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A Amazônia e o carbono atmosférico

Região armazena mais de 100 gigatoneladas do principal gás do efeito estufa

A bacia amazônica contém uma gama variada de ecossistemas e grande riqueza em termos de diversidade biológica e étnica. Inclui a maior extensão de floresta tropical da Terra, mais de 5 milhões de km2 e responde por aproximadamente um quarto das espécies animais e vegetais do planeta. Hoje, apenas algumas espécies são usadas pelo homem. A região tem recursos hídricos abundantes. A precipitação atmosférica anual é de 2,3 m, em média, e a descarga média do rio Amazonas no oceano Atlântico é de cerca de 220.000 m3/s, o que corresponde a 18% da descarga total de água fresca nos oceanos do mundo.

A região armazena mais de cem gigatoneladas de carbono em vegetação e solos. Mas, durante os últimos 30 anos, o desenvolvimento rápido levou ao desflorestamento de mais de 550 mil km2 só no Brasil. As taxas correntes de desflorestamento anual estão entre 15 mil km2 e 20 mil km2 no Brasil, segundo os números do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) relativos a 2001, baseados em análises do satélite Landsat.

Uma série de estudos de campo realizados durante os últimos 20 anos mostraram que o desflorestamento e a queima de biomassa causaram mudanças significativas, mas ainda localizadas, nos ciclos da água, da energia, do carbono e dos nutrientes, assim como na composição atmosférica. Por exemplo: a floresta é importante para a reciclagem do vapor d\’água através da evapotranspiração durante o ano todo, contribuindo assim para aumentar a precipitação das chuvas e para sua própria manutenção.

Emissão e absorção de carbono

Um impacto importante do uso da terra e da mudança da camada superior da terra na Amazônia, com conseqüências globais, são as emissões de dióxido de carbono decorrentes do desflorestamento e da queima de biomassa. As emissões anuais totais de CO2 na Amazônia derivadas do uso da terra e da mudança da manta ou camada humífera estão entre 150 e 200 megatoneladas de C (Houghton et al., 2000). Em comparação, as emissões anuais totais de CO2 causadas pela queima de combustíveis fósseis são de apenas 75 megatonelas de C no Brasil como um todo. Por outro lado, estudos sobre os ciclos do carbono do Experimento Biosfera-Atmosfera em Larga Escala (LBA em inglês) e os estudos de inventário florestal (Phillips et al., 1998) indicam que a floresta intacta pode ser um absorvedouro de carbono em taxas que vão de 0,8 até a elevada cifra de 7 toneladas de C/ha-1 anuais (Malhi et al., 1998; Malhi et al., 1999); Araújo et al., 2002; Nobre et al., 2000).,O gráfico da página 38 mostra toda a evidência observacional reunida e é uma “síntese” preliminar de nossos conhecimentos incompletos sobre o ciclo do carbono na Amazônia. O “volume do seqüestro” não é inferior a 0,8 a 1,5 toneladas de C/ha-1 anuais. Quanto às áreas da bacia cobertas de florestas, esse volume de seqüestro pode representar uma captação líquida de carbono da ordem de 0,3 a 0,6 gigatoneladas de C por ano. Subtraindo as emissões médias de 0,2 a 0,3 de gigatoneladas de C por ano, conclui-se que a captação líquida da bacia estaria por volta de 0 a 0,4 gigatoneladas de C por ano.

Mas ainda não se sabe, em escala regional, se a floresta atua como um absorvedouro ou como uma fonte de emissão de carbono para a atmosfera (Keller et al., 1997). Os dados recentes sugerem que as emissões de CO2 dos rios, ribeirões e brejos podem ser muito maiores que se pensava até agora, contribuindo com cerca de 1 tonelada de C/ha-1 por ano (Richey, 2002).

No geral, se o resultado da floresta intacta comportando-se como um absorvedouro de carbono for confirmado por pesquisas posteriores, esse fato lançaria um pouco mais de luz sobre o papel das florestas tropicais no equilíbrio global do carbono. A função de seqüestrador de carbono atmosférico então ser considerada mais um serviço ambiental prestado pela floresta.

