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Segunda geração de vacinas para a COVID aposta em novas tecnologias

Dentre os 240 novos imunizantes pesquisados, alguns seriam capazes de gerar até dez vezes mais anticorpos. Outros permitem armazenamento em temperaturas mais brandas, facilitando distribuição em países quentes.

Crédito: Envato Elements

Seis meses atrás, enquanto o hemisfério Norte ainda batalhava contra a primeira onda de coronavírus, todos os olhos se voltaram para as vacinas de COVID-19 que estavam no fim da etapa dos ensaios clínicos. Agora, um anos após a primeira erupção da pandemia, três vacinas para a COVID receberam autorização emergencial nos Estados Unidos, no Reino Unido e em outros países. Duas das vacinas, desenvolvidas pela Pfizer e BioNTech e pela Moderna,  empregam uma nova tecnologia genética conhecida como mRNA. E a terceira é uma vacina mais convencional desenvolvida pela Universidade de Oxford e pela AstraZeneca que utiliza um vírus de chimpanzé para entregar DNA a um componente do SARS-CoV-2, o vírus que causa a COVID. (Russia, China e India desenvolveram suas próprias vacinas, mas seu uso ainda não foi amplamente autorizado, à exceção de  alguns países.) 

Mas, por mais impressionante que elas sejam,  essas vacinas sozinhas não bastarão  para dar cabo da pandemia, segundo especialistas. Por sorte, existem centenas de outras vacinas para COVID em desenvolvimento, incluindo muitas que empregam novos mecanismos de ação, que podem eventualmente se mostrar efetivas, mais baratas e de distribuição mais fácil.  

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“Eu penso  que esse vírus irá mudar [devido às mutações], e que as vacinas hoje aprovadas não serão tão efetivas quanto acreditamos”, diz Danny Altmann, imunologista no Imperial College London. O SARS-CoV-2 já evoluiu para diversas novas variantes, incluindo as identificadas no Reino Unido e na África do Sul, que são mais transmissíveis (embora não tenham se mostrado mais letais até agora).  

Gregory Poland, especialista em vacinas na Clínica Mayo, concorda que é muito cedo para pensar que vencemos o vírus. Ele pontua que nunca se fez um programa público de vacinação usando vacinas para o coronavírus. E vacinas que usam a tecnologia de mRNA, como no caso das vacinas da Pfizer e da Moderna (que alguns dizem que será o futuro da vacinologia)  nunca foram oferecidas comercialmente até agora. “Não sabemos o que pode acontecer. Não temos ideia das surpresas que podemos encontrar em um vírus que conhecemos só há um ano”, diz Poland, que foi coautor de uma revisão extensa, publicada na revista Lancet em outubro do ano passado, sobre as candidatas a vacina para a COVID-19. “E a história da vacinologia, na qual estive envolvido durante quatro décadas, está repleta de coisas que acreditávamos que sabíamos”. 

O que acontece se alguém tomar uma vacina para a COVID-19 e ainda assim contrair a doença? Será que a pessoa apresentaria um caso ainda mais severo da doença — um fenômeno conhecido como incremento dependente de anticorpos? Ou, num cenário menos dramático, e se as vacinas impedirem os indivíduos imunizados de desenvolverem a doença, mas não de transmitirem o vírus a outras pessoas? Caso os indivíduos vacinados julguem  estar seguros e se tornem portadores  assintomáticos do vírus, isso poderia piorar a pandemia. Outro fator a ser levado em conta é que observamos uma grande variedade de imunidade natural ao vírus entre as pessoas que já foram contaminas por todo o planeta. Talvez, então, haja uma diversidade similar nas respostas à vacina. “Existem muitas armadilhas que podem estar à espreita”, diz Poland. 

Além disso, as vacinas da Moderna e da Pfizer possuem problemas logísticos que as impedem de serem liberadas, facilmente, pelo mundo. A vacina da Pfizer precisa ser armazenada em -70º Celsius — mais frio do que a Antártida — em congeladores que custam muitos milhares de dólares. As vacinas da Moderna podem ser armazenadas em -15º Celsius, mas, devido a exigência dos freezers, isso diminui as chances de usá-la em regiões  rurais da Índia ou da África, ou áreas mais pobres e mais povoadas na América do Sul. Enquanto as vacinas forem frágeis, caras e difíceis de distribuir, a pandemia irá continuar. 

Mas, de longe o problema mais importante, diz Altmann, é a “durabilidade”, isto é, por quanto tempo se manterá a imunidade nos indivíduos que foram vacinados.  Se uma vacina conferir imunidade somente por alguns meses, ao invés de muitos anos, pouco progresso será realizado em seis meses. Até lá, pode ser que nos deparemos com formas mais virulentas da doença. 

