

Infelizmente, a minha situação é diferente da de meus jovens pós-doutorandos com quem eu trabalhei, porque eles precisam se candidatar para empregos. Estou certo de que as pessoas os abordaram e disseram, “Olha isso é perigoso para você”. E então eles congelam e basicamente param de trabalhar com qualquer coisa relacionada. Isso não  surpreende. Se você cria uma cultura intelectual hostil, na qual algo como o SETI não é valorizado, então pessoas jovens e brilhantes não vão para lá. Mas não pise na grama e depois reclame que ela não cresce.  Não impeça que pesquisadores brilhantes  trabalhem no SETI e depois digam, “Olha, nada foi encontrado. O SETI é um erro!”. 

Nada disso significa que toda a ciência espacial deva ser relacionada ao SETI. Se você olhar para o mundo comercial, empresas como a Bell Labs no passado ou a Google agora, elas incentivam e permitem que seus funcionários desenvolvam pesquisas inovadoras que não podem ser aproveitadas para lucrar imediatamente. Mas se você olhar para a academia, ela é muito mais conservadora que o setor comercial. Isso não faz sentido. 

Como você responde a ideia de que para uma pessoa com um martelo, tudo se parece com um prego? Alguém poderia cruelmente que o que você realmente está tentando fazer aqui é tentar advogar a favor de bem-feitores ricos, como Yuri Milner, porque você é um conselheiro do  seu  programas Breakthrough Initiatives, que financiam pesquisas relacionadas ao SETI e às velas leves. 

É verdade para mim — e para todos, eu acredito —  que minha imaginação é limitada pelo que eu conheço. Não posso negar o fato de que meu envolvimento no Breakthrough tem influência aqui. Fui eu quem primeiro apontou  as velas leves [propostas pelo físico Philip Lubin] para Yuri Milner como um conceito promissor para espaçonaves interestelares. Então, eu tinha isso no meu vocabulário, e por isso imaginei  que poderia se aplicar ao ‘Oumuamua. Agora, você pode perguntar: ok, então essa não é uma ideia parcial?. Eu diria que isso acontece frequentemente, na física e no SETI. No contexto do SETI, você sabe, uma vez que desenvolvemos tecnologia a rádio, começamos a buscar no céu por sinais de rádio. Foi o mesmo com os  lasers. É simplesmente natural, depois que se  trabalha com alguma tecnologia, imaginar que talvez ela exista lá fora e buscar por ela. Não nego que o motivo para que as velas leves estejam  na minha cabeça se deva a trabalhos anteriores. Mas em termos de tentar motivar Yuri, que não tem nada a ver. Por que eu faria isso se posso só abordá-lo diretamente, sempre que quiser defender minhas ideias? E não é como se meu trabalho com o ‘Oumuamua tivesse sido coordenado com, ou apoiado pela, Breakthrough Initiatives. Eles não emitiram nenhum comunicado à imprensa sobre minhas ideias. No máximo, eles podem ter ficado preocupados, pois  possuem suas próprias reputações para proteger. Nessa questão, eu tive zero apoio deles ou sequer me comuniquei com eles. Essa foi a minha curiosidade, não utilizar o ‘Oumuamua como um tipo de veículo político no contexto da Breakthrough. Isso não tem nada a ver com a minha motivação. 

   Após isso, quais os próximos passos para você? Você tem planos? 

Eu acabei de deixar meu cargo no departamento de astronomia em Harvard, então eu realmente tenho a possibilidade agora de seguir para a próxima fase. E a pergunta é: o que seria? A vida, claro, não é sempre o que você planejou, mas outra oportunidade de liderança seria muito tentadora porque eu poderia tentar moldar a realidade em uma maneira que outros não poderiam. Eu não poderia recusar isso. Mas talvez nós devamos excluir a possibilidade de liderança. Talvez não me ofereçam nada novamente devido as minhas ideias sobre ‘Oumuamua! Essa é uma possibilidade. Então eu escreveria mais livros, faria mais pesquisa e continuaria a correr todas as manhãs. 

Lee Billings

Publicado em 02/02/2021

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