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Além de muito eficaz, vacina da Moderna contra COVID-19 poderia ser mais fácil de distribuir

Dados preliminares mostram que produto imunizante pode ser armazenado em refrigeradores comuns, além de conferir proteção a 94% de indivíduos testados

Créditos: Karl Tapales Getty Images

Dizem que boas notícias chegam em grupos de três. Pela terceira vez em uma semana, um desenvolvedor de vacina para o coronavírus relatou resultados preliminares que sugerem  que suas vacinas são altamente efetivas. 

Na segunda a empresa de biotecnologia Moderna em Cambridge, Massachusetts, relatou que sua vacina baseada em RNA apresentou eficácia superior a  94%  na prevenção à COVID-19, baseando-se em uma análise de 95 casos de seu ensaio de fase 3, que está em andamento. 

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Mas os cientistas dizem que os resultados que foram anunciado à imprensa são mais detalhados  do que os anúncios também positivos feitos  semana passada pelas empresas  Pfizer e BioNtech  (que estão juntos trabalhando em uma vacina RNA rival) e pelos desenvolvedores russos responsáveis pela controversa vacina Sputnik V. A Moderna publicou imagens que sugerem que sua vacina provavelmente consegue prevenir infecções graves de COVID-19, algo que não estava claro nos anúncios das outras empresas. 

“Nós precisamos ver os dados revisados, mas de qualquer maneira, parecem ser  boas notícias”, disse Daniel Altmann, imunologista no Imperial College London. 

“Os resultados desse ensaios são realmente surpreendentes”, disse Anthony Fauci, diretor do Instituto Nacional de Alergia e Doenças Infecciosas dos Estados Unidos em Bethesda, instituição que colabora no desenvolvimento da vacina. Fauci diz que disse a repórteres meses atrás que iria estar satisfeito com uma vacina que fosse 70% a 75% efetiva, e que uma que chegasse a  95% seria especial. “Bem, nossas aspirações foram cumpridas e essas são notícias muito boas”, ele acrescenta. 

Instruções genéticas

A Moderna foi uma das primeiras desenvolvedoras a anunciar que está trabalhando em uma vacina contra a COVID-19 e a começar os testes em ensaios clínicos em humanos. Sua vacina é composta de instruções de RNA para que as células produzem uma forma modificada da proteína spike do coronavírus, o principal alvo do sistema imunológico contra o coronavírus. Eles começaram um ensaio de fase III que envolveu aproximadamente 30 mil pessoas no dia 27 de julho. 

O ensaio continua. Mas uma análise conduzida no dia 15 de novembro por um comitê independente para segurança dos dados descobriu que 95 participantes no ensaios desenvolveram COVID-19. Destes, 90 estavam no grupo que receberam uma injeção de placebo e 5 receberam a vacina, o que equivale a uma eficácia de 94,5%. Pfizer e BioNtech relataram uma eficácia maior que 90% na base de 94 casos, enquanto a eficácia de 92% da Sputnik V foi medida com somente 20 casos registrados de COVID-19. 

A eficácia final da vacina da Moderna pode cair quando o ensaio estiver completo — provavelmente não muito, diz Stephen Evans, epidemiologista estatístico na Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres . Os dados atuais sugerem que a eficácia pode ser de, no mínimo cerca de 86%, devido à incerteza estatística, ele diz. “O que isso diz para mim é que as vacinas da Pfizer e da Moderna possuem uma eficácia mais notável do que os cientistas esperavam.” 

A Moderna também apresentou algumas evidências de que sua vacina protege contra casos graves de COVID-19 — algo que Pfizer/BioNtech e a Sputnik não fizeram. A análise da Moderna encontrou um total de 11 casos graves no grupo placebo do ensaio, e nenhum  no grupo  vacinado, de acordo com o comunicado a imprensa. Esse é um bom sinal, diz Evans, mas não muito surpreendente dada a alta efetividade da vacina. “Se uma vacina começar a ter esse tipo de eficácia, então não tem muito espaço para casos graves”m ele diz. 

Em suas diretrizes para uma aprovação de emergência das vacinas para COVID, a Administração de Alimentos e Medicamentos dos Estados Unidos disse que os ensaios de eficácia devem incluir pelo menos 5 casos graves no grupo placebo para ter aprovação. 

Questões em aberto

Assim como outras vacinas, algumas incertezas permanecem. Não está clara a duração dos efeitos protetores da vacina; se pode impedir que as pessoas transmitam o vírus; ou se a vacina funciona tão bem em grupos de risco, como adultos mais velhos. A empresa relatou que, dos 95 casos, 15 ocorreram em pessoas com mais de 65 anos, mas não indicava em qual braço do ensaios estavam esses participantes. 

Uma questão essencial será quantas das cinco infecções entre os indivíduos vacinados ocorreram em pessoas com mais de 65 anos, diz Evans, o que poderia indicar se a vacina é menos efetiva em tal grupo, comparado com outros. Ele acredita que isso é improvável, baseado nos dados que mostram que participantes mais velhos geraram uma resposta imunológica mais forte a vacina. No comunicado a imprensa, Moderna disse que “Análises preliminares sugerem uma segurança ampla e consistente e um perfil de eficácia entre todos os subgrupos avaliados”. 

Os pesquisadores também ficaram impressionados pelo anúncio da Moderna de que sua vacina permanece estável em refrigeradores convencionais durante um mês e em um freezer comum por seis meses; a vacina da Pfizer deve ser guardada em -70ºC antes da entrega, o que poderia constituir um obstáculo para distribui-la em lugares  do mundo que não possuem tal infraestrutura. 

 

Ewen Callaway

Nature magazine

Publicado em 18/11/2020

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