A boa notícia, entretanto, é que já há vacinas de “segunda geração” em desenvolvimento, e muitas delas empregando técnicas novas. “Uma coisa que certamente a maioria das pessoas não percebeu é que o campo da vacinologia evoluiu muito ao longo dos últimos 15 anos, desenvolvendo um alcance incrível de novas estratégias” diz Altmann. Existem quase 240 novos candidatos a vacina em desenvolvimento, esperando por seu momento. Aqui estão algumas que mostram mais potencial. 

RNA de auto-amplificação (Imperial College London)

Similar às vacinas de mRNA já aprovadas, esta candidata insere material genético do vírus diretamente dentro das células humanas, fazendo com que o corpo produza a famosa proteína “spike” que sobre a superfície do SARS-CoV-2. E, como as vacinas de mRNA, o projeto do Imperial College London somente entrega o material genético, não o vírus em si, então é improvável que exacerba doenças caso as pessoas sejam infectadas após a vacinação. O ponto importante dessa vacina é que ela foi modificada para transformar as próprias células do corpo em fábricas que produziriam continuamente proteínas “spike” por conta própria, o que significa que uma segunda dose não será necessária. Ainda nesse sentido, tal “auto-amplificação” de RNA pode ser produzida em grande escala, com baixo custo. “Estou muito empolgado sobre como [essa abordagem] pode funcionar como as vacinas da Pfizer e da Moderna, só que ainda melhor”, diz Altmann, que não está envolvido diretamente com essa vacina. 

Subunidade protéica (NOVAVAX)

Pesquisadores na empresa Novavax, localizada em Maryland, EUA, focaram em entregar a proteína “spike” em si (ao invés de um vírus inteiro ou do seu material genético). Eles criaram a vacina manipulando células de mariposas para conterem as proteínas spike como biorreatores de baixo custo.  Além disso, essa vacina pode ser mantida entre dois e oito graus Celsius,  -a temperatura comum de refrigeração, o que torna a distribuição mais prática.  O truque com essa abordagem é a adição de um “adjuvante”,  um aditivo que “aumenta” a resposta do sistema imunológico,  que é composto de saponinas, um composto derivado da casca de um sapo do Chile.  “A tecnologia da manipulação das proteína já foi testada e aprovada. Ela [a nova vacina] apenas exige um pouco mais de tempo para ser produzida do que a vacina de mRNA”, explica Gregory Glenn, presidente de pesquisa e desenvolvimento na Novavax.

Projeto de nanopartícula de proteína (Instituto para Desenvolvimento de Proteína, Universidade de Washington)

Assim como a Novavax, pesquisadores da Universidade de Washington escolheram como ferramenta as  proteínas do SARS-CoV-2 . Mas, ao invés de injetar a proteína spike inteira, eles escolheram somente o “calcanhar de Aquiles” do vírus: o domínio de ligação receptor (RBD), a porção da proteína spike que se conecta diretamente às células humanas. Neil King, bioquímico no Instituto para Desenvolvimento de Proteína da universidade, criou uma vacina entregue por “nanopartículas” esféricas, em formato de bolas de futebol. Proteínas de RBD sintéticas são afixadas nessas nanopartículas de maneira regular. Esse projeto torna a vacina capaz de provocar respostas de anticorpos pelo menos 10 vezes maior do que aquelas que utilizam a proteína spike inteira e natural, diz King. “Não estamos somente pegando proteínas que já existem e manipulando-as um pouco; estamos produzindo proteínas completamente novas para fazer exatamente o que queremos”, ele nota. A vacina está atualmente sendo testada em ensaios de fase I com voluntários humanos. Se for bem-sucedida, poderia chegar ao público ainda este ano. 

Outras vacinas em desenvolvimento

Existem ainda outros candidatos a vacina em desenvolvimento. Outras que poderiam diminuir a pandemia, incluindo a vacina desenvolvida pela Sinovac Biotech na China, usam recursos  mais convencionais, como o vírus inativado (uma técnica utilizada para ajudar a conquistar a polio e ainda utilizada em muitas vacinas para influenza). Ainda será preciso observar quais serão os efeitos dessas novas abordagens. Mas, com tantas iniciativas em andamento,  existe um bom motivo para acreditar que o fim do pesadelo da pandemia esteja  à vista. 

E quando ela acabar de fato, os cientistas disporão de muitas ferramentas prontas para usar contra a próxima pandemia. 

Zoe Cormier

Publicado em 28/01/2021

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