Reflorestamento e proteção florestal

Os projetos de silvicultura da bacia amazônica podem ser usados de diversas formas com objetivos de captação de carbono e redução das emissões. Há um potencial enorme para os projetos de reflorestamento na Amazônia brasileira: mais de 200 mil km2 de terra estão abandonados no momento e/ou em estado de degradação. Um projeto em andamento em Juruena, no norte do Estado do Mato Grosso, pode exemplificar os custos envolvidos e os benefícios derivados das atividades de reflorestamento. Nesse caso, 5 mil ha foram reflorestados com uma mistura de 20 espécies nativas e um custo total de US$ 12 milhões durante 40 anos e um armazenamento total de 600 mil – 750 mil toneladas de carbono. Entre 120 e 150 toneladas de carbono, os custos por tonelada estão entre US$ 16-20.,No momento, as atividades de proteção à floresta não estão incluídas no Mecanismo de Desenvolvimento Limpo. Mas o seguinte exemplo hipotético mostra que evitar o desflorestamento tem um potencial evidente enquanto medida de redução da emissão do carbono. Uma redução de 15% a 20% da taxa de desflorestamento da Amazônia brasileira representaria cerca de 3 mil km2 de floresta protegida e uma redução total da emissão de 30-40 megatoneladas de carbono por ano. Uma área reflorestada de aproximadamente 40 mil-50 mil km2 seria necessária para assimilar essa quantidade de carbono (a taxas de crescimento de 6 a 9 ton C ha-1 por ano); seriam necessárias décadas para implementar projetos de reflorestamento dessa magnitude. Na verdade, é por isso que evitar o desflorestamento pode vir a ser tão ou mais importante do que o reflorestamento e o aflorestamento como medida para diminuir as emissões de dióxido de carbono.

É claro que se pode questionar se é praticável reduzir as taxas de desflorestamento na Amazônia brasileira em 15% a 20%. Nesse sentido, um caso interessante é o Estado do Mato Grosso, que mostra uma tendência de reduzir essas taxas nos últimos anos. No período entre os anos 1998 e 2001, a queda das taxas anuais foi de cerca de 30%. A combinação de imposição rigorosa da lei, uso de tecnologia moderna para o controle remoto e GIS (Sistema de Informações Geográficas, na sigla em inglês) para tornar a obediência à lei mais efetiva, assim como programas educativos, podem explicar essa tendência.

Possibilidades de mudanças

Uma importante questão científica é saber se esse possível seqüestro biótico de CO2 vai se saturar em algum momento deste século devido ao aquecimento global, isto é, se a floresta intacta pode se tornar uma fonte de carbono graças à rápida decomposição do carbono do solo sob uma temperatura cada vez mais elevada. As possibilidades de mudanças climáticas devidas ao aquecimento global indicam um clima de 40 C a 60 C mais quente na Amazônia no final do século (Carter & Hulme, 2000).,Esse aquecimento pronunciado pode ter impactos graves em termos de mudanças nos ecossistemas. Há sugestões de que a mudança climática pode levar a mudanças drásticas na vegetação da Amazônia, principalmente uma tendência de “savanização” (Cox et al., 2000). O desflorestamento maciço pode resultar numa tendência semelhante (Nobre et al., 1991). Também está se tornando cada vez mais claro que a fragmentação da floresta devido à derrubada seletiva e outras alterações no uso da terra estão deixando as florestas mais suscetíveis a incêndios (Nepstad et al., 2000). Essa suscetibilidade aumentaria ainda mais com um clima mais quente (Nepstad et al., 2000). O resultado pode ser um aumento na perda de floresta devido a incêndios florestais incontroláveis, como aquele que foi o maior incêndio florestal de toda a história brasileira que, de janeiro a março de 1998, queimou 14 mil km2 de floresta em Roraima.

De acordo com a evidência observacional, pode-se concluir que as florestas tropicais da Amazônia desempenham um papel significativo como sorvedouro para o excesso de dióxido de carbono atmosférico. Evitar o desflorestamento deve ser considerado uma contribuição importante para reduzir as emissões globais.,,Araújo, A.C., A.D. Nobre, B. Kruijitz, A.D. Culd, Stefani, J. Elber, Dallarosa, C. Randow, A.O. Manzi, R. Valentini, J.H.C. Gash, P. Kabat, 2002. Estudo de longo prazo das torres duplas sobre os fluxos de dióxido de carbono para uma floresta úmida da Amazônia Central, Journal of Geophysical Research (no prelo).

Carter, T. & M. Hulme, 2000. Interim Characterizations of Regional Climate and Related Changes up to 2100. Associates with the Provisional SRES Marker Emissions Scenarios. IPCC Secretariat, c/o WMO, Genebra, Suíça.

Cox, P. M., R.ª Betts, C.D. Jones, S.A. Spall & I. J. Totterdell, 2000. Aceleration of global warming due to carbon-cycle feedbacks in a coupled climate model. Nature, 408: 184-187.

Houghton, R.A., D.L. Skole, C.A. Nobre, J. L. Hackler, K.T. Lawrence & W.H. Chomentowski, 2000. “Annual fluxes of carbon from deforestation and regrowth in the Brazilian Amazon.” Nature

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